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domingo, janeiro 18, 2026

Recorde de turistas: saiba por que parte dos visitantes está trocando a Zona Sul do Rio pela Barra e forçando adaptações nos setores de comércio e serviços

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A alta de turistas estrangeiros no Rio de Janeiro — segundo a Secretaria estadual de Turismo, o estado bateu recorde em 2025, com 2.196.443 visitantes registrados, 43,7% a mais que em 2024 — é facilmente observada na Barra da Tijuca e nos bairros vizinhos. Visitantes de diferentes nacionalidades têm descoberto as belezas e as comodidades da região, e os setores de comércio e serviços se adaptam para recebê-los. O empenho vale a pena, já que, na semana passada, a Riotur e as secretarias de Desenvolvimento Econômico e Turismo divulgaram que neste verão a atividade deve injetar R$ 12,8 bilhões na cidade, um aumento de 18% em relação ao ano passado.

Muitos dos estrangeiros que preferem os bairros da Zona Sudoeste já conheciam a cidade e estão retornando para uma nova temporada, diz Flávio Valle, CEO da operadora DMC Mais Brasil Viagens, que fica no bairro e acomoda 80% dos visitantes estrangeiros que recebe em hotéis da Barra e do Recreio.

— Vemos uma mudança de comportamento neste público. Muitos estrangeiros que já vieram ao Rio e estiveram na Zona Sul viram como é confuso lá. Esses turistas começaram a descobrir a Barra para aproveitar a cidade em praias mais bem cuidadas, em hotéis mais novos, com tecnologia de ponta e tarifa atrativa, e em restaurantes estrelados. Hoje, no Rio, a Barra oferece uma experiência melhor — resume Valle.

O setor turístico acompanha o movimento. Em agosto, foi lançado um serviço de shuttle na região, um ônibus que transporta turistas de seus hotéis até trilhas, praias, restaurantes e outros passeios entre o Jardim Oceânico e Grumari, resultado de uma parceria entre o Sindicato de Hotéis e Meios de Hospedagem (HotéisRIO) e o Grupo Via Capi.

— Levantamos tudo o que tem para fazer por aqui, diferentes atividades, e montamos uma linha de ônibus. Temos ainda um motorista que também é guia — explica Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO.

Ônibus do serviço de shuttle lançado por hotéis da Zona Sudoeste: transporte até pontos de interesse da região — Foto: Divulgação/HotéisRIO

Também pelo HotéisRIO, o programa Procap Barra e Recreio busca chamar a atenção para a região, convidando anualmente um público estrangeiro de jornalistas, agentes de viagens e outros operadores do setor para conhecerem atrações locais e áreas destinadas a diferentes tipos de eventos. Lopes diz que este movimento começou nos Jogos Olímpicos de 2016, quando Barra, Recreio e arredores ganharam mais dez mil quartos de hotéis, dentro do esforço para que a cidade atingisse a quantidade de hospedagens mínima exigida pelo Comitê Olímpico internacional, e a circulação pela região ficou mais simples, com a inauguração da estação Jardim Oceânico do metrô.

— Os turistas que voltam sabem que podem pegar um Uber da Barra até o metrô se quiserem ir dali para a Zona Sul também — avalia ele, que elenca os países que mais mandam visitantes para cá. — Houve crescimento no volume, mas a foto é mais ou menos a mesma. Primeiro, a América do Sul, com Argentina e Chile como destaques, e depois americanos e europeus. Mais recentemente, temos também canadenses, pois o país passou a ter voos diretos para o Rio.

O turista sul-americano é uma especialidade de Valle, que lançou no último ano o selo Solo Mujeres, destinado a grupos femininos que viajam para despedidas de solteira, compras ou apenas diversão entre amigas. Outro nicho forte é o de grandes shows de artistas brasileiros ou internacionais, muitos deles realizados em espaços de eventos na Barra, e que contribuem para que o fluxo de visitantes se mantenha o ano todo. Valle acaba de comprar um camarote na Farmasi Arena, com o intuito de receber agentes estrangeiros para viverem essa experiência.

— Os turistas estrangeiros passaram a ver que não precisam de férias para viajar; podem vir nos feriados deles, que muitas vezes são na baixa temporada para nós — diz o empresário, que tem a agência há um ano e sete meses e já passou de quatro para 27 funcionários.

