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- Author, Alejandra Martins
- Role, BBC News Mundo
“As mudanças climáticas são apenas um sintoma, não o problema principal”, declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o engenheiro suíço Mathis Wackernagel.
Ao lado do canadense William Rees, Wackernagel ficou conhecido nos anos 1990 por desenvolver o conceito da pegada ecológica. Ele ganhou diversos prêmios internacionais por criar uma forma de medir o impacto da humanidade sobre a Terra.
“O problema principal é que consumimos recursos demais, em comparação com o tamanho do planeta”, destaca ele.
Atualmente, o engenheiro é diretor da Global Footprint Network (“Rede de Pegadas Globais”, em tradução literal), um grupo de especialistas que criam e promovem ferramentas de sustentabilidade.
Para ele, a maioria dos males ambientais ― desde o acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera até o desmatamento e a perda da biodiversidade ― tem uma causa subjacente: a superexploração da natureza.
“O principal recurso do planeta não são as terras raras, mas a regeneração da natureza, pois é ela que produz alimentos, madeira e fibras”, destaca ele. “Sem a natureza, nada funciona.”
A atividade humana vem comprometendo cada vez mais a capacidade de regeneração da Terra. Mas é possível escolher um caminho mais sustentável.
E o Uruguai tem lições valiosas a ensinar para o resto do mundo, segundo Wackernagel.

Crédito, Acervo pessoal/Mathis Wackernagel
O Dia da Sobrecarga da Terra
Wackernagel defende duas ideias fundamentais: a pegada ecológica e a biocapacidade.
A pegada ecológica indica o quanto estamos retirando da natureza. É a superfície de terra e água necessária para produzir todos os recursos que consumimos.
“Para cada laranja que você come, é preciso ter um terreno que produza todo ano aquela laranja”, explica ele.
Já a biocapacidade é o poder que têm os ecossistemas de regenerar o que as pessoas exigem dessas superfícies, além de absorver os seus dejetos.
Com base nestas ideias, Wackernagel calcula todos os anos o Dia da Sobrecarga da Terra, que é a data em que a demanda anual da humanidade sobre a natureza excede o que os ecossistemas do planeta podem regenerar naquele ano.
Em outras palavras, é o dia em que o planeta entra em déficit ecológico. Este ano, o Dia da Sobrecarga da Terra ocorreu em 24 de julho.
“Isso significa que, entre 1° de janeiro e 24 de julho, consumimos tudo o que a Terra consegue regenerar em todo o ano”, explica o engenheiro.
“No dia 25 de julho, o mundo não acaba, mas, desde aquela data, estamos reduzindo o capital natural, superutilizando recursos e deixando uma dívida ecológica para o futuro, com mais CO₂ na atmosfera, menos florestas, solo mais maltratado e menos água nos aquíferos.”
Wackernagel calcula que, atualmente, a humanidade utiliza a natureza com velocidade 1,8 vezes maior que a capacidade de regeneração dos ecossistemas da Terra. Ou seja, nós utilizamos os recursos de 1,8 planetas Terra para viver.

