Se em 2025 pareceu que o investimento em tecnologia “voltou”, isso não foi imaginação — mas ele voltou de uma forma muito específica: mega-rounds, menos deals e um mundo dominado por IA.
O funding global reacelerou fortemente em 2025, com vários trimestres atingindo — ou superando — a marca de US$ 90 bilhões. No total, o venture global alcançou US$ 469 bilhões no ano. Empresas de IA capturaram 48% de todo o capital, enquanto mega-rounds (US$ 100M+) representaram cerca de 65% do funding total, evidenciando a quão concentrada se tornou a alocação de capital.
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Tanto o funding quanto o número de exits atingiram o maior nível em três anos. Falando de recortes mais específicos —robôs humanoides lideraram o crescimento em número de deals — apontando para a mesma conclusão: investidores estão pagando caro por teses de alta convicção.
A robótica emergiu como a próxima fronteira, com funding crescendo 74% YoY, de US$ 23,4B em 2024 para US$ 40,7B em 2025.
Do lado dos investidores, a atividade ficou ainda mais concentrada nos grandes: General Catalyst liderou com 213 deals, seguido por a16z (178) e Sequoia (139).
Por que isso importa para todos:
Quando quase metade dos dólares globais de venture se concentra em um único tema, tudo o que está fora desse tema se torna mais sensível a preço, mais orientado a prova, mais estruturado — com maior uso de dívida, secundárias e rodadas em tranches. Esse é exatamente o ambiente ao qual a América Latina vem se adaptando, muitas vezes por necessidade e não por escolha.
LatAm: a “volta” não é hype — é uma mudança na arquitetura de financiamento
A América Latina entrou em 2025 ainda carregando as cicatrizes da correção pós-2021. A região migrou de forma decisiva de “growth at any cost” para “durabilidade a qualquer preço”.
Ao final do ano, a região somou US$ 4,8B em funding distribuídos em 680 deals, o que representa cerca de 2% do venture global, em linha com o que foi visto em 2024.
Embora o Brasil continue atraindo o maior volume absoluto, o México se destacou: foi a primeira vez em anos que o país superou o Brasil em funding em um único trimestre, sinalizando uma mudança na dinâmica regional.
Em exits, a atividade melhorou de forma modesta: 336 transações de M&A e 3 IPOs ao longo do ano. Em número de deals, Bossa Invest, Norte Ventures e Monashees figuraram entre os investidores mais ativos.
Os três vetores que explicam melhor a América Latina em 2025
Mais do que dizer se o mercado “subiu” ou “caiu”, três mecanismos passaram a definir como os deals acontecem na região:
- Venture debt e rodadas mistas (equity + debt no mesmo pacote);
- Secondaries como válvula de liquidez, com crescimento projetado de ~60% ao ano;
- Pressão por retenção de talento encontrando a realidade: a relevância de ESOP cresce, mas a adoção ainda é baixa — menos de 20% das startups oferecem planos formais.
Por que isso importa: esses instrumentos normalmente aparecem quando o mercado fica seletivo, mas os founders ainda precisam construir. A história da região em 2025 é menos “o crescimento voltou” e mais “a região está aprendendo a se financiar como um mercado de late cycle”.
Gravidade setorial: fintech segue como âncora, mas IA é o fator marginal
Mesmo quando “AI-first” não é a identidade dominante da LatAm, IA passou a representar o dólar marginal — aquele capital que define se um mês parece forte ou fraco.
As fintechs continuam sendo a camada estrutural da região, acompanhado por crescimento relevante em proptech e enterprise software.
Brasil: 2025 não foi um boom — foi uma rotação
O Brasil é o melhor estudo de caso de uma recuperação seletiva. O ano parece fraco no agregado, melhor no meio e muito explícito sobre onde a convicção dos investidores de fato se concentrou.
O headline: queda no equity, mas uma queda bem menor quando consideramos todas as estruturas.
Segundo a Bloomberg Línea, com base em dados preliminares do Sling Hub:
- ~US$ 1,7B em equity em 2025, queda de 34% YoY (vs. ~US$ 2,6B em 2024);
- ~US$ 4,3B incluindo divida, reduzindo a queda para cerca de 17%.
Essa diferença conta a história real. O Brasil não perdeu capital — reprecificou e reestruturou. Em um mundo onde o VC global foi sugado pela gravidade dos mega-rounds de IA, o Brasil expressou a mesma preferência por risco via instrumento financeiro, e não via expansão de valuation.
O mundo de VC em 2025 não é sobre abundância generalizada — é sobre convicção concentrada. Globalmente, essa convicção se traduziu em IA e mega-rounds. Na América Latina — e especialmente no Brasil — ela apareceu em estrutura, seletividade e engenharia financeira. Menos um retorno ao passado, mIAs uma adaptação a um novo normal.