- Há potenciais spoilers do arco anterior. Leiam, aqui, todas as nossas críticas do Universo Absolute.
Em um segundo arco de oito edições que, com as seis anteriores, funcionam muito claramente como uma bem diferente história de origem para o Absolute Superman, Jason Aaron entrega um épico que é primordialmente de busca de identidade, uma jornada do jovem Kal-El tentando entender seu lugar na Terra e sua missão de vida. Ajudado por Sol, uma inteligência artificial na forma de cristais flutuantes que normalmente formam a icônica capa vermelha de seu uniforme, o Superman desse segundo capítulo do começo de sua história luta ao lado de Lois Lane, da organização Lázaro, e Jimmy Olsen, dos Ômega Men, além da valorosa população de Smallville contra sua primeira grande ameaça, o vilanesco Ra’s Al Ghul que, em uma completa releitura da clássica graphic novel O Filho do Demônio, protagonizada por Batman, deseja que o kryptoniano seja seu herdeiro e, para isso, conta com a ajuda corruptora de Brainiac.
Falando em Brainiac, que apareceu já na primeira edição de Absolute Superman, o robótico vilão ganha a atenção que merece com uma edição de origem que serve de prólogo para o arco e que consegue estabelecer muito bem sua mais absoluta psicopatia e extrema violência em um contexto tipicamente exagerado desse novo universo da DC Comics, mas que é muito mais lógico do que os histrionismos extravagantes de Scott Snyder em Absolute Batman. Brainiac, aqui, é uma espécie de servo de Ra’s Al Ghul, cumprindo caninamente suas ordens e com sucesso tornando possível manter em xeque os poderes do Superman. No entanto, essa subserviência de Brainiac a Ra’s não é explicada e não faz exatamente muito sentido, assim como não me desceu muito bem a obsessão de Ra’s em transformar Kal-El em seu filho para além do “eu quero porque sim”. No lugar de ver o Superman como uma ameaça, Ra’s enxerga o Superman como sua única esperança de ter um filho digno, bastando para isso que ele, com a ajuda de Brainiac, “quebre” a resistência do heróis em matar humanos, um conceito simplista e um tanto quanto banal.
Também pouco me convenceu que Ra’s, mesmo considerando seus poderes e mesmo considerando que o Superman não está no ápice de seus poderes graças ao uso de kryptonita e outros instrumentos para enfraquecê-lo, consegue ser uma ameaça crível para o Homem de Aço, daquelas de sair no braço com o herói. Faltou a Aaron elevar Ra’s Al Ghul ao status de “divindade” que ele mesmo se autodeclara o tempo todo, pois o mero fato dele ser o Poço de Lázaro ao seu bel prazer não é razão automática para ele conseguir lutar de igual para igual com o Superman. Tampouco seu minion principal, o Pacificador Christopher Smith ciberneticamente modificado, parece, somente por isso, ser capaz de lida com o kryptoniano da forma que acontece. Por outro lado, os esforços de Aaron para impedir que Kal-El alcance o máximo de seus poderes é valoroso, ajudando um pouco na suspensão da descrença.

O que realmente funciona em Filho do Demônio é justamente a busca de Kal-El por uma razão de ser e a formação de sua equipe de apoio formada principalmente por Lane e Olsen, mas também, depois de certa altura, por Lana Lang. É nesse aspecto que Aaron consegue pegar elementos da mitologia clássica do super-herói e criar algo inesperado, fazendo da dupla de jornalistas uma dupla de guerreiros inicialmente de lados opostos que só mais para a frente flertam com a profissão que os consagrou nos quadrinhos. Um pouco mais do passado de Kal-El em Krypton é visto, complementando o que o roteirista abordou no primeiro arco e, claro, Martha Kent, sofrendo de demência, funciona como a base emocional de um alienígena sem rumo. Até mesmo Sol tem um papel destacado que vai além de ser um guardião do Superman.
O final da gigantesca guerra em Smallville é um tanto quanto abrupto e fácil demais, com a eliminação de um aspecto importante dessa nova versão do Superman que acaba aproximando-o de sua contrapartida original mais do que deveria. E isso sem contar com a duvidosa cereja nesse bolo visto na página final que parece indicar que tudo aquilo que fazia o Absolute Superman ser realmente diferente como a Absolute Mulher-Maravilha é em relação à sua versão original tende a desaparecer já no próximo arco. Sinceramente, espero que minha leitura esteja “errada” e que o que Aaron fez foi apenas um aceno, pois uma reformulação do Superman para esse novo universo não deveria, como acontece com o Absolute Batman, curvar-se demais aos elementos que deixam os leitores mais confortáveis na leitura sobre o personagem. É necessário ousadia e, até os momentos finais desse segundo arco e mesmo com os problemas de verossimilhança que apontei, Aaron vinha triunfando. É esperar para ver.
Na arte, o espanhol Rafa Sandoval abre um pouco de espaço para o italiano Carmine di Giandomenico que, inclusive, é responsável pela edição #7 que conta a origem de Brainiac, com os dois, revezando edições, emprestando muita personalidade e potência aos personagens e conseguindo, mesmo diante da escala gigantesca que é apresentada, com direito a Caixa Paterna, Pacificadores Mechas, um Brainiac monstruoso, um Ra’s Al Ghul megalomaníaco, além de demonstrações vistosas de superpoderes do Superman, manter a coesão, sem jamais se perder na confusão que artistas menos talentosos poderiam mergulhar. Se eu tenho reservas com a história de Aaron, não tenho reparos para o lado artístico, inclusive as poucas páginas que o argentino Fico Ossio desenhou na edição #9.
Mesmo não exatamente mantendo a qualidade de seu primeiro arco como Kelly Thompson conseguiu manter em seu trabalho com a Absolute Mulher-Maravilha, Jason Aaron fechou com categoria uma ótima nova história de origem para o Absolute Superman com foco em sua jornada de autodescoberta depois de chegar à Terra. Resta agora esperar para ver se os eventos do final do arco não aproximarão demais essa versão do Azulão à sua contrapartida clássica, o que seria um completo desserviço à toda a proposta do Universo Absolute.
Absolute Superman – Vol. 2: Filho do Demônio (Absolute Superman – Vol. 2: Son of the Demon – EUA, 2025)
Contendo: Absolute Superman #7 a 14
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Carmine di Giandomenico (#7, 10 e 11), Rafa Sandoval (#8 e 9, #12 a 14), Fico Ossio (#9),
Cores: Ulises Arreola
Letras: Becca Carey (#7 a 9, #11 a 14), Tom Napolitano (#10)
Editoria: Ash Padilla, Chris Conroy
Editora: DC Comics
Data original de publicação: 07 de maio, 04 de junho, 09 de julho, 06 de agosto, 03 de setembro, 1º de outubro, 05 de novembro e 24 de dezembro de 2025
Páginas: 208