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domingo, maio 24, 2026

O caso Cazarré, o desalento do povo brasileiro e a nostalgia masculina – Revista Cult

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Qualquer um que tenha assistido ao filme Boi neon, dirigido por Gabriel Mascaro, testemunhou, com um aperto no peito, as últimas notícias sobre o curso idealizado por Juliano Cazarré, O farol e a forja. No filme, Juliano Cazarré atua como Iremar, um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste e tem o sonho de se tornar estilista de moda.

Dentre as muitas belezas que existem nessa obra de arte, assistir a Iremar usando todo e qualquer intervalo para criar seus traços, suas roupas, seus manequins é um verdadeiro deleite: não estamos apenas diante de um homem que “desconstrói” papéis demarcados de gênero; estamos diante de um homem que se sonhou para além do que foi sonhado para ele, conquista rara para aqueles que nascem em condições pauperizadas de existência.

Na propaganda com estética coaching de Juliano Cazarré, em suas redes sociais, o que vemos é o caminho oposto do seu personagem Iremar: vemos um homem heterossexual se oferecendo para ajudar homens em crise com a própria masculinidade a encontrar um “farol”; farol esse que insiste em uma experiência de retorno.

Diferentemente do que muitos críticos de esquerda postaram no Instagram, a proposta de Juliano Cazarré não é idêntica à prática red pill, liderada por figuras como Rollo Tomassi e Andrew Tate. A proposta de Juliano Cazarré está mais próxima de grupos de homens como Os Legendários, que envolvem incentivar identificações masculinas com força, proteção, solidez e aproximação com os signos da “natureza”, homens que não se apresentem como uma “geleia fraca”.

Apesar de algumas semelhanças com a grupalidade da machosfera red pill, o fenômeno aparente se distingue em alguns aspectos, como, por exemplo, no fato de que as mulheres não são naturalmente manipuladoras e inimigas em potencial (hipergâmicas) e também no fato de que a proposta do “discurso Cazarré” insiste em uma paternidade responsável, em que o homem deve seguir o seu papel “natural” e proteger sua família – família essa que se apresenta branca, heterossexual, “tradicional” e nuclear –, diferentemente de alguns comentários red pill que incentivam homens a não se relacionarem com mulheres que têm filhos e que degradam mulheres de maneira mais generalista, separando aquelas que têm valor daquelas que não têm valor algum.

Ambos os discursos promovem violência contra as mulheres, mas com roupagens distintas, e toda pequena distinção, para a psicanálise, vale a pena ser notada. No modelo red pill, a mulher está sempre à espreita de se tornar uma inimiga que quer usurpá-lo; no modelo Cazarré, a mulher segue os padrões de uma companheira que cuida do lar, da delicadeza, da família e ocupa determinados papéis tradicionalmente atribuídos a ela.

No livro A crise da masculinidade: Anatomia de um mito persistente, Francis Dupuis-Déri nos mostra que a narrativa da “crise da masculinidade” é estrutural, ativada em momentos de mudança – principalmente na conquista de direitos pelas mulheres e por outros grupos oprimidos – e que tende a reposicionar os homens como vítimas, deslocando o foco das desigualdades de gênero.

Ou seja, essa crise nunca vai embora; ela sempre reaparece, fazendo-nos ter de nos ocupar da “desestabilização masculina” sempre que alguma mudança importante na posição das mulheres acontece na arena política. O autor nos mostra que, em termos de dados, as principais posições de poder e dominação continuam sendo ocupadas por homens brancos e que acionar uma “crise” é uma estratégia “para manter as relações de poder como estão”, posicionando os homens como vítimas da “ideologia do feminismo”, como se eles estivessem fora do campo ideológico.

Identificar-se como oprimido é o melhor jeito de não ter de se responsabilizar enquanto opressor, e qualquer um pode circular por essas duas posições em uma mesma experiência de vida.

Acontece que, mesmo carregando esse alerta de Francis Dupuis-Déri no bolso, Freud já nos ensinou que, diante de uma “distorção da realidade”, uma psicanalista não deve apenas trabalhar para produzir uma tomada de consciência dos dados, mas também pode ler aquilo que se apresenta enquanto ficção, pois as ficções estão atreladas à verdade – ou ainda: as ficções, tendo ou não comprovação material, produzem efeitos materiais. Assim, podemos concluir que os homens estão em crise – de novo, mais uma vez – e agora com mais arcabouços tecnológicos para violentar mulheres, enquanto a extrema direita produziu, nomeou e sequestrou essa crise.