Praia da Barra lotada no primeiro dia útil de 2025 — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
Praia da Barra lotada no primeiro dia útil de 2025 — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

Os estrangeiros que circulam pela Zona Sudoeste muitas vezes se encantam também com roteiros fora dos tradicionalmente oferecidos a este público. Segundo profissionais da área, capelas antigas e restaurantes de Vargem Grande e Vargem Pequena os atraem.

— O forte dessa região são os passeios voltados para o ecoturismo: trilhas, cachoeiras, praias mais selvagens. Eles recebem turistas que querem sair do óbvio dos cartões-postais do Rio e viver a cidade sob outra ótica — aponta Leticia Larangeira, moradora do Recreio que tem uma franquia da agência de viagens 3, 2, 1 GO! há um ano.

Cada grupo tem suas características. Europeus buscam visitar as praias com Bandeira Azul, selo internacional de certificação da Foundation for Environmental Education (FEE), como Prainha, Reserva e Grumari. Os argentinos buscam atrações típicas e serviços que a Barra tem de sobra para oferecer, a preços mais convidativos que os de seu país atualmente.

— Recebo argentinos que vêm sem mala, para comprar tudo aqui — explica Valle, que vê outro fator atrativo no transporte para a região. — Antes, o transfer saindo da Barra era um pouco mais caro que o da Zona Sul. De dois anos para cá, as empresas incorporaram a Barra, e não há mais diferença nos valores.

Equipe bilíngue se torna um trunfo

Foi justamente um hábito estrangeiro que inspirou a empresária Rachel Apollonio e o seu marido, o australiano Matthew Mbye, a abrirem o quiosque Musa, em São Conrado, em 2024. O casal se conheceu quando os dois moravam em Bali, na Indonésia, e decidiu passar o carnaval no Rio. Na época, Mbye sentiu falta de cafeterias que abrissem cedo, para que os clientes tomassem seu café da manhã antes de trabalhar, algo comum na Austrália, segundo ele.

— Logo na primeira semana, o Mbye se questionava: como as pessoas não tomam café da manhã aqui nesta praia? Ele sugeriu morarmos no Brasil e abrirmos um quiosque que abrisse cedo e tivesse café com uma culinária saudável. Na mesma viagem, eu já comecei a pesquisar, fiz contato com a Orla Rio (concessionária que faz a gestão dos quiosques da orla) e encontramos este local. Voltamos para Bali só para buscar as malas — recorda Rachel, que atualmente mora no Joá e inaugurou ontem uma franquia do Musa no VillageMall.

Rachel Apollonio e  Matthew Mbye no quiosque Musa, em São Conrado: foco nos turistas de fora do país desde a inauguração — Foto: Divulgação/Musa
Rachel Apollonio e Matthew Mbye no quiosque Musa, em São Conrado: foco nos turistas de fora do país desde a inauguração — Foto: Divulgação/Musa

Com o olhar voltado para o público estrangeiro, os dois já abriram com cardápio bilíngue, em português e inglês, e preparam uma versão em espanhol. Na inauguração, tinham cinco funcionários falando outro idioma, mas atualmente são apenas dois.

— Está difícil achar garçom bilíngue. Até por isso ficamos muito tempo no atendimento atualmente. Acho que os cariocas da região vão buscar mais os cursos de idioma e também o de barista, outra função que tem demanda — avalia ela, que vê uma predileção dos clientes estrangeiros pelos smoothies e matchas (chá muito consumido na Ásia), além da famosa água de coco.

A maior presença de estrangeiros nos restaurantes fez com que o grupo BestFork investisse na qualificação dos seus funcionários que atuam no salão. A marca responde pelas casas Nolita Rastery, no NewYork City Center; Giuseppe Square, no BarraShopping; e Nolita, Yusha e Giuseppe Mar, no VillageMall. A partir de 2019, o grupo firmou parceria com a empresa EP English para oferecer aulas on-line de inglês para os seus funcionários, o que foi intensificado nos últimos dois anos. Não é uma atividade obrigatória, mas há um incentivo financeiro: o garçom que se torna bilíngue passa a ganhar 10% a mais de comissão.

— A demanda por profissionais que falassem inglês na Barra era baixa. Aos poucos, foi crescendo e decidimos investir. Oferecemos aulas de segunda a quinta, em diferentes horários, para os funcionários conseguirem assisti-las. Temos parcerias com hotéis; então, receber estrangeiros acabou virando uma rotina — destaca Lucas Ripper, sócio do grupo.

