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domingo, maio 24, 2026

Cannes 2026, dias 4, 5 e 6: “Papel Tiger”, “El ser querido”, “Garance” e “Hope” – Revista Cult

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Cannes teve um fim de semana com alguns dos filmes mais aplaudidos da competição, com obras de notável habilidade técnica em alguns casos, como o dos novos filmes de James Gray e László Nemes, e de grande poder emocional, caso das novas obras de Jeanne Herry e Rodrigo Sorogoyen.

No sábado, porém, foram exibidos dois filmes de menor impacto. Sheep in the box, do japonês Hirozaku Kore-eda, é mais um filme em tom suave, quase de fábula, que parte de uma curiosa premissa: em um futuro próximo, seria possível usar inteligência artificial para programar humanoides que podem “substituir” pessoas já mortas, usando parâmetros de suas atitudes pregressas como base para um comportamento semiautônomo a partir daí.

Um casal que perdeu o filho aceita uma nova versão da criança pela IA, e aí tem início uma trama sobre luto parental que, infelizmente, desperdiça a chance de discutir como deveria ser o impacto de uma tecnologia que já dá sinais de que, em algumas áreas, é capaz de substituir os seres humanos. É um longa inofensivo e leve demais para os temas que pretende abarcar.

Também não é muito bem-sucedida a tentativa da austríaca Marie Kreutzer de abordar a questão da pedofilia em Gentle monster. Com foco em um casal que entra em crise depois que o marido começa a ser investigado por disseminação – e talvez produção – de pornografia infantil pela internet, o filme apenas tangencia questões importantes sobre crimes digitais e desejo sexual por crianças. Como Kore-eda, Kreutzer desperdiça a possibilidade de explorar a fundo um tema importante.

No domingo, a programação contou com obras bem mais destacadas. O estadunidense James Gray voltou a se basear em suas memórias de adolescência para criar uma ficção em formato de filme de gênero – é um melodrama de gângsteres. Paper tiger mostra uma família pequeno-burguesa nova-iorquina que vê a chance de melhorar de vida quando o pai tem a chance de prestar serviços em um local dominado pela máfia russa. Mas ele presencia uma atividade ilegal e logo se torna presa dos mafiosos, que passam a ameaçar a integridade da família como um todo.

Gray demonstra um excelente domínio sobre o seu longa, que conta com performances excelentes de Miles Teller, Scarlett Johansson e Adam Driver. É uma obra concentrada, angustiante e, embora haja algo de antiquado na feitura do filme e mesmo em sua visão de mundo – que valoriza em excesso a força dos laços sanguíneos e uma divisão entre bonzinhos e malvados –, é uma obra de cinema clássico de altíssimo nível. É um dos filmes de maior adesão emocional da carreira “certinha” de Gray.

Uma das obras mais impactantes até o momento, o drama El ser querido, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, traz Javier Bardem em uma atuação assustadoramente forte, no papel de um diretor de cinema tirânico que mete medo em toda a equipe de seus filmes. Ele passa anos filmando no exterior, onde tem uma carreira gloriosa – inclusive dois Oscars –, mas volta à Espanha para um novo trabalho. Aproveita para retomar contato com a filha, a quem nunca deu atenção: convida-a para ser atriz em seu novo longa.

As relações entre eles nunca são fáceis, inclusive porque a moça também tem um gênio forte – está no DNA, afinal. Mas eles conseguem, aos trancos e barrancos, levar a cabo o projeto de filmarem juntos.

Sorogoyen realiza um filme sobre um homem que acumulou muito poder na vida, mas que, a certo ponto, precisa lidar com questões que abafou ao longo de sua trajetória em nome de poder chegar aonde chegou. O problema é que, uma vez poderoso, sempre se reluta diante da perda de privilégios, e Esteban – o cineasta de tempos em que um artista podia fazer os piores absurdos enquanto criava – não consegue se adaptar à nova realidade, mais atenta a abusos em ambientes de trabalho. Como resultado, torna o set de filmagens um inferno.

O filme tem uma sequência formidável em que os atores são filmados em uma refeição a céu aberto, mas a cena é sempre atrapalhada por algum acaso que impede que as coisas saiam como Esteban havia planejado. O que começa como uma situação divertida evolui para um trecho hilário, para se tornar, logo em seguida, aflitivo e terminar como uma sequência simplesmente apavorante. E, nessa situação apenas, Sorogoyen injeta tantas questões relativas à demonstração de poder que é praticamente um compêndio do significado geral do longa.

