No início do século 20, milhares de trabalhadores pobres – muitos deles imigrantes europeus – viviam amontoados nos conventillos de Buenos Aires, habitações coletivas semelhantes aos cortiços brasileiros, marcadas pela superlotação, pela precariedade sanitária e por aluguéis cada vez mais abusivos. Em 1907, quando os proprietários anunciaram novos aumentos, os moradores decidiram reagir. Nascia ali a Greve dos Inquilinos, uma das maiores mobilizações urbanas da história da Argentina.
Impulsionado por organizações anarquistas e operárias, o movimento reivindicava melhores condições de moradia e redução dos aluguéis, mas acabaria se tornando também um marco do protagonismo feminino nas lutas urbanas latino-americanas. Enquanto muitos homens trabalhavam longas jornadas, mulheres e crianças ocupavam as ruas, organizavam assembleias, enfrentavam despejos e confrontavam a repressão policial.
Entre as principais lideranças do movimento estavam a militante anarquista Virginia Bolten e a jovem Juana Rouco Buela. Empunhando vassouras, as mulheres transformaram um objeto doméstico em símbolo político, numa tentativa de “varrer” a exploração imobiliária e a miséria social produzida pela cidade – razão pela qual o episódio ficou conhecido como Greve das Vassouras.
Mais de um século depois, a escritora colombiana Laura Ortiz Gómez retorna a esse episódio em Indócil, recém-lançado no Brasil pela Arquipélago Editorial, com tradução de Mariana Sanchez. Potente e inventivo, o romance não busca reconstituir com fidelidade os acontecimentos históricos que o inspiram. “Queria fazer um romance delirante”, afirma a autora.
Na narrativa, uma antiga casa senhorial ganha vida própria e se impõe como personagem central – observando e reagindo às relações de poder que atravessam seus cômodos. A ideia de dar vida a uma casa partiu do questionamento da autora de como seria a relação das pessoas com as coisas “se não estivéssemos tão atravessados pela ideia de propriedade”. É nesse espaço que se cruzam as histórias de Vira e Olena, duas imigrantes ucranianas que trabalham como domésticas e vivem uma história de amor em meio à greve.
Entre 2016 e 2023, Ortiz viveu em Buenos Aires, em um casarão do começo do século 20 cujas condições de moradia eram extremamente precárias. A experiência pessoal com contratos abusivos, aumentos constantes de aluguel e precarização habitacional foi o que a levou a investigar as origens da crise habitacional na Argentina. “Era uma dinâmica mafiosa e de medo, que jogava com a nossa necessidade”, afirma. A autora encontrou não apenas um problema estrutural, “enraizado no DNA da cidade”, mas também experiências históricas de resistência coletiva. “Descobri que, embora a história seja cíclica em sua dor, ela também guarda possibilidades de resistência muito arriscadas, cheias de uma coragem que hoje pode nos ensinar sobre dignidade”, diz.
Em entrevista à Cult, Laura Ortiz Gómez fala sobre migração, especulação imobiliária, anarquismo, memória histórica e literatura em tempos de dessensibilização e excesso de informação.
De que maneira você se aproximou do episódio da Greve das Vassouras? Por que decidiu recuperá-lo?
Vivi como imigrante durante sete anos em Buenos Aires, em um casarão do começo do século 20. As condições da casa e os acordos de aluguel eram muito precários. Os proprietários se aproveitavam da dificuldade de conseguir moradia em Buenos Aires: elaboravam contratos abusivos, com aumentos delirantes, e faziam com que nós, inquilinos, arcássemos todo mês com reparos estruturais. A casa, que não recebia manutenção havia anos, estava à beira do colapso.
Era uma dinâmica mafiosa e de medo, que jogava com a nossa necessidade. Em momentos de grande desespero, sentindo minha dignidade em jogo, comecei a investigar as causas de tal situação. Naquele momento, não existia uma lei do inquilinato; ou seja, os proprietários podiam impor todas as condições a seu favor. Descobri, também, que as imobiliárias – que ganhavam percentuais desproporcionais às custas do inquilino – tinham um enorme poder de lobby no Congresso e, o mais terrível, que as moradias em Buenos Aires estavam concentradas em muito poucas mãos.
Com a economia oscilante e instável, conseguir um financiamento imobiliário era impossível para a maioria da população. Isso, para aqueles que concentravam propriedades, era negócio: o negócio de lucrar de forma predatória sobre a necessidade mais básica de um cidadão, que é ter um teto. A senhora que administrava as propriedades dos donos da minha casa, contou-me, certa vez, que eles tinham cerca de cem imóveis. Essa revelação me atingiu profundamente. Como é que eles podiam ficar com a maior parte da renda de mais de cem famílias e nem sequer garantir os reparos mínimos para uma vida digna? Como conseguiam dormir à noite, em suas casas impecáveis, sabendo que parte daquele conforto era financiado pela precariedade de outros? Eles nos enxergavam como seres humanos, complexos e sensíveis, como eles? Ou éramos apenas parte da engrenagem do negócio?
