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- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
Os bons índices econômicos e de desenvolvimento da região Sul, em geral melhores do que a grande maioria do Brasil, são com frequência citados por quem acredita que esta parte do país é excepcional e até mesmo superior aos outros Estados brasileiros, o que por vezes alimenta atitudes apontadas como xenofóbicas.
Foi o caso dos influenciadores catarinenses Jenifer Milbratz Stainzack e Cleiton Stainzack, que viralizaram em julho deste ano com um vídeo em que ditavam “regras” para quem deseja morar no seu Estado — que, segundo eles, tornou-se o “novo sonho de consumo dos brasileiros”.
Pouco antes do vídeo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) havia divulgado dados mostrando que Santa Catarina se tornou o principal destino de migrantes de outros lugares do país.
“Se vier com jeitinho ou corpo mole, volta enquanto é tempo”, disse o casal, que é de Pomerode, conhecida como a “cidade mais alemã do Brasil”, por conta da imigração germânica para lá.
Em outro trecho, eles disseram que a esquerda “nunca governou” Santa Catarina e que o “assistencialismo estatal” não teria vez no Estado.
Os dois foram alvo de uma representação apresentada ao Ministério Público do Estado, que recusou o caso ao dizer que a competência era federal.
O casal se defendeu afirmando ter apresentado opiniões sobre o povo catarinense dentro dos limites da liberdade de expressão.

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“Daqui a pouco, se o negócio não funcionar muito bem lá para cima, nós passamos uma trena para o lado de cá e fazemos ‘o Sul é nosso país’, né?”, disse em referência ao movimento que há mais de 30 anos defende o separatismo sulista e que tem como valor intrínseco uma suposta superioridade em relação ao restante do país.
Esse discurso muitas vezes está amparado na ideia de que o maior desenvolvimento econômico de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul se deve aos povos europeus que imigraram para lá ao longo dos séculos 19 e 20, em contraste com outras partes do Brasil que não teriam recebidos tantos imigrantes europeus assim.
Mas especialistas entrevistados pela BBC News Brasil dizem que os bons indicadores da região não são resultado de quem imigrou para lá, e sim da forma como isso foi feito — com um modelo de colonização que incluiu a assistência governamental aos imigrantes europeus e uma ocupação comparável ao que hoje é conhecido como reforma agrária.
Exploração x povoamento

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De um modo muito simplificado, é possível classificar a colonização do Sul ocorrida do início de meados do século 19 ao início do século 20 no formato que costuma ser classificado como ocupação para “de povoamento” — em contraposição à colonização para exploração, que chegou antes a outras regiões do Brasil.
Esse “povoamento” do Sul foi feito por imigrantes principalmente do que hoje é a Alemanha e a Itália, mas também são relevantes as comunidades de origem polonesa, ucraniana e russa.
“A questão não é quem colonizou, mas o modo de colonização que foi feito”, diz à BBC News Brasil o historiador Sergio Ribeiro Santos, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Autor do livro A Política de Colonização do Império, o historiador Paulo Pinheiro Machado, professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca que os imigrantes europeus ganharam terras cedidas pelos governos — primeiro durante o Império e depois na República.
Além disso, as autoridades forneceram auxílio e subsídios para a instalação desses colonos nos primeiros meses de chegada, aponta o historiador.
Foram produzidos ainda manuais para que esses europeus entendessem que lavrar a terra brasileira significava trabalhar em outras condições.
O próprio Machado, por exemplo, encontrou um material escrito por um engenheiro francês que dizia: “Esqueça tudo o que você sabe sobre agricultura europeia”.
O professor explica que os imigrantes europeus se apropriaram de técnicas dos povos nativos do Brasil e também de descendentes de levas migratórias anteriores.
“Ao invés de insistir [em teses que se baseiam] no supremacismo, a pesquisa atual vem notando que [o sucesso dessa imigração é porque] houve um aprendizado mútuo entre imigrantes europeus e a população nacional”, comenta o historiador.
O historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, compara a colonização do Sul à de outras partes do Brasil, onde o objetivo era a produção para exportação, com um modelo baseado no trabalho escravo e em grandes lavouras.

