Autora de obras diversas em gênero em forma – que vão da crônica ao ensaio, passando pela dramaturgia e por livros infantojuvenis –, Cidinha da Silva confirma a cada publicação sua relevância na literatura brasileira contemporânea.
Entre as publicações recentes, destacam-se Vamos falar de relações raciais?: Crônicas para debater o antirracismo (Autêntica, 2024) e Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro (Rosa dos Tempos, 2025) – e a autora de Belo Horizonte acaba de lançar, pela Relicário, a não ficção Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros.
Cidinha da Silva conversa com a Cult sobre o novo livro – que tem como proposta “explicitar e exemplificar situações frequentes de exploração e subalternização das escritoras negras”.
Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros é composto por 16 ensaios que analisam experiências de mulheres negras no mercado editorial. Qual a urgência desse livro? Por que você decidiu escrevê-lo?
Comecei a escrever o livro quando organizei o curso “Vozes Independentes no Mercado Editorial”, durante a pandemia, no qual reuni muitas reflexões a partir de minha vivência de duas décadas no mercado editorial brasileiro. São temas que pulsam nas relações de trabalho, na definição da remuneração, nas armadilhas da ideia de representatividade, nos contratos, nos papéis de eternas educadoras da branquitude pré-determinados para as escritoras negras, e que merecem ser mais explicitados. Esta é a minha proposta, explicitar e exemplificar situações frequentes de exploração e subalternização das escritoras negras.
Ao longo dessas duas décadas, você sente que progressos aconteceram? Ou o cenário piorou?
O cenário está melhor, é inegável, mas o céu ainda não é de brigadeiro; persiste uma tendência a domesticar escritoras mulheres, associando-as à leveza, à intimidade, à abnegação e àquilo que a crítica chama de denúncia. O próprio fato de nos colocarem sempre no campo da reivindicação nos circunscreve a um pedido de licença para existir. Existem diversas autoras que simplesmente não pedem nada, elas fazem e, como resposta, colhem descaso ou, como no caso de Hilda Hilst, críticas duríssimas, fundamentadas numa expectativa do que ela “deveria fazer” em detrimento do que fez, do que escreveu, de fato. Ana Paula Maia, que agora está em alta, por conta de sua participação em lista final de autoras indicadas a um prêmio internacional, em 2017, teve sua participação no gênero terror questionada por um colega de gênero literário.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, “Eterna promessa, literatura fantástica brasileira nunca decola” [29 de setembro de 2019], o escritor Santiago Nazarian, ao discutir os motivos de (in)sucesso (em termos de vendas) de três livros abordados no texto, argumenta que: “Talvez o mais bem-sucedido desses três tenha sido o livro de Ana Paula [Maia], não apenas pelo ótimo texto, mas exatamente por não conter elementos fantásticos e se afastar das convenções do que se chama terror (além, talvez, de carregar uma bandeira involuntária, por ter sido escrito por uma mulher negra)”. Ana Paula Maia é negra, isso é inequívoco, tanto para nós que a observamos, lemos e admiramos, quanto para ela mesma, contudo, diferente de outras autoras negras, Maia não se reivindica negra: não é um ponto de sua vida e trajetória que ela fique demarcando. Em decorrência da compreensão da forma como ela se situa no sistema literário, perde sentido a afirmação de que um livro de sua autoria poderia vender mais porque ela é uma autora negra. Maia não se vale desse bônus, tampouco o mercado cola essa etiqueta em sua obra.
Uma pessoa negra, nós aprendemos com o Movimento Negro dos anos 1970 e 1980, é aquela que se identifica como negra ou é tratada como tal. O sistema literário, por sua vez, nos mostra que em termos mercadológicos, é preciso que você se reivindique negra, veicule um determinado discurso atribuído às escritoras negras, entre numa caixinha e fique de lá olhando o mundo e conversando com ele. Ana Paula Maia não faz nada disso e imagino (é só uma suposição) que ela deva ter urticária ao ouvir a expressão “lugar de fala” e, principalmente diante da sugestão de que seu trabalho vende por esse motivo, por ocupar certo “lugar de fala”. Os livros de Maia vendem, porque como o próprio Santiago Nazarian asseverou, têm um texto ótimo. Eu diria mais, trata-se de um texto surpreendente e arrebatador, que nos rouba o fôlego a cada parágrafo.
Afirmo no livro que o futuro não é uma promessa abstrata de inclusão, mas algo que já está sendo construído, embora num mundo em disputa. Se existe uma mudança irreversível, ela mora no lugar da História que estamos construindo. Isso significa que seremos lembradas ou “descobertas” no futuro (porque afinal, estamos construindo uma obra e temos posicionamento político), como acontece hoje com Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Virgínia Bicudo, seguramente faremos sentido nas pesquisas das novas gerações. Muitas de nós, hoje, temos consciência de que fazemos história, a despeito do que consigamos ou não lograr, do ponto de vista do conforto material e do reconhecimento público daquilo que construímos. O restante está em permanente disputa, nada está assegurado e pensar diferente disso é alimentar ilusões.
De que forma Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros se estrutura? Qual a relação da estrutura com o título?
Não há como pensar em borboletas sem associá-las e à ideia de processo e de transformação. A imagem de borboletas furiosas convoca a imaginação das pessoas: como se manifestaria a fúria em seres tão singelos? O que desencadearia a fúria? Que movimentos uma borboleta furiosa faria? Haveria um bater de asas intenso? O que aconteceria com as cores em movimento? O livro fala de processos, da transformação que emerge da consciência daquilo que nos atinge e nos apequena, do foco e da mira necessários para caminhar e atingir metas, da legitimidade da insurgência frente à opressão.
O livro fala também de processos do próprio livro – como quando você demonstra a gênese da escolha do título. E, em seus trabalhos mais recentes, você vem inserindo com certa regularidade suas experiências pessoais (e até cotidianas), entrelaçadas aos temas abordados. Vida e obra estão se misturando?
Eu não faço autoficção, isso é nítido para mim – tanto porque não gosto quanto porque não sou capaz, não disponho de ferramentas para isso; também, acho a vida do meu lado mais interessante do que a minha, gosto mais de falar sobre a vida dos outros (e inventar a partir dela) do que de falar sobre mim.
Situo meus dois livros recentes, Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro e Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros, no campo dos ensaios, cujo substrato são as memórias e uma atitude crítica para editá-las – Wally Salomão considerava a memória como uma ilha de edição. Estou começando a envelhecer e acho que essa é uma fase de passar a vida em revista e decidir o que queremos compartilhar, deixar para as outras pessoas; estes dois livros tocam em temas de vida sobre os quais me faço muitas perguntas e costuro algumas respostas por meio de um formato de ensaio que dialoga muito com a crônica.