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sexta-feira, janeiro 9, 2026

Crítica | A Ilha Misteriosa (Dylan Dog #23) – Plano Crítico

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A Ilha Misteriosa é o tipo de história interessante, incômoda e até meio boba, mas com um nível de profundidade em certos aspectos que não conseguimos esquecer. Algo cai do céu na Ilha de Egg e começa a alterar toda a matéria animal que toca. O roteiro de Tiziano Sclavi não cria um cenário cheio de anúncios grandiosos de invasão alienígena, mas joga bem com toda a dinâmica. O objeto somente interfere na vida local e deixa o leitor na dúvida sobre sua real intenção ou “malignidade”. Esse processo é explorado de maneira bem inteligente pelo autor, deixando claro que o problema não está no alienígena, e sim na reação humana diante de uma mudança que foge a qualquer controle conhecido. O isolamento da ilha impede que os efeitos se espalhem e se tornem abstratos. Tudo o que muda ali permanece visível e acumulado, exigindo resposta imediata dos personagens e intensificando o mistério, especialmente após a chegada de Dylan Dog.

Stephen, o primeiro afetado pelo alienígena, concentra esse choque de maneira direta. Antes do contato com o artefato, ele vive sob tutela constante, tratado como alguém incapaz de participar plenamente da vida social. Depois, passa a falar, escrever e pensar com clareza. A HQ acompanha essa transformação do personagem e nos faz questionar um montão de coisas. A nova “condição” de Stephen o afasta ainda mais da comunidade (embora a gente não veja isso acontecer, apenas subentendida, numa análise de todo o processo de transformação), intensificando a estranheza ao redor. A situação toda dialoga com o debate presente em Flores para Algernon, de Daniel Keyes, onde o aumento da capacidade intelectual não garante integração social. A história deixa evidente que mudanças individuais profundas, quando ocorrem sem adaptação coletiva, tendem a ampliar a solidão daquele que mudou.

Com a expansão do fenômeno, o corpo passa a ocupar o centro das tensões. As mutações produzem homens-animais que preservam expressões humanas, emoções reconhecíveis e gestos sociais básicos. Os desenhos de Carlo Ambrosini insistem nesses detalhes, afastando qualquer leitura automática dessas figuras como monstros: há um bom contexto visual para tudo. Acompanhamos cenas em que essas criaturas tentam se organizar, se proteger, brincar e reagir ao medo. O conflito se estabelece porque não existem parâmetros comuns para interpretar esses corpos transformados, e encontramos referências claras ao clássico A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, pela sensação de desorientação causada por alterações impostas sem consentimento.

O doutor Lancaster prende, confina e estuda essas criaturas dentro de seu castelo (piscadelas visuais e textuais para Drácula e O Barril de Amontillado estão presentes aqui). Ele trata a situação como experimento científico. O roteiro apresenta essas ações objetivamente, sem exageros dramáticos, deixando que a frieza do procedimento e todo o seu significado existencial falem por si. O ponto mais perturbador é que Lancaster também sofreu uma mutação. Ele conhece os efeitos desse tipo de interferência no corpo e na mente. Ainda assim, repete o processo nos outros, a partir de uma posição de poder. A narrativa expõe, de maneira clara, o risco de uma ciência que ignora limites humanos básicos e transforma vidas em material de pesquisa.

O encerramento mantém a instabilidade construída ao longo de toda a história. O contato alienígena altera estruturas da ilha do “ovo do mundo” e não traz meios para que toda essa mudança seja compreendida, abstraída ou vivida de maneira consciente e real pelos transformados. A ilha passa a existir em um estado permanente de desajuste. Esse tipo de conflito-chave, baseado na falha de comunicação entre formas de vida distintas, me fez lembrar muito fortemente O Planeta dos Mock, de Clark Darlton, onde o problema maior vem da incompatibilidade entre os sistemas de existência das espécies. A Ilha Misteriosa sustenta essa tensão até o fim, com ideias bem definidas (embora cortadas em prol de uma dinâmica típica de Dylan Dog — o terror absurdo –, às vezes tirando um pouco o brilho geral do enredo), impacto visual e um uso bacana do imaginário da ficção científica clássica, algo entre o cinquentista e o oitentista. Mesmo quando alguns caminhos avançam rápido demais ou são irritantemente interrompidos, o volume mantém coesão e um nível alto de magnetismo.

Dylan Dog #23: O Túnel do Terror (L’isola misteriosa) — Itália, agosto de 1988
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Carlo Ambrosini
Capa: Claudio Villa
100 páginas



[Fonte Original]

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