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Ou seja, há também uma diferença no tempo: se a colonização de exploração no que é hoje o Brasil começou cinco séculos atrás, o projeto intenso de ocupação da região Sul tem dois séculos de história.
“A colonização do Brasil no Norte e no que depois se chamou de Nordeste ocorreu no período histórico onde o sistema mercantilista ainda trazia tradições medievais muito fortes na mentalidade dos colonizadores”, ressalta.
“São fatores que interferem também na colonização, que passa a ser mais voltada para o povoamento, para a o interiorização e para a sociabilização de um território”, aponta Missiato.
São esses fatores — e não uma pretensa superioridade étnica, social ou cultural dos colonos — que fizeram com que o modelo funcionasse a ponto de criar um relativo desenvolvimento no Sul do país, diz Sergio Ribeiro Santos.
“Tem muito mais a ver com o modelo de colonização do que efetivamente com quem foram os que lá se instalaram”, diz o historiador Santos.
Ele lembra, por exemplo, que muitos dos escravizados tinham conhecimentos técnicos qualificados que não existiam no território brasileiro da época.
Mas não puderam exercer esses saberes justamente porque foram escravizados e obrigados a trabalhar na agricultura do açúcar.
“Colocar essa perspectiva [de uma suposta superioridade dos colonos europeus] é aplicar um modelo racista e etnocentrista”, define Santos.
“Essa história é decorrente da colonização e dos processos de urbanização e não das etnias.”
Reforma agrária?
Mas por que as autoridades do Brasil concederam tais benesses aos imigrantes europeus que se dirigiram ao Sul?
A ideia era resolver dois problemas imediatos.
De um lado, a necessidade de povoar terras — ocupar para não perder, em tempos de definição das fronteiras.
Mas havia outra questão: com os esforços agrícolas concentrados no plantio de riquezas para a exportação — em um primeiro momento, a cana de açúcar, em seguida, café e algodão —, o Império vivia uma situação de insegurança alimentar.
“A história brasileira tem um longo período de crise de abastecimento. Esse campesinato europeu foi introduzido então para dinamizar a produção de alimentos”, conta Machado.
Havia um terceiro motivo, nada nobre porém ancorado em teorias vigentes na Europa daquela época: o interesse governamental de “branquear” o país.
“Os documentos da época falam explicitamente sobre essas características de eugenia, sobre o ‘enxerto europeu’ dentro do Brasil”, diz o professor.
O esforço visou capturar mão de obra principalmente de regiões europeias com importância agrícola — muitas das quais, naquele momento, enfrentavam a pobreza, conflitos e greves.
Eram imigrantes pobres os que se aventuravam — no início, ainda sem muitos subsídios do governo no Brasil, diz o professor da UFSC.
“Quando começa esse processo no Sul do Brasil, ele não era completamente subvencionado pelo governo. Então, muitos dos imigrantes acabaram por ter de pagar uma parte da passagem transoceânica, uma viagem então muito cara a demorada”, explica.

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De acordo com os estudos do historiador, a maior parte desses europeus era formada por pequenos proprietários — e, no Brasil, continuaram tendo pequenas propriedades, em contraste com as grandes lavouras dos primeiros séculos de colonização portuguesa.
“Eles tinham propriedades muito pequenininhas [na Europa], que eram até valorizadas na hora da venda. Muitos vendiam lá suas terras, coisa de 1, 2 ou 3 hectares. E compravam aqui uma colônia de 25, 50 hectares, dependendo da condição financeira”, conta Machado.
“Aqui, acabavam abrindo clareiras e fazendo as primeiras lavouras enquanto viviam de auxílios do governo nos primeiros meses, enquanto não tinham ainda uma safra.”
O historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), lembra que esses camponeses europeus também tinham, entre suas habilidades, o “artesanato rural” — atividades fabris que transformavam matérias-primas do campo em produtos como tecidos e mobília.
Isso possibilitava a adaptação e a transferência deles para outros ramos da atividade econômica, inclusive em áreas urbanas, aponta Martinez.
Aos olhos de hoje, há quem diga que esse modelo de “povoamento” no Sul tem contornos de reforma agrária, já que terras foram distribuídas.
A comparação pode ser feita, mas é preciso cuidado para não cair no anacronismo.
“A reforma agrária é um assunto político bastante ligado à evolução política do século 20”, ressalta Machado.
“Mas num sentido amplo, genérico, a gente pode dizer isso do Sul do Brasil. Os Estados hoje entendidos como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, a serra do Rio de Janeiro e o Espírito Santo foram regiões escolhidas pelo Império para a implantação de um campesinato europeu”, explica o historiador.
Fundação do MST no Paraná

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Para os entrevistados, o modelo de distribuição de terras praticado historicamente no Sul preparou o terreno para o florescimento das ideias de reforma agrária contemporânea, inclusive na região.
A principal liderança história do grupo é o economista e ativista João Pedro Stedile, gaúcho de Lagoa Vermelha.
Mais de 20 anos antes da criação do MST, o Rio Grande do Sul criou, sob o governo de Leonel Brizola (1922-2004), o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária, que organizou um amplo programa de organização fundiária no estado.
Nos anos 1960, no município gaúcho de Encruzilhada do Sul, foi criado o Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), um dos precursores da luta pela reforma agrária.
“Um dos marcos da luta pela terra no Brasil foi o acampamento na [cidade de] Encruzilhada Natalino, no norte do Rio Grande do Sul”, lembra o historiador Machado, sobre o movimento ocorrido na virada dos anos 1980.
“Existia ali um misto de populações de loiros, claramente descendentes de europeus, com negros e outros com feições de indígenas.”
“Isso nos leva a crer que, desde o início, a luta pela terra no Brasil juntou a antiga população local com os descendentes dos colonos europeus”, comenta.
Martinez acrescenta que a tradição camponesa está “enraizada” nos Estados do Sul.
“A economia camponesa e a agricultura familiar abastecem o mercado interno, sobretudo local e regional. Assegura preços mais baixos e melhor qualidade dos alimentos. A sobrevivência e a consolidação dessa agricultura foi sempre um desafio, diante da especulação e da concentração da propriedade rural em poucas mãos. Estas estão empenhadas em atuar no mercado internacional, sem compromisso com o desenvolvimento social e a preservação ambiental no Brasil, por exemplo”, opina.
Missiato vê um paralelo entre a distribuição de terras do século 19 e a concepção de reforma agrária do século 20. Para ele, há uma “pauta liberal” em comum, com a terra sendo vista sob um olhar capitalista em ambos os casos.
“No século 20, [a reforma agrária] tornou-se uma luta mais forte da esquerda latino-americana. Mas sua origem está em uma perspectiva liberal, de liberdade do uso da terra para o desenvolvimento capitalista”, explica.