O grupo BestFork oferece aulas de inglês  a funcionários de seus restaurantes: quem faz, ganha mais — Foto: Divulgação/BestFork
O grupo BestFork oferece aulas de inglês a funcionários de seus restaurantes: quem faz, ganha mais — Foto: Divulgação/BestFork

O mesmo tem acontecido nas areias da Barra, com barraqueiros já se acostumando a receber estrangeiros que optam por contemplar o mar bebendo uma caipirinha de limão ou outro drinque. Na barraca Point do Eudes, na Praia do Pepê, dois funcionários dominam o inglês. Na barraca Nessa, no Posto 6, a proprietária Vanessa Batista já enviou o novo cardápio bilíngue para ser impresso em uma gráfica e pretende lançá-lo nos próximos dias.

— Abri minha barraca no ano passado; ainda sou nova neste segmento. O que pretendo implantar vem da minha visão de cliente, já que sempre frequentei as praias do Rio, em especial as da Barra da Tijuca. Eu percebia a carência de cardápio e atendimento bilíngues — conta ela.

A necessidade também alcança outros serviços. Desde novembro, funcionários das unidades do Supermercado Zona Sul na Barra que falam outro idioma passaram a ostentar, pendurado no crachá, um broche com a bandeira do principal país onde a língua é falada. A iniciativa veio junto com a contratação de uma empresa especializada que aplica provas orais e de interpretação para garantir que a equipe esteja afiada.

Eudes, do Point do Eudes, mostra o cardápio bilíngue de sua barraca — Foto: Divulgação/Marco Moreira
Eudes, do Point do Eudes, mostra o cardápio bilíngue de sua barraca — Foto: Divulgação/Marco Moreira

Mesmo nos hotéis, acostumados com estrangeiros, adaptações têm sido necessárias. No Radisson, onde 40% dos clientes são estrangeiros, em sua maioria vindos da América Latina, foram contratados alguns funcionários nativos de países de língua espanhola. Algo que dá aos hóspedes uma sensação de acolhimento.

— Quando percebem que estou falando espanhol, alguns turistas fazem fila para eu atendê-los mesmo que meus colegas estejam disponíveis, porque se sentem mais à vontade. Acho que procuram um atendimento mais personalizado — deduz a recepcionista argentina Alicia Thevenin, que dá dicas que vão de restaurantes para comer bem a lojas de lembrancinhas. — Me perguntam muitas coisas, o dia inteiro (risos).

A argentina Alicia Thevenin, recepcionista do Radisson: hotel procura contratar estrangeiros — Foto: Divulgação/Radisson
A argentina Alicia Thevenin, recepcionista do Radisson: hotel procura contratar estrangeiros — Foto: Divulgação/Radisson

As adequações vão além da oferta da língua falada pelos clientes. O restaurante Grillo, em Vargem Pequena, mudou radicalmente seus horários e dias de atendimento para receber a demanda crescente de estrangeiros. Depois de dez anos funcionando de quarta a domingo, a casa passou a abrir diariamente. E agora também no horário do almoço, o que antes não acontecia às quartas e quintas.

— Os turistas costumam vir especialmente durante o dia, para conhecer as cachoeiras locais e em busca de experiências gastronômicas. Agora oferecemos uma experiência completa na região. Muitos chegam aqui com uma listinha de restaurantes elaborada antes da chegada ao Brasil — observa Renato Guimarães, sócio da casa.

 Renato Guimarães (à direita), sócio do Grillo, e a chef Natasha Guinle (de camisa branca) recebem turistas no restaurante de Vargem Pequena — Foto: Divulgação/Grillo Restaurante
Renato Guimarães (à direita), sócio do Grillo, e a chef Natasha Guinle (de camisa branca) recebem turistas no restaurante de Vargem Pequena — Foto: Divulgação/Grillo Restaurante

O próximo passo desta guinada turística deve alcançar lugares mais distantes. Alfredo Lopes, do HotéisRIO, conta que ele e sua equipe foram à China, em 2025, e que pretendem buscar turistas do país, que tem a segunda maior população mundial, atrás apenas da Índia. Essa expansão de mercado também mira os Brics, bloco de países emergentes do qual o Brasil faz parte. A partir das visitas, a ideia é orientar a rede hoteleira carioca:

— Os turistas chineses, por exemplo, não gostam tanto de experimentar pratos locais. Querem comer a com a comida deles mesmo. E os russos procuram um turismo de alto luxo, como temos na Barra.

[Fonte Original]

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