Contudo, é bom lembrar que insistir na crise da masculinidade como algo “central” é uma maneira de nos distrair de várias outras crises que nos acometem – hídrica, epistêmica, ambiental, econômica, ética –, recortando, numa figura, a culpa por todos os males da humanidade: a mulher, principalmente a mulher feminista.

Se há diferenças entre o “discurso red pill” e a proposta de Cazarré, algo os une: a suposição de que retornar a algum lugar será a solução e de que, diante daqueles que impedem esse retorno, a única saída é apagá-los do caminho.

No mito de Adão e Eva, há uma aposta em um paraíso anterior ao momento em que a mulher se mete onde não devia, deixando-se dividir pelo “caô da cobra” e levando o homem junto, sendo então punidos pela transgressão, tornando-se seres faltantes e fora do paraíso. É um mito que desresponsabiliza o homem por sua decisão, mito esse que se repete continuamente quando culpabiliza mulheres pela própria violência que sofreram, mas que, além disso, supõe que a completude – o paraíso – existiu em algum lugar.

A masculinidade se constitui a partir dessa suposição: há castração porque há culpadas(os), mas, em algum lugar, não há ou não houve. Por isso, há sempre uma dimensão nostálgica na masculinidade.

A castração (negatividade estrutural) é constituída na posição da masculinidade vinculada ao campo da impotência, e não do impossível (todos somos castrados; o que faremos com isso?). No discurso da masculinidade, se há castração é porque alguém fez o que não devia.

Diante do encontro com qualquer tipo de perda, há uma insistência em acreditar que “houve paraíso” e que há como recuperá-lo. Não é raro escutarmos, na clínica, homens que, diante da experiência do desejo das mulheres de realizarem outras atividades que não os incluam – nem à família – como “objeto central”, passam a culpabilizar a amiga, a mãe ou qualquer outro personagem para não terem de se haver com a própria falta, mencionando para a analista: “Foi depois que ela começou a escutar aquela psicóloga”.

Ele “salva” a mulher amada, mas degrada a outra que supostamente a “influenciou”. No curso de Cazarré, os homens terão instrutor de tiro; se a propaganda do “líder” são “armas” para proteger a família, adivinha quem levará o primeiro tiro se, por um instante, não centralizar a família como o investimento libidinal mais importante da vida? As mulheres.

Contudo, um passo de distância. Em perspectiva macropolítica, esses discursos de retorno – e aqui não me refiro apenas à estratégia da extrema direita – têm algo de digno. Toda nostalgia precisa ser escutada, pois nostalgia é “a dor de querer voltar” e um modo de dizer: “as coisas não podem continuar como estão”. A nostalgia é um desejo de estar em outro lugar; uma espécie de revolta com o tempo que não ganhou estatuto de subversão.

Em alguma medida, o povo brasileiro já se deu conta de que o modo como o neoliberalismo pauta as relações de amor, parentesco, trabalho e afetos é insuportável, pois produz não apenas experiências avassaladoras de desamparo, mas também de desalento. O povo já declarou: “Nesse tipo de presente não é possível estar.”

O que não é digno é o modo como estão destinando essa “crise”, e os homens têm protagonizado esse destino: tentando retornar para um lugar que já fracassou – a família heteronormativa enquanto unidade econômica de produção de identificações normativas, que garante a reprodução da força de trabalho e sustenta o modelo capitalista de produção.

Se eu, minha companheira e meus filhos ficamos doentes, o problema é nosso – não do coletivo, do Estado, do bairro ou da comunidade. Salve-se quem puder nessa corrida competitiva para ver quem poderá pagar o melhor convênio. E sabemos quem sai na frente dessa corrida.

Desse modo, a extrema direita tem nadado de braçada no próprio paradoxo que criou: neoliberalismo (desalento e desamparo) e investimento em igrejas cristãs (amparo e papéis rígidos de gênero); um não vai sem o outro.