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O caminho da sustentabilidade
O Dia da Sobrecarga adiantou três meses nas últimas duas décadas. Mas este é um processo que não pode seguir indefinidamente.
“Fisicamente, não é possível retirar cada vez mais”, explica Wackernagel.
“Você pode viver com um déficit financeiro até que o dinheiro acabe e você abra falência. O mesmo acontece com a natureza.”
“A sobrecarga irá acabar, sem dúvida. A questão é como ela irá acabar, se foi porque encontramos caminhos para a sustentabilidade ou se por pressão da natureza, porque não existem mais árvores para cortar”, alerta ele.
Para mostrar possíveis caminhos de maior sustentabilidade, Wackernagel calcula o que ele chama de Dias de Sobrecarga por País. Eles indicam quando a Terra entraria em déficit ecológico se todas as pessoas do planeta vivessem como a população de um determinado país.
É preciso esclarecer que isso é diferente do dia em que cada país entra em déficit, ou seja, quando um país começa a exigir mais do que os ecossistemas do seu próprio território podem regenerar por ano. Esta medida também está disponível no site da Global Footprint Network.
Wackernagel calcula os Dias de Sobrecarga por País com base em cerca de 15 mil pontos de dados estatísticos da ONU, o que permite comparar diferentes nações.
Se todas as pessoas do mundo vivessem como no Catar, por exemplo, esgotaríamos os recursos que a Terra pode regenerar em um ano no dia 6 de fevereiro. O país árabe é o primeiro da lista de países em 2025.
Em relação ao Brasil, se todos os habitantes do mundo vivessem como os brasileiros, o Dia da Sobrecarga do planeta seria 1° de agosto.
E, dentre os mais de 80 países incluídos no cálculo, a nação com uso mais sustentável de recursos é o Uruguai. Se a população mundial vivesse como os uruguaios, o Dia da Sobrecarga da Terra cairia em 17 de dezembro.
Wackernagel explica que seus cálculos não incluem países onde não há dados suficientes, nem nações cujos padrões de consumo não resultariam em déficit ecológico, devido aos altos níveis de pobreza, como Bangladesh.
Ele também reconhece que o Uruguai ainda não descarbonizou certos setores da sua economia, como o transporte, que depende, em grande parte, dos combustíveis fósseis.
De qualquer forma, o engenheiro afirma que “se todos vivessem como no Uruguai, o planeta entraria em déficit ecológico muito mais tarde que atualmente”.
Para ele, “um ponto em que o Uruguai se destaca, que eles fizeram muito bem, é a forma em que substituíram sua matriz elétrica por energias renováveis“.
O país transformou radicalmente sua matriz elétrica, que dependia em 50% de combustíveis fósseis em 2008. Atualmente, 99,1% da eletricidade gerada no país vem de energias renováveis.
Como o Uruguai conseguiu tamanho sucesso?

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As três chaves da solução uruguaia
“Foi uma combinação de vários fatores”, afirma o físico de partículas Ramón Méndez Galain, diretor nacional de energia do Uruguai entre 2008 e 2015, que foi o arquiteto da transformação energética do país.
Entre muitos outros prêmios, Méndez Galain recebeu neste ano o prestigiado prêmio Climate Breakthrough, por demonstrar que “os países pequenos podem liderar o mundo nas ações climáticas e, ao mesmo tempo, fortalecer sua economia e melhorar a vida da população”.
Em 2008, o Uruguai enfrentava uma “tempestade perfeita”, que levou o país a buscar caminhos novos para gerar eletricidade.
O Uruguai não tem reservas de combustíveis fósseis e sofreu uma crise de abastecimento de energia naquele ano.
“Já havíamos utilizado nossos grandes rios para instalar usinas hidrelétricas”, segundo Méndez Galain. “A isso é preciso acrescentar que o Uruguai sofre grande influência do fenômeno El Niño.”
“Por isso, a única energia renovável que tínhamos era a hidráulica, que variava permanentemente, todos os anos, causando inúmeros problemas, como a necessidade cada vez maior de importar combustível.”

Crédito, Acervo pessoal/Ramón Méndez Galain
Méndez Galain explica que a mudança da matriz elétrica do país foi baseada em três elementos principais.
O primeiro foi conseguir, em 2010, um acordo multipartidário pela transição energética para fontes locais e renováveis.
“Firmar um acordo entre todos os partidos políticos do país sobre o caminho que iríamos tomar nos 25 anos seguintes foi absolutamente fundamental neste processo”, ele conta. “Já são cinco governos consecutivos seguindo a mesma política.”
O segundo elemento foi a construção de uma governança firmemente liderada pelo Estado, mas com associação público-privada.
“O Uruguai conta com uma empresa pública de distribuição de eletricidade, a UTE, mas a maior parte dos investimentos veio do setor privado”, descreve o físico.
“Foram cerca de US$ 6 bilhões [cerca de R$ 32 bilhões], 12% do PIB do Uruguai na época, uma cifra altíssima para um país com uma economia tão pequena.”
As empresas privadas investiram, por exemplo, em parques eólicos, mas com as regras do jogo definidas pelo governo.
Elas deveriam vender a energia elétrica para a empresa estatal UTE “e a empresa pública assumiu o compromisso de comprar toda a energia elétrica produzida por 20 anos”.
O terceiro elemento foi construir o ecossistema transformador adequado, para permitir a entrada das fontes renováveis.
“Todos os sistemas energéticos do mundo têm forte tendência a favorecer a continuidade das energias fósseis”, afirma ele, o que “impede que as fontes renováveis possam vencer, do ponto de vista competitivo”.
“Por isso, o que fizemos foi uma profunda revisão de todo o marco regulatório e de toda a estrutura do mercado para adaptá-lo às características das fontes renováveis”, explica Méndez Galain.
Criar um ecossistema transformador requer, por exemplo, a redefinição de regulamentações, do papel das instituições e do mercado, a criação de novas capacidades, novas carreiras universitárias e linhas de pesquisa científica, bem como a obtenção de novos dados e indicadores, segundo o físico.
“Tudo isso representa a construção de um ecossistema transformador com essa multiplicidade de visões, que permita desenvolver efetivamente um novo sistema.”
Atualmente, a eletricidade uruguaia é gerada por uma combinação de energia hidrelétrica (cerca de 45%), eólica (cerca de um terço), combustão de biomassa e energia solar.
O restante é gerado por centrais térmicas movidas a combustíveis fósseis. Seu uso aumenta quando o clima afeta as fontes renováveis, como em épocas de seca.