Como Esteban, Bardem atinge um nível de intensidade atordoante, como poucas vezes já se viu. Ele tem dores e tristezas na alma, mas sua fúria o impede de deixar transparecer exatamente que tipo de vulnerabilidade existe no fundo de seu olhar. A imperiosa presença dele na tela traz uma carga enérgica de uma entidade que não parece sequer humana; é como se fosse um monstro. El ser querido é um estudo de um confronto de personalidades, sobretudo quando uma delas, dominante, encontra-se em eminente declínio. É sobre falta de comunicabilidade entre pai e filha e sobre visões de mundo distintas entre pessoas de gerações diferentes. Mas, sobretudo, é um filme sobre a brutalização de alguém que perde a capacidade de tocar e ser tocado. Uma pessoa que perdeu a própria humanidade.

O húngaro László Nemes conta a história de um herói da Resistência francesa contra a invasão nazista na Segunda Guerra Mundial, em Moulin. Mostra Jean Moulin, recém-chegado do exílio na Inglaterra para preparar terreno para a invasão aliada na França, que daria início ao processo de derrocada das forças alemãs espalhadas pela Europa ocidental durante a guerra. Depois que os nazistas descobrem uma reunião clandestina entre resistentes, prendem os participantes e tentam extrair confissões e informações de cada um.

Moulin sofre toda sorte de pressão psicológica em um primeiro momento, mas depois também é submetido à tortura física. O filme levanta a questão: vale a pena deixar-se destruir moral e fisicamente em nome de um ideal? Não é uma novidade na história do cinema, e o grande problema do longa de Nemes é justamente dar a impressão de que diversos outros filmes já surgiram com o mesmo tipo de problematização. É um longa de ótima feitura técnica, que traz instantes pungentes e que faz justiça ao heroísmo de Moulin, mas não é um projeto que se destaque por algum tipo de proposta de arrojo estético ou temático.

Ainda no domingo, um filme de inesperada e graciosa humanidade falou sobre alcoolismo sem os vícios moralistas e exploratórios que o cinema – hollywoodiano, sobretudo – costuma reservar a personagens com problemas com a bebida. Garance, da francesa Jeanne Herry, fala de uma atriz trintona talentosa, mas que ainda não conseguiu se fixar na profissão e que também não parece estabelecida em qualquer outro aspecto de sua vida; tudo soa transitório em seu estilo de existência livre, hedonista e indisciplinado.

O álcool começa a cobrar seu preço, mas Herry e seus personagens não tratam da doença com culpabilização ou o senso de catastrofismo usuais quando se fala sobre alcoolismo; o longa continua oscilando entre momentos solares e nebulosos, mesmo quando a protagonista passa pelo auge da dependência. Há uma salutar impressão de fluxo de vida neste filme ágil, bem-humorado e que tem o mais cinematográfico de todos os objetos: Adèle Exarchopoulos.

É bem verdade que a atriz tem sido explorada em papéis muito parecidos, que são uma variação da mesma pessoa – provavelmente a Adèle da vida real –: uma jovem de espírito livre, com alguma angústia na alma, mas, sobretudo, aberta a experimentar e usufruir do que o mundo tem a lhe oferecer. Ela é sempre uma atriz excelente, mas nunca precisa “atuar” diante da câmera: existir já é o suficiente. E, em Garance, é um prazer escopofílico vê-la existindo e emprestando sua fisicalidade a essa cativante personagem.

Na segunda-feira, o destaque foi Hope, do sul-coreano Na Hong-Jin. É um filme que mistura fantasia, ação e ficção científica, mas cujas maiores qualidades estão em seu aspecto de comédia – é uma trama hilária envolvendo monstros que aparecem em um vilarejo perto da fronteira com a Coreia do Norte, gerando pânico e destruição.

Pouco importa o significado metafórico das criaturas: o que interessa neste filme, brilhantemente conduzido pelo cineasta, são os prazeres mais mundanos que só o bom cinema de entretenimento é capaz de proporcionar. Deve existir algum aspecto de conotação política, sobretudo na percepção do monstro enquanto o “outro” – o diferente, o estrangeiro ou a minoria que se queira encaixar ali –, mas, francamente, isso não é o que dá real valor ao longa. Que dura três horas, é verdade, mas que tem tamanho poder de diversão que o espectador mal percebe. Em um festival com tantos filmes pesados, é um alívio que Hope tenha sido escolhido para também disputar a Palma de Ouro.



[Fonte Original]

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