O Irã executou neste domingo (24) um homem condenado por repassar aos Estados Unidos e Israel informações sobre a defesa do país. A informação foi divulgada pela agência Mizan, ligada ao Poder Judiciário iraniano, e reproduzida pela agência de notícias EFE.
Segundo a Justiça iraniana, Mojtaba Kian enviou dados sensíveis sobre unidades de produção militar, incluindo coordenadas e detalhes de locais usados na fabricação de peças associadas ao setor de defesa. A versão oficial afirma que ao menos uma das áreas indicadas pelo condenado foi posteriormente atacada e destruída durante o conflito.
Esta é a primeira execução conhecida no Irã diretamente atribuída a um crime de espionagem supostamente cometido durante a atual guerra contra Estados Unidos e Israel, iniciada em 28 de fevereiro. Até então, as execuções relacionadas a acusações de colaboração com Israel ou com serviços estrangeiros diziam respeito a fatos anteriores ao início do conflito.
A agência Mizan afirmou que Kian enviou mensagens a redes classificadas pelo regime como ligadas ao “inimigo sionista-americano”. O Judiciário iraniano também disse que o processo, da prisão à execução, foi concluído em menos de 50 dias, em linha com a orientação das autoridades do país para acelerar casos envolvendo supostos colaboradores estrangeiros.
Ofensiva interna do regime iraniano
A execução ocorre em meio a uma ofensiva interna do regime iraniano contra pessoas acusadas de espionagem, colaboração com Israel e apoio a grupos considerados hostis. Em março, o próprio Judiciário iraniano alertou que suspeitos de cooperação com “Estados inimigos” poderiam receber pena de morte e ter seus bens confiscados. A advertência incluía até o compartilhamento de fotos e vídeos que pudessem auxiliar ataques contra alvos no país.
Nas últimas semanas, outras execuções foram registradas em casos semelhantes. Em 11 de maio, o Irã executou Erfan Shakourzadeh, acusado de espionar para a CIA e o Mossad. Segundo a Mizan, ele teria trabalhado em uma organização científica ligada a atividades de satélite e repassado informações classificadas. Um grupo de direitos humanos, porém, afirmou que a confissão teria sido obtida sob coerção.
Dois dias depois, em 13 de maio, outro homem, identificado como Ehsan Afrashteh, foi executado sob acusação de espionagem para o serviço de inteligência israelense. Segundo o grupo HRANA, Afrashteh tinha 32 anos, havia sido preso em 2024 e condenado no ano seguinte com base em confissões que a organização classificou como fabricadas.
Em 2 de maio, Yaghoub Karimpour e Nasser Bakarzadeh também foram enforcados após condenação por cooperação com Israel e com o Mossad. As autoridades disseram que um deles teria repassado informações a um oficial israelense e que o outro teria levantado dados sobre autoridades, figuras religiosas e locais estratégicos, incluindo a região da usina nuclear de Natanz.
Em abril, Mohammad Masoum Shahi e Hamed Validi foram executados sob a acusação de integrar uma rede ligada ao Mossad e planejar ataques dentro do Irã. O grupo de oposição ao qual eles eram associados negou as acusações e afirmou que as execuções faziam parte de uma onda de repressão política em meio à guerra.
Irã promove prisões em massa
A repressão também envolve prisões em massa. A ONU informou, em 29 de abril, que ao menos 21 pessoas haviam sido executadas no Irã desde o início da guerra com Estados Unidos e Israel, enquanto mais de 4 mil haviam sido presas sob acusações ligadas à segurança nacional. O alto comissário Volker Türk cobrou a suspensão das execuções, respeito ao devido processo legal e libertação de detidos arbitrariamente.
Já o chefe da polícia iraniana, Ahmadreza Radan, afirmou em 17 de maio que 6,5 mil pessoas haviam sido presas desde o início da guerra, descritas por ele como “traidores” e “espiões”. O número foi reportado pela Iran International e também citado em cobertura da Al Jazeera.
Organizações de direitos humanos afirmam que o regime tem usado o ambiente de guerra para acelerar julgamentos, ampliar acusações de espionagem e silenciar opositores. O Guardian relatou que grupos de monitoramento denunciam execuções quase diárias, realizadas em sigilo, com famílias impedidas de receber corpos ou pressionadas a não falar publicamente sobre os casos.