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Essa transição trouxe diversos benefícios, segundo Méndez Galain.
“Os custos de geração de eletricidade foram reduzidos pela metade, de cerca de US$ 1,1 bilhão [cerca de R$ 5,9 bilhões] por ano, em média, para cerca de US$ 600 milhões [cerca de R$ 3,2 bilhões].”
Já as tarifas para os usuários caíram em cerca de 20%.
“Não transferimos tudo para as tarifas porque, no Uruguai, a empresa pública é uma fonte de renda para o Estado, que usa os lucros para beneficiar outras políticas públicas, em setores como a educação, desenvolvimento, saúde etc.”, explica o físico.
A transição energética criou também 50 mil postos de trabalho e o Uruguai, agora, exporta eletricidade.
“A UTE, empresa elétrica, hoje é a principal exportadora de bens e produtos do país, o que traz divisas”, prossegue Méndez Galain. “Chegamos a ter até US$ 450 milhões [cerca de R$ 2,4 bilhões] em divisas obtidas com a exportação de excedentes de energia.”
A nova matriz energética também permitiu estabilizar as tarifas e fez com que a geração de eletricidade passasse a ser imune a eventos geopolíticos, como a guerra na Ucrânia.
Após o sucesso do Uruguai, Méndez Galain fundou a organização Ivy, que ajuda países da América Latina e do Caribe em suas transições climáticas e energéticas.
Para ele, o modelo uruguaio de transição “pode ser reproduzido em qualquer país do mundo, independentemente das suas características”.
‘Esquema de pirâmide’
Mathis Wackernagel destaca que o caso do Uruguai é especialmente relevante frente à nova realidade global.
Segundo ele, “estamos em um mundo novo, no qual o fator limitador são os recursos físicos e a mãe de todos os recursos é a biocapacidade”.
O engenheiro destaca que a própria energia fóssil não é limitada apenas pelas jazidas disponíveis, mas pela capacidade da biosfera de absorver os gases do efeito estufa.
“Poderíamos absorver mais CO₂ plantando mais árvores, mas teríamos menos espaço para produzir comida”, destaca ele. “É uma concorrência por terras produtivas.”
Ele afirma que, neste novo mundo, “a América do Sul é rica”, pois detém muitos recursos ecológicos em relação à sua população, se compararmos com o resto do mundo.
Mas a compensação pela biocapacidade ainda não é adequada, devido a “uma grande falha de mercado”.
“O que devemos nos perguntar é até que ponto deveriam ser aumentados os preços dos recursos para que a demanda fique em um nível sustentável para o planeta”, defende Wackernagel.

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Para o engenheiro, o futuro nunca foi tão previsível.
“Sabemos que haverá mudanças climáticas e uma escassez cada vez maior de recursos”, segundo ele. Mas a humanidade continua praticando uma espécie de “esquema de pirâmide com os recursos do planeta”, pagando o presente com o futuro.
“A locomotiva da economia precisa de combustível para se mover, que são os recursos”, explica o engenheiro. “Precisamos deles em quantidade cada vez maior e usamos os recursos do futuro para movimentar a locomotiva do presente.”
Para o especialista, não precisamos esperar que as soluções para desafios como as mudanças climáticas ou a superexploração da natureza venham necessariamente de acordos globais, mas sim de soluções locais, como a do Uruguai.
“Não temos um problema comum. Estamos em um contexto comum e depende de como cada país irá se preparar para o futuro.”
“O futuro será regenerativo, ou não haverá futuro”, conclui Wackernagel.
Gráficos de Carlos Serrano, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Mundo.