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A carne bovina consolidou-se como um dos principais vetores de crescimento das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, ao combinar expansão consistente de volume com forte valorização da receita externa.
Segundo a plataforma AgroStat, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com base em dados a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o faturamento das exportações de carne bovina saltou de US$ 12,8 bilhões (R$ 64,0 bilhões) em 2024 para US$ 17,9 bilhões (R$ 89,5 bilhões) em 2025, um avanço de 39,8% em apenas um ano.
Em um ano de ajustes relevantes no comércio internacional, o setor ampliou embarques, capturou preços mais elevados e ganhou participação estratégica dentro da pauta exportadora do agro, reforçando seu papel na sustentação da balança comercial brasileira.
O desempenho chama atenção também pelo contexto adverso em que foi construído. Ao longo de 2025, o Brasil enfrentou complicações comerciais decorrentes do tarifaço adotado pelos Estados Unidos, que atingiu diretamente a carne bovina e elevou o grau de incerteza para exportadores.
Ainda assim, a cadeia pecuária conseguiu redirecionar fluxos, preservar competitividade e sustentar um ciclo de crescimento que se refletiu tanto em receita quanto em presença nos principais mercados globais.
Número 1 em exportação e, agora, em produção
Esse avanço nas exportações ocorreu em paralelo a uma virada histórica na produção mundial de carne bovina. Em 2025, o Brasil foi reconhecido pelo próprio Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) como o maior produtor global da proteína, superando os Estados Unidos pela primeira vez.
A produção brasileira alcançou o recorde de 12,35 milhões de toneladas equivalente-carcaça (tec), crescimento de 4,2% em relação ao ano anterior. No mesmo período, a oferta norte-americana recuou 3,9%, totalizando 11,8 milhões de toneladas, consolidando uma mudança estrutural no equilíbrio global do setor.
No mesmo intervalo, o volume embarcado cresceu de 2,9 milhões para 3,5 milhões de toneladas, alta de 20,3%. O descompasso positivo entre receita e quantidade exportada evidencia um ganho relevante de preço médio por tonelada.
Esse movimento alterou de forma significativa o peso relativo da proteína bovina dentro do agronegócio exportador. Em 2024, o setor respondia por 7,8% da receita total do agro brasileiro, que somou US$ 164,3 bilhões.
Em 2025, essa participação avançou para 10,6%, sobre um total de US$ 169,2 bilhões, consolidando a carne bovina como um dos pilares centrais de crescimento da balança comercial do campo.
Cortes desossados concentram valor e ditam a estratégia
A leitura por categoria de produto mostra que a expansão não ocorreu apenas por escala, mas também por composição da pauta. As carnes desossadas congeladas permaneceram como o principal pilar das exportações, com faturamento de US$ 14,4 bilhões (R$ 72,0 bilhões) em 2025 e volume de 2,7 milhões de toneladas.
Sozinho, esse item respondeu por 80,4% de toda a receita externa da carne bovina brasileira, refletindo eficiência logística, padronização industrial e ampla aceitação internacional.
As carnes desossadas frescas ou refrigeradas também ganharam espaço. Em 2025, geraram US$ 2,1 bilhões (R$ 10,5 bilhões) em receita, com embarques de 0,3 milhão de toneladas. Trata-se de um segmento mais exigente do ponto de vista sanitário e logístico, mas que oferece maior remuneração por tonelada e reforça a inserção do Brasil em mercados de maior valor agregado.
Produtos industrializados e miudezas completaram o portfólio exportador. As preparações e conservas de carne bovina somaram US$ 0,7 bilhão (R$ 3,5 bilhões), enquanto as miudezas comestíveis congeladas responderam por US$ 0,3 bilhão (R$ 1,5 bilhão), ampliando o aproveitamento econômico da carcaça e contribuindo para a diversificação de destinos.
Ranking dos 10 Principais Destinos em 2025
O mercado global de carne bovina brasileira permanece altamente concentrado na Ásia, mas apresenta um crescimento vigoroso em mercados ocidentais estratégicos.
