Falar sobre investimentos na Amazônia é, quase sempre, falar sobre desencontros. Entre a urgência global por soluções climáticas e a pressa para ter retornos financeiros, o essencial se perde. A Amazônia não é um espaço a ser conquistado, mas um sistema vivo e complexo, com cultura, epistemologias e ritmos próprios. Nesse contexto, o desenvolvimento da Amazônia deve ser justamente isso: amazônico em sua essência.
Durante décadas, projetos públicos e privados chegaram à região carregando a promessa de “desenvolvimento econômico” e “progresso”. Muitos fracassaram. Não por falta de recursos ou tecnologia, mas porque tentaram aplicar modelos importados a realidades que não cabem em planilhas e formulários padronizados.
Essa constatação não vem da teoria, mas da prática. Ao longo dos últimos anos, iniciativas de pesquisa, cooperação e diálogo com atores locais revelaram um padrão que se repete: o descompasso entre o que o capital gostaria de fazer e o que o território comporta. É o que alguns chamam de “Custo Amazônia”, que envolve questões como o custo da distância, da logística, da burocracia; mas também da pressa, do desconhecimento e da falta de escuta.
Projetos chegam nos territórios com cronogramas rígidos e jargão corporativo, e encontram comunidades com outras prioridades, outras linguagens e outros tempos culturais. As abordagens impositivas tendem a gerar desconfiança, desgastes e ruídos que minam os resultados. Ninguém gosta que cheguem na sua casa ditando regras, não é mesmo? Dito isso, o sucesso de investimentos e empreendimentos na Amazônia depende de investir em sintonia, de construir confiança, adaptar contratos mais simétricos e reconhecer o valor dos saberes tradicionais como parte dos modelos de negócio.
A Cartilha sobre Investimentos Responsáveis na Amazônia, lançada em dois volumes pela Amazon Investor Coalition em parceria com o Instituto LACLIMA, pretende servir de ponte entre capital, ciência e conhecimento tradicional, convidando todos a transformar princípios em prática e a construir, juntos, uma bioeconomia amazônica resiliente e próspera. Elaborada a partir de entrevistas com diversos atores que atuam no território, análise documental e revisão bibliográfica, a publicação sintetiza décadas de aprendizados sobre como direcionar recursos de forma ética, inclusiva e juridicamente sólida.
Mas, se é fato que há barreiras culturais e divergências sobre os caminhos para o sucesso, há também um consenso emergente: a bioeconomia é uma das maiores oportunidades do século XXI, tanto para o Brasil quanto para investidores privados, e a Amazônia está no centro disso. O mundo busca soluções baseadas na natureza, e poucas regiões combinam tanta sociobiodiversidade com o potencial de inovação. O desafio é, justamente, entender como transformar esse potencial em realidade, e isso passa por não repetir o erro de subestimar a complexidade local.
Hoje, os incentivos econômicos ainda jogam contra a floresta. Produtos da bioeconomia enfrentam carga tributária superior à de commodities de alto impacto ambiental. Linhas de crédito acessíveis são raras, a assistência técnica é insuficiente e a insegurança fundiária continua a afastar investidores sérios. É um paradoxo: manter a floresta em pé ainda custa mais caro do que derrubá-la.
Para romper essa lógica, precisamos rever as nossas relações com o risco. O risco amazônico não é financeiro, é de percepção: enxergar a floresta e a cultura local como obstáculo é o que limita o investimento. E a inovação, além de tecnológica, deve passar por aspectos institucionais, com a criação de instrumentos financeiros adaptados, modelos de governança compartilhada e métricas que valorizem impactos socioambientais positivos de longo prazo.
Apesar dessa abordagem ser fora do “padrão”, não é necessário inventar a roda. Há experiências bem-sucedidas que mostram o caminho das pedras. Parcerias baseadas em confiança e protagonismo local, respeito às salvaguardas, com repartição justa de benefícios e clareza contratual, têm mostrado resultados mais consistentes que projetos megalomaníacos que ignoram as vocações reais da região amazônica. O futuro dos investimentos sustentáveis na Amazônia depende de multiplicar esses exemplos, com pragmatismo e humildade.
O debate sobre desenvolvimento sustentável costuma oscilar entre a idealização e o ceticismo. É hora de encontrar o meio-termo: a Amazônia não é inviável nem romântica, é complexa. E essa complexidade não é sinônimo de obstáculo, mas de sofisticação e do potencial que ela guarda. Investir bem na região é reconhecer que prosperidade já está lá dentro.
A Amazônia, afinal, não pede salvadores, pede parceiros.
Link para acessar a cartilha: https://linktr.ee/CartilhaAICeLACLIMA
- Gaia Hasse é advogada, mestre em Direito Internacional e Sustentabilidade e doutoranda em Direito Econômico Internacional e Desenvolvimento Sustentável. Atua como coordenadora de projetos e especialista em políticas na LACLIMA, onde lidera projetos de pesquisas e advocacy, acumulando ampla experiência no acompanhamento das negociações climáticas da ONU. Sua trajetória inclui passagens pelo setor privado, instituições públicas, sociedade civil e organismos internacionais como o Grupo Banco Mundial (IFC) e a ONU Migração (IOM), sempre conectando dimensões jurídicas, econômicas e políticas para promover justiça climática e desenvolvimento sustentável.
- Yanê Amoras Lima é graduada em Direito pela Universidade Federal do Pará – UFPA, atualmente atua como head de Pesquisa Jurídica na Amazon Investor Coalition, onde lidera o time de Rule of Law, e é Diretora Executiva da Aliança Jurídica pela Amazônia (AJA). Também atua como advogada e consultora jurídica com foco em relações empresariais e direitos humanos.
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