Essa família dita amparadora, funcional e com sólida estrutura é a mesma família que violenta filhos LGBT+, que abusa de suas filhas e filhos, que oprime corpos masculinos que sonham em ser estilistas, que esconde as piores hipocrisias debaixo do tapete e que designa a mulher à condição exclusiva de mãe. É uma família idealizada que nunca existiu. Nunca houve “o paraíso”, mas ele ainda persiste enquanto mito.

O que trago aqui é uma espécie de urgência em lermos melhor o que a “crise da masculinidade” tem nos apresentado enquanto desafio, à medida que chamar esses homens de machistas, assassinos de mulheres e sujeitos tóxicos não tem produzido diferenças significativas para que eles se orientem a partir de outras identificações. Não basta desconstruir a masculinidade; é preciso oferecer novos signos de alienação, identificação e imaginação – e esse trabalho não é apenas das mulheres. Elas já ralaram demais cuidando das “crises dos homens”; precisamos que os próprios homens se ocupem também de oferecer outras saídas para as catástrofes que produzem.

Nota-se, por exemplo, que muitas mulheres estão indo até o perfil de Juliano Cazarré para agradecê-lo por produzir esse conteúdo; aí nos cabe uma tarefa: antes de apontarmos elas como “alienadas ao discurso patriarcal cristão”, devemos nos perguntar por que será que elas agradecem.

Por que, diante de um contexto neoliberal em que se incentiva uma liberdade autocentrada, individualista e egoica, mulheres trabalhadoras ficam gratas por um “líder” que afirma que um pai precisa se apresentar como uma figura forte na criação de um filho?

Ou a esquerda dá um jeito de ler o que o povo brasileiro está estampando na cara de todas nós, ou a extrema direita continuará, com seus bilhões de dólares, investindo nessa “crise”: a masculinidade e o aumento da violência contra as mulheres.

A dificuldade da esquerda em ler esse desalento e oferecer outras propostas de algum nível de “firmeza simbólica”, e não apenas elogios românticos à indeterminação, dificilmente mudará esse cenário. Em certos redutos paulistanos da esquerda brasileira, notamos figuras masculinas que pouco se dividem diante do que o feminismo tende a dizer sobre os furos em relação às críticas de mulheres negras, lésbicas, brancas e trans, e sobre o modo como essa esquerda ora circula entre um marxismo-leninismo apaixonado pelo retorno à “revolução verdadeira” – pouco sensível à própria relação com as mulheres –, ora por um lacanismo-marxista adorador do desamparo e da interpretação dos fenômenos sociais pela via do inconsciente, sem grandes implicações com trabalhos de base.

O povo não aguenta tanta indeterminação numa concretude que insiste em produzir desamparo. Indeterminações sem conquistas materialistas são sonhos pequeno-burguês de lacanianos com bibliotecas lotadas em pequenas mansões herdadas.

E a nossa firmeza não é retorno: é assumir nossos desejos de ruptura. E eles não serão fáceis de assumir justamente porque não são reparativos, mas porque também se assumem desejando “estar em outro lugar”. Quem não deseja estar em outro lugar já abriu mão de qualquer impulso revolucionário.

Se a nostalgia violenta tem sido a resposta frontal das masculinidades para lidar com as crises que se apresentam, a aposta em práticas subversivas como ocupações (direito à terra), grupos que oferecem outras identificações às masculinidades sem apenas denunciá-las como escrotas, práticas quilombolas, circulação nas tarefas domésticas e de cuidado, e o relançamento de uma questão – o que os homens têm a ganhar com o feminismo? – tornam-se fundamentais.

Na experiência da castração, a “arte de perder” só se assenta quando o sujeito passa a experimentar o sabor da liberdade e a gostar dela, percebendo que, se não dá para ficar apenas no reduto familiar incestuoso, sair dele é descobrir um mundo onde também se pode experimentar prazer.

O feminismo não é apenas uma política de cuidado com as mulheres, mas também com os homens, com pessoas não binárias e com todo e qualquer ser humano – e isso está longe de significar qualquer promessa conciliatória de que “tudo vai ficar bem e todos serão felizes”. Feministas, cuidemo-nos com carinho: fomos, mais uma vez, para a boca do canhão.



[Fonte Original]

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