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segunda-feira, janeiro 12, 2026

‘Sell America’: ataque de Trump ao Fed revive aposta do mercado contra os EUA

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O sentimento de “venda os EUA” voltou a se espalhar pelos mercados nesta segunda-feira (12), depois que o governo do presidente Donald Trump intensificou seus ataques ao Federal Reserve, aumentando as preocupações sobre a autonomia do banco central para definir a política de juros.

O dólar, os Treasuries e os futuros das ações dos EUA recuaram depois que o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que a ameaça de um indiciamento criminal nos Estados Unidos é consequência de um desacordo sobre política monetária. Embora as quedas tenham sido relativamente limitadas, o tema sensível da independência do Fed e suas implicações para os mercados americanos voltou ao centro dos debates entre investidores.

“Qualquer desenvolvimento que levante dúvidas sobre a independência do Fed aumenta a incerteza em torno da política monetária dos EUA”, disse Gary Tan, gestor de portfólio da Allspring Global Investments, que administra mais de US$ 600 bilhões. “Isso tende a reforçar as tendências de diversificação para fora do dólar e aumentar o interesse por instrumentos tradicionais de proteção, como o ouro.”

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Na noite de domingo, Powell informou que o banco central dos EUA recebeu intimações de um grande júri do Departamento de Justiça relacionadas ao seu depoimento ao Congresso sobre as reformas em andamento na sede do Fed. Esse é o capítulo mais recente de uma série de confrontos, que inclui tentativas de demitir a diretora Lisa Cook e repetidos apelos por cortes agressivos de juros.

O índice de dólar da Bloomberg caiu 0,3%, a maior queda desde 23 de dezembro. Os futuros do S&P 500 recuaram 0,7%. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos subiram três pontos-base, para 4,20%, caminhando para o maior fechamento desde setembro. Os juros do título de 30 anos avançaram cinco pontos-base, para 4,86%.

Alguns estrategistas alertaram que as perdas podem se aprofundar se as tensões continuarem a aumentar. A JPMorgan Asset Management apontou o risco de uma inclinação maior da curva de juros, com taxas de longo prazo subindo mais do que as de curto prazo, diante da expectativa de cortes mais agressivos. A Lombard Odier vê mais pressão sobre o dólar e os Treasuries. Já a Invesco Asset Management afirmou que ativos fora dos EUA, como ações da Europa e da Ásia, parecem mais atraentes.

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No centro do debate está até que ponto o presidente dos Estados Unidos pode e deve influenciar a política de juros do país, que nas últimas décadas foi protegida de interferência política. Investidores também passaram a questionar se devem reduzir a exposição a ativos americanos e ao dólar, um tema que dominou os mercados globais em abril do ano passado, quando Trump anunciou tarifas universais.

“Este é um péssimo momento para o mercado se preocupar com a independência do Fed”, disse Bhanu Baweja, estrategista-chefe do UBS Investment Bank, acrescentando que a inflação dos EUA tende a subir nos próximos meses. “O tema comum deste ano parece ser não apenas um dólar mais fraco, mas também maior volatilidade nas ações.”

O presidente vem pressionando há muito tempo o Fed a cortar os juros mais rapidamente para estimular a economia e reduzir os custos de financiamento do governo, enquanto os dirigentes do banco central têm se mostrado cautelosos diante dos riscos de inflação. Paul Volcker, que assumiu a presidência do Fed em 1979, ficou marcado pela luta para conter a inflação, problema que muitos acreditam ter sido agravado porque o banco central cedeu à pressão do então presidente Richard Nixon.

Em entrevista à NBC News no domingo, Trump afirmou não ter conhecimento da investigação do Departamento de Justiça sobre o banco central.

“A notícia pode mais uma vez alimentar a narrativa de ‘venda América’ na abertura dos mercados”, disse Gerald Gan, diretor de investimentos da Reed Capital Partners, de Cingapura. Segundo ele, a dinâmica reflete um governo “focado em recuperar apoio popular antes das eleições de meio de mandato, mesmo às custas da credibilidade institucional”.

“Operadores macro devem aumentar posições vendidas no dólar diante do risco de Powell ser prejudicado no exercício de seu papel como presidente do Fed”, avalia
Mark Cranfield, estrategista da Bloomberg.

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Os ativos dos EUA já haviam ficado sob pressão no ano passado, quando o anúncio repentino de tarifas globais por Trump provocou forte turbulência nos mercados. Os rendimentos dos Treasuries dispararam em abril, com os títulos de 30 anos subindo mais de 80 pontos-base intradiários entre o chamado “Dia da Libertação” e o fim de maio. O dólar caiu mais de 8% em 2025, sua maior queda anual desde 2017.

“A intimação ao Fed é mais um exemplo de como os ativos americanos estão se tornando menos atraentes”, disse David Chao, estrategista global da Invesco Asset Management, que administra mais de US$ 2 trilhões. “Além de os EUA estarem se fechando atrás de uma espécie de ‘Fortaleza América’, o país também está se tornando mais predatório.”

Alguns analistas adotam uma visão mais cautelosa, afirmando que, dado o papel do dólar como moeda de reserva, a elevada liquidez dos Treasuries e o impulso do setor de inteligência artificial nas ações, qualquer correção pode representar uma oportunidade de compra. “Embora sempre nos preocupemos com a independência, vamos observar e tomar decisões quando houver um impacto econômico mais claro”, disse Marvin Loh, estrategista macro sênior da State Street, em Boston.

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Ainda assim, as pressões da estratégia “venda América” tendem a continuar no início de 2026.

A investigação sobre Powell “no momento parece mais fumaça do que fogo”, afirmou Hebe Chen, analista sênior de mercado da Vantage Global Prime, mas acrescentou que a duração desse quadro ainda é incerta. “As implicações de longo prazo e mais profundas são muito mais significativas”, disse.

© 2026 Bloomberg L.P.

[Fonte Original]

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