O Chicago Mercantile Exchange Group (CME Group) se descreve com orgulho como o lugar “onde o mundo vem para gerenciar riscos”. Exceto na sexta-feira, o mundo ficou sem acesso.
A negociação de futuros e opções foi interrompida devido a uma falha em um data center, afetando vários mercados e contratos que cobrem trilhões de dólares.
Mais de nove horas após o primeiro alerta aparecer no site do CME na noite de quinta-feira nos EUA, a empresa informou que os serviços estavam começando a ser restabelecidos.
Durante a interrupção, houve problemas com os futuros do índice S&P 500, bem como com a plataforma de câmbio EBS e com todas as negociações, desde títulos do Tesouro até petróleo bruto dos EUA.
Em Cingapura, um operador de petróleo disse que, quando o alerta inicial foi emitido por volta das 10h30 da manhã, horário local, na sexta-feira, pensou que fosse um trote, pois as negociações e cotações ainda estavam sendo transmitidas. Mas, alguns minutos depois, a tela congelou repentinamente e ele foi desconectado da plataforma Nymex. Um operador em Londres pensou que estava com problemas de conexão Wi-Fi.
Com o serviço principal fora do ar, as telas que normalmente exibiriam uma parede de números piscando pararam completamente, e os operadores tiveram que buscar outras opções para continuar negociando e operando.
“É muito irritante. Queríamos precificar algumas opções de índices de ações”, disse Gerald Gan, vice-diretor de investimentos da Reed Capital Partners, com sede em Cingapura. “Meu provedor está buscando alternativas, mas duvido que a liquidez seja tão ampla quanto a da CME.”
Essas reações refletem como a CME — que começou no final do século XIX como Chicago Butter and Egg Board — cresceu e se tornou parte integrante da engrenagem do mercado global e uma parte crucial do trabalho diário dos operadores. Em média, em outubro, os volumes de negociação de derivativos totalizaram mais de 26 milhões de contratos por dia, de acordo com dados do grupo, que é a maior bolsa de derivativos do mundo.
Em 20 de novembro, o interesse em aberto nos futuros e opções do Tesouro dos EUA da CME atingiu um recorde histórico de 35,1 milhões de contratos. Cerca de US$ 1 trilhão em valor nocional é negociado diariamente apenas nos futuros do E-mini S&P 500 e Nasdaq 100.
As interrupções nas bolsas de valores têm ocorrido com frequência nos últimos anos, com problemas tecnológicos afetando a precificação em plataformas em todo o mundo.
Em junho de 2024, uma falha durante uma atualização de software levou a Bolsa de Valores de Nova York a interromper erroneamente a negociação de cerca de 40 ações e exibir negociações atípicas mostrando uma queda de 99% nos preços. No início do ano, problemas técnicos interromperam as negociações pré-mercado da Nasdaq por quase três horas.
Na Europa, o London Stock Exchange Group Plc sofreu três interrupções em poucos meses no final de 2023.
A mais recente falha da CME é muito mais longa do que uma interrupção de algumas horas em 2019, o que levanta questionamentos para a empresa sobre seus planos de contingência.
No LinkedIn, um funcionário da empresa de trading de commodities Glencore comentou “Verdadeira Black Friday” em resposta a uma publicação sobre o assunto.
Esperava-se que a sexta-feira fosse um dia relativamente tranquilo para os mercados de ações, sem dados econômicos dos EUA programados e sem discursos de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
Embora alguns no mercado tenham afirmado que a liquidez abaixo do normal devido ao feriado de Ação de Graças e ao horário reduzido limitaria a volatilidade, também houve frustração com os desafios de negociar sem indicações sobre a movimentação dos preços nos EUA.
“Considerando a sessão mais curta, a falta de dados hoje e a baixa volatilidade nos mercados devido ao feriado de ontem, não poderia haver um dia melhor para isso acontecer, já que os volumes já estariam baixos”, disse Paul Hickey, cofundador do Bespoke Investment Group. “Por outro lado, em um dia em que a liquidez já é escassa, isso só tornou mais difícil a realização de negociações.”
A interrupção limitou as negociações de futuros de títulos do Tesouro e os títulos à vista foram negociados esporadicamente. Existem métodos alternativos para proteger as negociações, como por meio de mercados de swaps, que se tornaram mais ativos após o início das negociações em Londres, segundo operadores.
“Ainda bem que isso não está acontecendo em um evento como o ‘Dia da Libertação'”, disse Ritik Katte, diretor de investimentos da MCD Capital, uma empresa de investimentos com sede em Londres, referindo-se ao anúncio das tarifas comerciais americanas em abril.
Os futuros dos mercados de títulos europeus e do Reino Unido são negociados em uma bolsa diferente e não foram afetados.
No mercado cambial, um operador relatou que, quando as negociações começaram às 8h em Londres, algumas plataformas inicialmente apresentaram spreads de compra e venda elevados.
“Normalmente usamos derivativos para operações táticas, mas obviamente foi impossível esta manhã”, disse Amelie Derambure, gestora de portfólio da Amundi SA. “Felizmente, é um dia tranquilo. Teria sido uma grande desvantagem se fosse um dia movimentado.”
Alguns disseram que estavam evitando operar devido aos riscos representados pela interrupção em um dia em que já se esperava um volume de negociação menor.
“Tenho receio de operar em um dia com tão pouca liquidez, então eu não gostaria de executar ordens de qualquer maneira”, disse Rajeev De Mello, diretor de investimentos da Gama Asset Management. “E com essa interrupção, ainda mais.”