Antes mesmo de Os Ômega Men chegar ao fim e apenas um mês depois de a primeira edição de Visão ser lançada, a publicação da terceira maxissérie em 12 edições de Tom King, formato que se tornaria padrão para ele, começou, desta vez pela Vertigo Comics, selo que o descobrira três anos antes com Tomado pelos Demônios. A pouco lembrada O Xerife da Babilônia é, também, a primeira série autoral do roteirista e a única de cunho pessoal, já que ele usou sua experiência de cinco anos como agente da CIA, com permanência por alguns meses no Iraque durante a invasão e ocupação do país pelos EUA como suposta represália pelo 11 de Setembro, para escrever uma história policial que faz cáusticos comentários à política externa americana e ao violento caos instalado depois da derrubada de Saddam Hussein, em 2003. Apesar da característica ficcional da obra, é impressionante notar como ela exala autenticidade a cada quadro, com diálogos realistas, com os pés no chão, que encontram ecos na esplêndida arte de Mitch Gerads, em sua primeira parceria com King.
O título da maxissérie é uma ironia fina e também um elemento narrativo. A palavra “xerife” denota lei, hierarquia, comando e isso é tudo o que não existe no Iraque nos primeiros meses sob controle dos EUA. Tudo ali é uma gigantesca Terra de Ninguém com um pálido verniz de ordem que parece vir muito mais de palavras jogadas ao vento e de uma presença bélica evidente, do que de qualquer ato concreto que pareça levar o Iraque a algum lugar que não seja a um buraco ainda mais profundo do que já estava. Como que para reiterar essa situação sem norte algum, somos apresentados a três “supostos” xerifes que dividem o protagonismo da história. O primeiro deles é Christopher Henry, um ex-policial de Los Angeles contratado pelo exército americano para treinar recrutas iraquianos para eles formarem a força policial do “novo país” sendo construído. Ele só é xerife por ser o mais próximo da representação do “pistoleiro do Velho Oeste” por sua antiga profissão e por vir de onde vem, já que, nesse novo ambiente, ele não manda em absolutamente nada. O segundo xerife é Sofia, iraquiana cuja família foi exterminada por Saddam Hussein enquanto ela estudava nos EUA e que, adulta, passou a fazer parte do conselho do novo governo, agindo como ponte entre os interesses americanos e os iraquianos, mas também em interesse próprio. Finalmente, o terceiro xerife é Nassir, um ex-membro da força policial de Saddam Hussein que é apresentado como a encarnação da fúria vingativa pelo assassinato de suas três filhas. Juntos, os três parecem representar recortes do status quo do país dividido, com a tensão causada não só pela presença americana, como, também, pelas disputas e conflitos internos entre sunitas e xiitas, entre seguidores cegos de seu deus e aqueles que conseguem enxergar um meio-termo.
Até prova em contrário, King parece ter criado Christopher como seu avatar, um homem consideravelmente ingênuo na “arte da guerra” que aos poucos percebe o horror em que está, algo que já fica evidente na primeira cena com ele, em que ele entra em um refeitório evacuado onde uma menina iraquiana com hijab senta-se silenciosa e de forma suspeita, com o personagem tentando conversar somente para ser interrompido pela execução sumária e à distância da jovem por soldados que atiram ante e perguntam depois. E o pesadelo de Christopher continua quando ele recebe uma ligação sobre a localização do corpo de um dos recrutas que ele treinava e que ele se recusa a seguir o caminho burocrático que apenas reconhecê-lo e, ato contínuo, deixar para lá. É essa morte, claro, que funciona como gatilho narrativo para a investigação que segue e o pareamento de Christopher com os muito mais experientes Sofia e Nassir, o que leva a trinca a ser alvo de assassinos misteriosos. No entanto, a investigação é mera desculpa para King caminhar por suas severas e contundentes críticas principalmente à presença americana no Iraque, mesmo que ele naõ deixe de abordar o país sob a ditadura de Saddam Hussein e toda a tensão interna que já existia.

É particularmente fascinante e corajoso ver como King, que nunca escondeu que ingressara na CIA para fazer sua parte em razão dos atentados do 11 de Setembro dedica diversas páginas a um espetacular diálogo sob a influência de bebida entre Christopher e Fatima, esposa de Nassir, à beira de uma piscina vazia – e explodida – de parte de uma instalação do governo anterior na Zona Verde, dominada pelas forças dos EUA. O assunto? O 11 de Setembro, claro, com uma troca sincera e honesta de visões que podem fazer o queixo do leitor desavisado cair, com uma completa desconstrução do que se espera de uma HQ de editora mainstream americana escrita por um americano que trabalhou cinco anos em contraterrorismo para uma agência americana. Talvez seja nesse ponto que o leitor percebe com absoluta certeza de que está lendo algo de outro nível, que vai bem além de um sobrevoo perfunctório sobre um momento histórico recente que, infelizmente, replica não só o que aconteceu nas cinco décadas anteriores, como vem acontecendo agora mesmo, no momento em que escrevo a presente crítica.
Como disse no parágrafo de abertura, King preza pelo realismo de seus diálogos – característica que ele mantém mesmo quando escreve minisséries de super-heróis, vale dizer – e das situações que seus personagens lidam, mas é a arte de Mitch Gerads que efetivamente ancora a narrativa no mundo real, com o artista não só cuidando para reproduzir as ruas e bairros de Bagdá com o maior nível de detalhes geográficos possíveis, como para materializar o texto de King sem traí-lo por um segundo sequer. É como um documentário sobre a guerra, ou, no máximo, um filme de ficção que se agarra sem medo à completa verossimilhança. E o conjunto roteiro + arte, aqui, faz algo que em muitas outras situações poderia ser considerado um pecado, que é por vezes criar um grau de hermetismo que pode afastar os leitores. Porque sim, o realismo é tanto que a história, por vezes, é fragmentada, ambígua, sem resoluções explícitas e com jargão específico do meio que traz complexidade para a história e, com ela, criando um abismo entre leitor e página. Mas é importante – essencial! -, para aqueles que se pegarem com dúvidas, simplesmente perseverar, pois, quando a última página é virada, a mensagem de King e Gerads terá sido passada sem a menor sombra de dúvida.
O Xerife da Babilônia talvez seja a primeira obra-prima de Tom King e, diria mais, possivelmente sua maior. Claro que não é nem de longe a mais reconhecida ou falada justamente por não abordar personagens da cultura pop e, ao contrário, mexer em um incômodo vespeiro (especialmente se o leitor for dos EUA), mas é com essa maxissérie muito pessoal e próxima de sua experiência de vida, que o roteirista mostra todo o seu controle narrativo, toda sua capacidade de lidar com a crua e cruel realidade. Caos é, ironicamente, a palavra de ordem nesse universo muito real que King aborda aqui, mas sua voz nos quadrinhos revela-se, pela primeira vez, no absoluto comando de sua arte, o verdadeiro xerife da Nona Arte da última década no ocidente.
O Xerife da Babilônia (The Sheriff of Babylon – EUA, 2016/17)
Contendo: The Sheriff of Babylon #1 a 12
Roteiro: Tom King
Arte e cores: Mitch Gerads
Letras: Nick J. Napolitano (#1 e 2), Travis Lanham (#3 a 12)
Editoria: Molly Mahan, Jamie S. Rich
Editora original: Vertigo Comics (DC Comics)
Datas originais de publicação: fevereiro de 2016 a janeiro de 2017
Editora no Brasil: Editora Panini
Data de publicação no Brasil: maio e novembro de 2017 (dois encadernados); julho de 2021 (edição única)
Páginas: 304