Parte da comunidade LGBTQIA+ costuma reclamar que a epidemia de Aids na década de 1980, que causou pânico e morte sobretudo entre homossexuais masculinos, ainda é um tema que não recebeu o devido tratamento por obras audiovisuais. O estadunidense Ira Sachs, a partir de um roteiro coescrito pelo parceiro habitual, o brasileiro Mauricio Zacharias, resolveu enfrentar o assunto em The man I love, sobre um ator que contrai HIV e doenças oportunistas, não tendo muito tempo de vida pela frente.
O protagonista é Jimmy, interpretado por Rami Malek, um homossexual de comportamento expansivo que fez algum sucesso no palco de casas com espetáculos queer, mas que, desde que adoeceu, tem tido enormes dificuldades para decorar o texto de suas peças. Ele mora com o namorado, o fidelíssimo Dennis, e, quando um vizinho mais jovem se muda para o mesmo prédio, o ator não resiste aos avanços do rapaz e passa a se relacionar com ele.
Ira Sachs tem bastante prestígio no meio LGBTQIA+, porque dedicou grande parte de sua carreira a obras focadas nesse universo. Os filmes do cineasta são louvados pela representação positiva de um segmento historicamente oprimido. Mas Sachs nunca foi grande coisa enquanto cineasta: tem uma propensão formalista que por vezes se converte em mera afetação e, embora seus personagens em geral sejam naturalmente performáticos e afetados, seus filmes não raro ficam à sombra do histrionismo formal e da força temática.
Malek tem uma atuação dolorosamente ruim, baseada basicamente em esbugalhar os olhos e estufar o lábio superior, como se isso tivesse alguma relação com “sentir” o drama do personagem. Mas ele sozinho não tem culpa pelo fracasso do filme: The man I love tem tanta dificuldade para estabelecer uma narrativa envolvente, que por si só sustente o espectador, que recorre o tempo todo à ajuda de alguma canção na trilha sonora – em geral músicas de forte apelo emocional, melódicas ou bastante ritmadas. A princípio, elas deveriam ser um complemento ou um comentário daquilo que observamos em cena, mas o que o roteiro oferece em termos de dramaturgia é tão ralo que, sem música, o filme praticamente não existiria enquanto narrativa. São elas que cimentam as cenas.
Sachs mais uma vez confunde representação positiva com santificação de personagens. Jimmy é um sujeito que trai o marido, maltrata o amante e, mesmo sabendo que tem um vírus mortal, faz sexo por aí sem dar a mínima para o fato de estar espalhando HIV ou não; pensa apenas no resto de vida que lhe sobra e quer viver intensamente. Mas o diretor não dá muita importância a esses traços de personalidade e joga todos os panos quentes possíveis sobre Jimmy, que termina o filme, se não como um mártir, ao menos como um sério candidato à canonização.
Sachs parece achar que alguém ter uma doença é um salvo-conduto para agir das maneiras mais condenáveis. Até que ponto esse tipo de representação é de fato positiva? Parece antes um estímulo à perpetuação de certos comportamentos reprováveis. É um filme tristemente imaturo.
A dupla de cineastas espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi – que muitos chamam de “os Javiers” – apresentou La bola negra, um drama ambicioso, estruturado em três partes, com personagens homoafetivos. A primeira se passa em 1932, quando o adolescente Carlos tenta ser aceito em um clube de cassinos, mas é vetado: em sua cidade, corriam rumores de que ele era homossexual. Em 1937, em plena Guerra Civil Espanhola, o jovem Sebastián, partidário das forças fascistas, é incumbido de tomar conta de um prisioneiro do grupo rival que conheceu de perto o escritor Federico García Lorca. E, em 2017, o ex-dramaturgo Alberto descobre que seu avô, com quem não tinha contato, deixou para ele, como herança, o texto definitivo de uma peça de Lorca tida por inacabada.
As trajetórias dos três rapazes, é claro, vão convergir em algum momento. Os Javiers fazem um filme desigual, com um estilo tão pouco depurado e oscilante que, por vezes, o material parece ter passado por mais mãos do que apenas as de Calvo e Ambrossi. Eles gostam de excessos e do caos, mas infelizmente não possuem muito senso de espetáculo, e o filme em geral nunca é algo mais do que simplesmente cansativo. Penélope Cruz tem dois números musicais, em uma ponta como cantora de cabaré, e, quando aparece, o filme ganha um pouco mais de energia. Glenn Close também faz uma inusitada participação, falando em espanhol, no papel de uma escritora especialista na obra de Lorca. Mas nem essas duas estrelas são capazes de salvar o longa, que parecia fadado ao fracasso desde o complicado roteiro.
O francês Emmanuel Marre desenterra um dos episódios mais traumáticos da história da França em Notre salut: o colaboracionismo, ou seja, o comportamento de franceses que aceitaram a invasão da Alemanha nazista nos anos 1940 sem resistir nem lutar contra a disseminação dos ideais de Adolf Hitler.
Ele recorre à história de um antepassado que não gostava dos rumos do governo francês nos anos 1930 e viu na invasão alemã a chance de ajudar a construir uma França semelhante à de seus sonhos, com ideais não muito distantes dos pregados pelo nazismo, embora sem a desmesura e a desumanidade defendidas pelos invasores.
Um pouco como fazem segmentos da direita hoje em dia, que não veem problema em se aliar à extrema direita em nome de derrotar valores progressistas e de esquerda. Nesse sentido, é impressionante o quanto o longa de Marre tem atualidade em diversos lugares do mundo. Uma triste história que se repete.
O filme tem mais de duas horas e meia de duração, mas Marre, apesar de fascinado por seu protagonista e pela história que narra, não consegue transmitir por meio do filme o mesmo tipo de paixão que ele próprio sente. São boas, porém, as cenas em que insere músicas eletrônicas recentes, quebrando certo classicismo da narrativa, ou quando tenta revelar mais do que os personagens gostariam, com um tipo de iluminação estourada, como um flash fotográfico, em alguns instantes-chave. No todo, porém, é um filme um tanto morno, que talvez fale mais ao público francês do que ao restante do mundo, apesar de seu evidente diálogo com 2026.