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domingo, maio 24, 2026

Evandro Affonso Ferreira: Salto triplo sem rede – Revista Cult

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Aos 81 anos, o escritor mineiro Evandro Affonso Ferreira coleciona alguns hábitos. O primeiro deles é ler apenas autores mortos, algo que começou a fazer quando era dono de lojas de livros usados entre elas, os sebos Avalovara e Sagarana. O segundo, que pratica há mais de duas décadas, é o de escrever exclusivamente em espaços públicos, preferencialmente na rua. “Me dá uma tranquilidade”, conta em entrevista à Cult, em um café na região do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Sobre a mesa, o escritor vencedor de dois prêmios Jabuti e dois troféus da APCA folheia um livro do filósofo e historiador francês Étienne Gilson sobre Santo Agostinho. “Gosto de ler essas coisas porque não sei se acredito nelas ou não. Quando estou com amigos, digo que sou ateu; quando estou em casa, sozinho, no quarto, o coração começa a titubear e eu rezo. Acho que sou hipócrita.”

Em Confissões, Agostinho relata ter abandonado uma juventude de luxúria, vícios e crenças pagãs para levar uma vida monástica dedicada apenas à teologia cristã. Assim como o filósofo da Idade Média, Evandro também fala da própria vida em duas partes: antes e depois.

“Eu comecei na boemia cedo, na época da ditadura”, conta. “Eu não lia nada, absolutamente nada, mas ficava escutando as pessoas falarem de livros. Depois de ouvir bastante, eu fingia que tinha lido o livro em questão. E assim passei 25 anos, só perguntando e escutando sobre livros, como aqueles aedos da Grécia Antiga. Era fundamental saber pelo menos uma frase para fingir bem.”

Affonso Ferreira viveu assim, “como um farsante”, até os 50 anos – quando sofreu um infarto que o levou ao Instituto do Coração, em São Paulo, onde permaneceu internado por 30 dias. “No décimo dia, eu olho para o teto e penso: ‘Bom, se eu sair dessa, vou ler de verdade’”.

E ele saiu. E parou de fumar e de beber para se dedicar exclusivamente à literatura. Seu primeiro companheiro na travessia em direção às letras ou para a vida de “monge trapista”, como gosta de se referir à própria rotina foi Histórias de cronópios e de famas, coletânea de contos de Julio Cortázar. “Lendo esse livro, pensei: ‘Mas isso é literatura? Isso eu também sei fazer’; e, pretensiosamente, comecei a escrever meus minicontos, que deram origem ao livro Grogotó! [Topbooks, 2000].”

A ambição é, aliás, uma das características que Affonso Ferreira mais valoriza em um artista: “o escritor tem de querer ser Dante Alighieri ou William Shakespeare, mesmo não o sendo”, pontua. No entanto, segundo seu julgamento, essa qualidade tem se tornado cada vez mais rara na literatura atual, que Evandro considera muito próxima de tendências objetivistas da narração literária. “Vivemos um período em que a literatura está, digamos, jornalistizada. São grandes reportagens, grandes histórias. Claro que isso é importante, mas não é do meu gosto”, afirma. Além disso, afirma não estar encontrando “nenhum William Faulkner, nenhum João Guimarães Rosa”.

Em vez de acompanhar os lançamentos literários, o escritor que confessa nem mesmo ler livros de amigos prefere se dedicar aos autores mortos, dos quais destaca um grupo de cerca de 30. “Cheguei à conclusão de que não gosto de literatura, gosto é de uns 30 autores.” Entre eles, cita Hilda Hilst, Graciliano Ramos, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso e os portugueses Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol. “Eu não quero ser up to date.”

Sua preferência é por “escritores que lidam bem com a palavra”, considerada também em sua dimensão sonora algo que o autor de O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (Record, 2012) busca trabalhar em sua própria obra desde o momento em que percebeu que procurava uma identidade estética.

“Músico frustrado”, como se define, Evandro despeja sua inaptidão musical sobre o papel. Conta que, quando era dono de sebo, chegou a elaborar, a partir de dicionários que recebia, uma lista de três mil entradas de “palavras sonoras” aquelas que considerava agradáveis ao ouvir para usar em seus textos.

“Eu gostaria de ser o Paulinho da Viola da literatura. Meu texto tem de ser musical. Tem de ter aliterações, tem de ter rima interna. E isso nem sempre agrada editores e leitores”, diz. Hoje, ele define a palavra como a personagem principal de seus escritos. “A história quando há é secundária.”

A partir da percepção de que seus livros não são do tipo que atraem leitores naturalmente, ele passou a se dedicar a um projeto de autopublicação independente, de livros semiartesanais. O sistema que desenvolveu funciona a partir de doações de apoiadores culturais a exemplo do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, que faz questão de destacar , que custeiam a impressão de pequenas tiragens destinadas quase exclusivamente a amigos próximos.

Vieram, portanto, a (restrito) público, obras como Era uma vez eros, Antinomias visuais-verbais, e seu mais recente trabalho, Autor jogando aos ventos intentos do narrador. Sua recente leva de produção artesanal engloba mais de uma dúzia de publicações impressas em diferentes formatos, como plaquetes, lâminas em envelopes e livretos reunidos em caixas. “Assim, posso voar”, ilustra. “Porque não tenho compromisso com editor, não tenho compromisso com ninguém. Então volto à minha origem, que é o salto triplo sem rede.”

O projeto surgiu logo após a pandemia, período particularmente duro para o autor, que veio na sequência da morte de sua filha Gisele. “Um dia pensei: ‘Não vou deixar ninguém organizar minha obra depois que eu morrer; eu mesmo vou organizar.’ Então fui brincando, fui jogando no computador trechos de um livro, trechos de outro, fragmentos…” Dedicado à filha, no início dessa leva de volumes independentes, o autor escreveu Onde você está:

Tempo quase todo, solipsista, lanço mão de andanças trouxe-mouxe pelas vielas e ruas e avenidas de minha metrópole apressurada, perguntando: Onde você está?

Além da dimensão textual, seus trabalhos recentes incorporam vasto inventário fotográfico recolhido das ruas de São Paulo – dando protagonismo às superfícies de postes elétricos (marcados por vestígios de cartazes arrancados, ou desgastados pelo tempo). Essa dimensão visual também dialoga com sua escrita, que Affonso Ferreira classifica como ruína: “Tudo o que é ruim para a vida é bom para a literatura. Sempre dialoguei com perdas. Por isso digo que minha literatura é ruína.”

Para ele, as tiragens mínimas também permitem manter contato com um grupo mais coeso e estruturado de leitores. É a garantia de que todos estão falando a mesma língua e compartilhando as mesmas referências.

Apesar dos livros autopublicados, porém, o autor segue publicando através de editoras comerciais, como o livro Vez em quando, Billie Holiday, lançado em 2025 pela Record – pela qual também publicou Rei Revés (2021) – e Perdeu vontade de espiar cotidianos (2024), pela Nós.

Bem-humorado, apesar do pessimismo, declara gostar da vida no anonimato e brinca: “Sou o escritor menos conhecido do Brasil. Morei no mesmo prédio por 20 anos e, toda vez que chegava, o porteiro perguntava: ‘O senhor vai aonde?’”



[Fonte Original]

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