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sexta-feira, janeiro 9, 2026

Caso Venezuela expõe motivação mercantilista de Trump

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À medida que passam os dias, vão ficando mais evidentes as motivações da operação militar americana que capturou o ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas, na madrugada de sábado. E é provável que muitos que louvaram a retirada do ditador venezuelano acabem se decepcionando com o propósito mercantilista e “America First” da iniciativa.

Em primeiro lugar, está claro que o ataque à Venezuela não visou a uma troca de regime nem ao restabelecimento da democracia. Ou, pelo menos, não imediatamente. Os EUA tiveram uma janela de oportunidade, com o pânico inicial que se instalou em Caracas, de tentar derrubar o regime chavista. Não o fizeram. Refutaram entregar o poder à oposição venezuelana, cuja principal líder, María Corina Machado, foi descartada por Trump — talvez por ter sido laureada pelo Nobel da Paz tão desejado pelo americano. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, foi empossada, com o beneplácito americano e o apoio da cúpula chavista. Ontem, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou um plano para a Venezuela em três fases — estabilização do país, recuperação econômica e transição de poder —, mas sem nenhum detalhe.

Também não se falou mais no combate ao tráfico de drogas para os EUA, que provavelmente foi apenas o pretexto para a expressiva mobilização militar americana no Caribe, e a Casa Branca até recuou na acusação a Maduro de liderar um cartel de drogas. Então, quais foram as reais motivações por trás de uma operação tão audaz quanto arriscada? Há um conjunto de objetivos que possivelmente pesaram mais na decisão americana de, pela primeira vez, atacar um país da América do Sul.

Trump destacou desde o início o seu interesse pelo petróleo, a commodity que move a economia mundial. “Há muita energia naquele país”, disse logo após a operação militar. “Precisamos dela para nós.” Os EUA consomem mais de 20 milhões de b/d de petróleo, e produzem cerca de 13,5 milhões. A diferença precisa ser importada, e Washington busca garantir esse fornecimento no próprio continente, sem depender de outras regiões. Com a redução da produção no México, a Venezuela ganha importância nessa equação. Além disso, apesar dos apelos do presidente (“drill, baby, drill”), a produção americana subiu pouco em 2025 e pode até cair neste ano, já que a queda da cotação da commodity nos últimos seis meses desestimula a produção do óleo de xisto. Garantir petróleo barato da Venezuela ajudaria ainda a conter o repique de inflação nos EUA, um tema crucial num ano eleitoral. O foco no petróleo ajuda a explicar a acomodação com Delcy, que é bem conhecida pelas petroleiras americanas.

Não está claro, porém, se as empresas americanas vão se interessar em investir maciçamente na Venezuela, onde o ambiente de negócios continua ruim, e o risco, elevado. Recuperar o sucateado setor de petróleo venezuelano levará tempo e custará dezenas de bilhões de dólares. Na segunda-feira, Trump sugeriu que poderia reembolsar as companhias petrolíferas pelos investimentos feitos no país que ele alega — sem qualquer fundamento na realidade — controlar, ressarcindo-as por seus gastos lá. Ou seja, em questão de dias, o discurso passou de enormes oportunidades de lucro para subsidiar os investimentos da indústria petrolífera na Venezuela às custas dos contribuintes americanos.

O acesso ao petróleo venezuelano renderá ainda um grande ganho financeiro a um proeminente doador de campanha de Trump, o bilionário Paul Singer. Em novembro, Singer comprou a Citgo, antiga subsidiária americana da PdVSA, a estatal petrolífera venezuelana. A Citgo possui três refinarias na Costa do Golfo, construídas para processar o óleo venezuelano, e que sofreram com o embargo americano. Agora, com esse óleo rumando novamente para os EUA, Singer terá um lucro significativo. Sua compra da Citgo foi incrivelmente oportuna.

O fator político-eleitoral também parece ter influenciado na decisão de atacar. Trump é um presidente impopular. Segundo a média das pesquisas compilada pelo site Silver Bulletin, apenas 42% dos americanos o aprovam, contra 54% que o desaprovam. A operação militar era arriscada, mas o sucesso pode ajudar a alavancar a imagem do governo e reduzir a chance de uma derrota nas eleições de novembro para o Congresso. Segundo a mídia americana, o presidente teme sofrer um terceiro processo de impeachment caso a oposição democrata consiga a maioria na Câmara em novembro.

A operação militar desviou a atenção pública nos EUA de dois temas que vêm abatendo a imagem do presidente: o caso Epstein e dados desfavoráveis na economia, principalmente o aumento do desemprego e a persistente pressão inflacionária. Esse efeito, porém, tende a ser passageiro.

Outra motivação é geopolítica. Ao intervir na Venezuela, os EUA sinalizam que pretendem, de fato, fazer do continente uma prioridade de política externa, como consta da nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada em dezembro. Trata-se de uma retomada da Doutrina Monroe, da América para os americanos. Isso manda uma mensagem inequívoca a Pequim e Moscou de que a presença chinesa e russa na região será menos tolerada. As bombas americanas em Caracas elevaram o risco para as empresas chineses na América Latina, e isso ameaça condicionar decisões de investimentos, o que pode até afetar o Brasil.

[Fonte Original]

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