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terça-feira, janeiro 27, 2026

“Já fui mulher, eu sei”: infância, dependência e misoginia. – Revista Cult

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Há alguns anos, costumo brincar com as crianças no consultório de um jogo ingênuo: desenhar a partir do rabisco do outro. O “jogo do rabisco” ficou famoso entre os psicanalistas quando Winnicott passou a utilizá-lo como mediador da comunicação entre adultos e crianças na situação clínica.

A psicanálise já havia se debruçado sobre as discrepâncias dessa comunicação e os abusos determinados pela assimetria da relação entre o idioma do adulto e o da criança. Adulto e criança tornaram-se o par exemplar, o próprio paradigma da assimetria para uma psicanálise que chegou até mesmo a ignorar outras formas importantes de relação de poder e opressão igualmente constitutivas. A preocupação girava essencialmente em torno da carga erótica excedente de um adulto — marcado por sua história de encontros assimétricos — sobre o corpo de um bebê desamparado por natureza, prematuro, o mais prematuro entre os mamíferos. Interessava saber o quanto desse excesso o bebezinho conseguiria assimilar e como o adulto, de sua parte, se responsabilizaria por isso.

Rabiscando de olhos fechados, Winnicott, no entanto, nos convidava para uma outra forma de encontro. Havia a esperança de que poderíamos estar nessa relação de um modo menos ameaçador e desigual para a criança, preservando, paradoxalmente, nosso lugar de adulto. Existe um lugar de encontro compartilhado onde o conflito não é o princípio organizador. Um lugar em que é possível encontrar o outro e reconhecer sua alteridade radical, mesmo quando nos sentimos profundamente misturados a ele. Na relação entre adultos e crianças, esse lugar é a brincadeira — para quem sabe brincar, é claro.

Fui aprimorando minha técnica de rabiscos com as crianças, incorporando as dicas de canetas e instrumentos modernos que só elas conheciam, o que resultou em um novo modo de brincar e de estarmos juntos. Eu pedia um rabisco e seguia compondo o desenho em alguns momentos da sessão. Às vezes, o desenho levava um dia inteiro para terminar, atravessando várias sessões de adultos, crianças e adolescentes. O desenho, que eu deixava exposto pelo consultório, produzia muitas associações entre os adultos, enquanto os adolescentes e crianças davam mais palpites técnicos. As crianças foram as primeiras a observar algumas repetições: “Você só desenha chapéu”, “Você é obcecada por cabeças”, até que rapidamente me alertaram para o óbvio: “Você só desenha mulheres”.

A brincadeira de Winnicott era baseada em uma refinada teoria sobre o desenvolvimento emocional primitivo, em que ele descreve, dentre outras coisas, o papel da dependência na jornada do sentimento de si. Já sabíamos da prematuridade e do desamparo do bebê humano, mas ainda não havíamos olhado com detalhes para o que nossa natureza dependente pode produzir em termos de sofrimento e capacidades criativas.

O fato é que fomos absolutamente dependentes de uma mulher em um momento em que não tínhamos outros recursos e condições de sobrevivência. Não dá para, como nos ensina Clarice, “nascer do próprio parto”. A sustentação da vida que começa dentro do corpo da mãe precisa se transpor para um mundo constituído não só por mulheres, mas por outras formas humanas e não humanas de presença e proteção até o bebê amadurecer. No caso do Brasil, como mesmo depois do parto os cuidados com bebês e crianças ficam predominantemente a cargo de mulheres, esse amadurecimento continua, na maioria das vezes, dependente de alguma mulher. Ou melhor: é, geralmente, uma mulher concreta que encarna a função psíquica de sustentação nos primórdios da vida.

A dependência, no entanto, produz um sentimento paradoxal. Em um primeiro momento, ela precisa ser vivida de forma satisfatória. É um momento de extrema ilusão, em que o bebê experimenta o mundo com onipotência, porque tudo o que precisa está disponível, mais ou menos na hora certa.

Não demora muito para ele perceber, com ódio e frustração, que esta disponibilidade não é absoluta. E, de um modo raivoso, todo mundo sabe como pisar no coração de uma mulher. Ambivalente, o bebê se ressente, ao mesmo tempo, por não ter conseguido proteger aquilo de que mais necessita da sua própria destrutividade. Percebendo a dependência, ele precisa agora cuidar para continuar sendo amado — o que é o mesmo, nestes tempos primordiais, que ser cuidado.

O horror à mulher, talvez a faceta psíquica mais primitiva de onde se nutre a misoginia, pode estar relacionada, em alguma medida, à identificação do poder absoluto de quem sustenta a vida. Esse poder aponta para nossa limitação radical e para o reconhecimento de que, sozinhos, não somos capazes de sobreviver. Esse horror nasce da experiência psíquica de dependência radical que a cultura patriarcal se apressa em recalcar, recusar ou inverter.

Cuidar dos resquícios dessa grande mágoa, a depender de como cada um viveu esta experiência, é uma tarefa maturacional de extrema importância porque envolve, dentre outras coisas, a responsabilização por nossa própria destrutividade.

Há algo da ilusão experimentada na dependência que está diretamente relacionada, por outro lado, à nossa capacidade criativa. Trata-se de uma conservação da ilusão em uma zona específica da realidade de onde surge a brincadeira. Uma zona frágil, livre de conflito, que experimentamos quando estávamos confundidos com a mulher que já cuidou da gente. No colo dela, como se fosse o nosso próprio corpo, já fui mulher, eu sei.

A relação de cuidado que se estabelece em uma análise reanima os fantasmas mais remotos da experiência de dependência: uma quantidade enorme de mulheres invisíveis povoa um consultório de psicanálise.

Um dia desses eu conversava com uma criança sobre como seria o Natal, agora que a avó tinha morrido. Ela estava relutante com a análise, mas tinha acabado de me ensinar um jogo novo. Disse que iria falar uma palavra e que depois, no três, diríamos juntos a primeira coisa que viesse à cabeça em associação. Seguiríamos assim até que uma hora falaríamos a mesma palavra. Eu duvidei.

Rádio — disse rápido. — Um, dois, três e já! — Anos oitenta. — Casa da avó. — Um, dois, três e já! — Filme. — Ainda Estou Aqui. — Um, dois, três e já! — Oscar. — Oscar.

Ficamos emocionados. Como explicar para um adulto o que aconteceu ali?

Lembrei da sua avó que tinha acabado de morrer. Lembrei da Dona Eunice Paiva, que não deixou a casa cair. Olhei para todas aquelas mulheres ao redor, desenhadas coletivamente ao longo dos últimos meses, e soube do ódio, da culpa, da inveja e da gratidão. Já fui mulher, eu sei.



[Fonte Original]

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