Eclipse se desenvolve entre oposições, numa geometria interna que instiga o pensamento. Visível e invisível, o que é e o que parece ser produzido em um jogo de sombras entre as cores do filme. Natureza e cultura, céu e terra, floresta e cidade, animal e humano, homem e mulher, feminino e masculino, intuição e ciência, razão e sensibilidade, cativeiro e liberdade são opostos que, ora em comunhão, ora em conflito, estruturam a trama.
Talvez a onça seja sua personagem principal, ainda que pareça correr em paralelo à narrativa envolvendo as duas irmãs, Cleo e Nalu. Nas cosmologias ameríndias, a onça é o mais poderoso dos seres. O “jaguar” é o destino dos heróis. Em Eclipse, ela é emblema da mulher atacada e “caçada”, mas que, por sua própria natureza, não cede em seu instinto de sobrevivência, intimamente ligado à dignidade, à liberdade e à autonomia. A coragem é a reação mais básica diante da violação desses valores.
Das fugas de Nalu pela mata à cena em que Cleo atravessa a casa e chega à rua, o que vemos é a afirmação da onça como destino. Distribuindo a energia imagética da narrativa, a onça é o elo entre as duas irmãs que, cada uma à sua maneira, realizam o destino de serem elas mesmas a onça. Assim acontece com Nalu, a irmã indígena, portadora do espírito da onça desde sua casa na floresta, onde habita uma avó ancestral. Cleo, por sua vez, é a irmã urbana, astrônoma, que recebe de presente da avó de Nalu uma escultura em forma de cabeça de onça, emblema de seu reconhecimento familiar.
A trama envolve o encontro dessas mulheres, cujo elo histórico é sanguíneo e violento, enquanto um elo supra-histórico, de reconhecimento, desenvolve-se ao longo da narrativa até culminar no amor das irmãs uma pela outra, na constituição da sororidade. Nalu era abusada pelo pai, enquanto Cleo relembra que o pai também abusou dela na infância. Apesar desse elo abjeto, elas se tornam mulheres que aprendem a se defender, que são livres, sábias e dignas. A sororidade é a noção que desponta e se afirma ao longo do filme. Mas o encontro entre elas também é marcado pelo que a escritora e pesquisadora Vilma Piedade chamou de “dororidade”. A dor que as une é a mesma que as leva a lutar juntas.
A sororidade feminina é, nesse contexto, confrontada com a fraternidade masculina. É o poder da sororidade, do amor entre irmãs, que desmascara a falsidade do marido de Cleo. Amoroso com a esposa em casa, ele mantém uma prática oculta. Junto a um grupo de homens, incluindo o próprio pai, participa de festas nas quais são praticados estupros recreativos de mulheres jovens. O personagem do marido é um emblema do patriarcado predador, da fratria abjeta que seduz para fazer vítimas, que engana, mente e manipula usando a máscara de bom moço, filho preocupado e pai de família, enquanto pratica suas perversões criminosas às escondidas.
A casa onde Cleo vive, portanto, não é simplesmente um lar; ao contrário, torna-se evidente seu caráter de cativeiro. O marido “cuidador” é, na verdade, o predador à espreita, analogamente ao cuidador da onça no zoológico. O roteiro fornece o caminho para essa conclusão sobre a onça-mulher aprisionada: logo no começo do filme, Cleo dirige o carro e, sentindo náusea por estar grávida, precisa parar para vomitar no exato instante em que ouve no rádio que uma onça presa em cativeiro atacou seu cuidador.
Assim, o filme trabalha com desmistificações do sistema patriarcal de modo muito sutil: a enganação do amor romântico, a farsa do marido e da família perfeita, a casa apresentada como um território perigoso no qual a maternidade pode ser uma armadilha. Eclipse é uma sequência de “eclipses” que revelam aquilo que o patriarcado gostaria de manter oculto e que uma mulher astrônoma – emblema da sabedoria, da pesquisa, da paciência e da firmeza – saberá nomear.
O filme não faz nenhuma apologia da “superação”, da “resiliência” ou de algo semelhante; não mistifica clichês. Ao contrário, apresenta-os para desmontá-los elegantemente. Além disso, Eclipse evidencia que, apesar da força pessoal das mulheres, elas precisam umas das outras para sobreviver à violência que lhes é destinada no círculo predatório do patriarcado.
Ensaio visual sobre a sororidade, Eclipse é a história da construção de um amor entre irmãs e de uma luta por uma vida boa e justa.
Marcia Tiburi é filósofa, artista plástica, professora e autora de Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo (Record, 2020), Complexo de vira-lata: Análise da humilhação brasileira (Civilização Brasileira, 2021) e Ninfa morta (Planeta, 2025), entre outras obras