Quis investigar movimentos sociais que se opuseram a essa crueldade sistemática, e foi assim que descobri que o problema era histórico – enraizado no DNA da cidade e constitutivo do projeto de país. Descobri que a cidade que se orgulha de ter sido feita por imigrantes europeus no começo do século 20, já havia criado um circuito predatório de acumulação de terras, obrigando os recém-chegados a pagar, com seu trabalho, o luxo dos proprietários. Essa acumulação de terras tinha relação com as “campanhas do deserto”, nas quais houve um projeto nacional de exterminar comunidades indígenas para tomar suas terras férteis. Mas também encontrei esperança na greve dos inquilinos de 1907, em que mulheres e crianças se opuseram, com o corpo e o coração, à indignidade. Descobri que, embora a história seja cíclica em sua dor, ela também guarda possibilidades de resistência; e muito arriscadas, repletas de uma coragem que muito pode nos ensinar, hoje, sobre dignidade.
As protagonistas – Vira e Olena – foram inspiradas nas líderes do movimento – Juana Rouco e Virginia?
Um pouco sim e um pouco não. Os personagens são construídos a partir de todo tipo de ecos e influências. Embora eu tivesse interesse em escrever um romance centrado em um episódio histórico, eu não queria fazer um romance histórico – no sentido de relatar o real, o verídico, o factual. Queria fazer um romance delirante, radicalmente imaginativo e alucinado. Acredito que a poesia é, em si mesma, anarquista, pois desafia as hierarquias da linguagem. Então, embora eu tenha tido como referência muitos personagens históricos, para construir Vira e Olena procurei contaminá-las com uma visão mais íntima das dores da migração. Assim, elas têm muito da minha própria experiência e muito das minhas vizinhas; e, inclusive, pequenos pedaços das minhas amigas.
Como surgiu a ideia de transformar a casa em um personagem central? De que maneira essa escolha permite pensar as relações de poder, pertencimento e violência, de forma mais complexa?
Uma das ideias mais surpreendentes que a leitura do anarquismo do começo do século 20 me deixou foi a de que a propriedade privada é uma construção social. Embora a desigualdade material e toda a dor que infligimos uns aos outros nas lógicas capitalistas sempre me parecessem monstruosas, eu nunca havia pensado que, de fato, era a história que determinava o que pertencia a quem; que, em algum momento, alguém havia dito pela força: “isto é meu” – subordinando os demais e tirando a alma e a voz das coisas e da natureza.
Quis imaginar como seria nossa relação com as coisas se não estivéssemos tão atravessados pela ideia de propriedade. E descobri que as coisas recuperariam uma voz, uma sensibilidade, uma alma, um sentido profundo. Se deixássemos de ver as casas como “propriedade” ou “bem de lucro”, elas se transformariam em um espaço sagrado, cheio de memória afetiva e ternura. Então me perguntei: a quem as casas amariam? Aos donos que lucram com elas ou aos operários que as construíram e às mulheres que as limpam?
Quis pensar um mundo no qual a ideia de propriedade não atravessasse toda a nossa subjetividade, e o que encontrei foi o surgimento de outra relação com o mundo. Uma relação ligada a outros valores – o prazer, a experiência, a alegria, a solidariedade e o amor. Em um mundo pós-capitalista, acredito que nossas vidas ganhariam mais sentido. E, no leito de morte, veríamos que de fato vivemos, que de fato houve coração.
Na disputa entre memória e esquecimento, especialmente em contextos marcados pela violência histórica, a literatura tem um papel?
Acredito que a potência política da literatura reside em sua potência estética e sensível. A literatura nos permite pensar sentindo e, assim, revitaliza tudo o que toca. Ela nos permite sair dos discursos desgastados, que vão se esvaziando de sentido e se tornando slogans vazios.
Nestes tempos em que a grande máquina das redes sociais nos dessensibiliza até mesmo a partir do ativismo, a literatura volta a construir um contexto e um subtexto complexos para nos fazer perguntas que exigem muito tempo. Ela permite que nos detenhamos na contradição, na dor que continua nos interpelando. Permite que nos insiramos na memória a partir de diferentes ângulos, como caleidoscópios.
Neste momento de superexposição à informação simplificada, acredito que o tempo e a atenção dedicados à leitura e à escrita são um luxo e uma forma de resistência.