- 1. China: 1,6 milhão de toneladas — US$ 8,8 bilhões (R$ 44,0 bilhões)
- 2. Estados Unidos: 271,7 mil toneladas — US$ 1,6 bilhões (R$ 8,0 bilhões)
- 3. Chile: 135,3 mil toneladas — US$ 0,8 bilhões (R$ 4,0 bilhões)
- 4. México: 118,0 mil toneladas — US$ 0,6 bilhões (R$ 3,0 bilhões)
- 5. Rússia: 126,4 mil toneladas — US$ 0,5 bilhões (R$ 2,5 bilhões)
- 6. Filipinas: 96,2 mil toneladas — US$ 0,4 bilhões (R$ 2,0 bilhões)
- 7. Países Baixos: 40,3 mil toneladas — US$ 0,4 bilhões (R$ 2,0 bilhões)
- 8. Egito: 99,8 mil toneladas — US$ 0,4 bilhões (R$ 2,0 bilhões)
- 9. Itália: 47,3 mil toneladas — US$ 0,4 bilhões (R$ 2,0 bilhões)
- 10. Hong Kong: 98,9 mil toneladas — US$ 0,4 bilhões (R$ 2,0 bilhões)
Ásia lidera volumes, Ocidente puxa preços
O ranking de destinos em 2025 confirma a forte concentração das exportações brasileiras na Ásia, com a China mantendo-se como principal compradora. O país importou 1,6 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, gerando US$ 8,8 bilhões (R$ 44,0 bilhões) em receita.
A participação chinesa no faturamento total do setor avançou de 46,6% em 2024 para 49,2% em 2025, aprofundando a dependência, mas garantindo escala e previsibilidade às operações brasileiras.
Na sequência aparecem os Estados Unidos, com 0,3 milhão de toneladas e US$ 1,6 bilhão (R$ 8,0 bilhões), seguidos por Chile e México. O desempenho mexicano se destaca: o faturamento triplicou em um ano, saltando de US$ 0,2 bilhão para US$ 0,6 bilhão, acompanhado por crescimento equivalente em volume.
Na Europa, mercados como Países Baixos e Itália praticamente dobraram o valor importado entre 2024 e 2025, mesmo com volumes absolutos menores. O movimento indica maior penetração do Brasil em nichos de cortes nobres e produtos de maior valor agregado.
Quem paga mais pela tonelada brasileira
A análise de preço médio por destino explicita a lógica dessa estratégia comercial. Em 2025, o valor médio global da carne bovina exportada pelo Brasil ficou em torno de US$ 5,2 mil por tonelada.
Os Países Baixos lideraram o ranking de valorização, pagando cerca de US$ 9,5 mil por tonelada, quase o dobro da média. A Itália aparece na sequência, com US$ 7,9 mil por tonelada, enquanto os Estados Unidos remuneraram o produto brasileiro a aproximadamente US$ 6,0 mil por tonelada.
Na outra ponta, mercados como Egito e Hong Kong operaram com preços médios mais baixos, em torno de US$ 3,8 mil e US$ 3,6 mil por tonelada, respectivamente, refletindo maior participação de cortes simples e miudezas.
A China manteve um equilíbrio estratégico, com preço médio de US$ 5,4 mil por tonelada, ligeiramente acima da média global, sustentando margens mesmo em operações de grande escala.
Valor agregado cresce também dentro da pauta
Quando observados por tipo de produto, os dados reforçam a transição qualitativa do setor. As preparações e conservas de carne bovina lideraram o ranking de valor unitário, com preço médio de US$ 7,2 mil por tonelada.
As carnes desossadas frescas ou refrigeradas alcançaram US$ 6,3 mil por tonelada, enquanto as carnes salgadas, secas ou defumadas, apesar do volume residual, operaram em torno de US$ 6,1 mil por tonelada.
Mesmo com preço médio inferior, de US$ 5,3 mil por tonelada, as carnes desossadas congeladas permaneceram como o principal motor financeiro do setor, justamente por combinarem escala, eficiência logística e ampla aceitação internacional.
Uma mudança estrutural em curso
O contraste com outras cadeias do agronegócio é evidente. Enquanto em segmentos como o complexo soja o aumento de volume não se traduziu em ganho de receita, a carne bovina apresentou um efeito duplo: mais toneladas embarcadas e mais dólares capturados por tonelada.
O avanço de 39,8% no faturamento, frente a 20,3% de crescimento no volume, indica que o Brasil passou a vender não apenas mais carne, mas carne melhor remunerada.
Os dados de 2024 e 2025 apontam para um reposicionamento estrutural da pecuária brasileira no mercado internacional. O país avança simultaneamente na hegemonia de volume nos mercados asiáticos e na valorização nos destinos que pagam prêmio por qualidade, padronização e rastreabilidade.
Trata-se de uma mudança silenciosa, mas de impacto direto sobre renda, investimento e estratégia de longo prazo da cadeia da carne bovina.




