O dólar à vista encerrou o pregão desta quinta-feira em queda frente ao real, em mais um dia marcado pelo alívio na percepção global de risco e também pela rotação de ativos, com investidores buscando diversificação em suas carteiras. A sessão foi marcada por uma melhora intensa nos mercados locais, em especial na bolsa, com fluxo de capitais estrangeiros possivelmente beneficiando o câmbio também.
Diante desse movimento, o câmbio desfez todo o estresse observado no fim do ano passado com o anúncio da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Terminadas as negociações de hoje, o dólar à vista registrou desvalorização de 0,67%, cotado a R$ 5,2840, o menor patamar desde 11 de novembro de 2025, quando o dólar encerrou a R$ 5,2727. Cabe lembrar que esta data em novembro foi também aquela marcada pelo menor nível de fechamento do dólar em 2025. O euro comercial, por sua vez, recuou 0,21%, a R$ 6,2051.
Apesar da queda firme da moeda americana, na sessão de hoje, o real não esteve entre as moedas que mais se valorizaram. O destaque do dia foi o mercado de câmbio colombiano, onde o dólar caiu 1,84%. Já no exterior, o índice DXY recuava 0,42%, perto das 17h15, aos 98,351 pontos.
No início da sessão o dólar mantinha queda contida, apesar do forte fluxo em bolsa, que renovou recordes chegando ao patamar dos 177 mil pontos. Operadores do mercado apontaram que, diante dessa forte entrada no país, para não ficar muito exposto aos ativos brasileiros, o investidor estrangeiro pode ter feito “hedge” em dólar.
De todo modo, o real se valorizou hoje, acompanhando a dinâmica dos pares no exterior, que chegaram a apreciar com magnitude ainda maior.
“É uma busca de ativos ainda não tão apreciados no restante do mundo”, diz André Valério, economista sênior do Banco Inter. “A incerteza geopolítica que ainda existe, apesar do distensionamento visto ontem, favorece ativos reais, impulsionando emergentes produtores de commodities, como o Brasil. Com isso, observa-se um fluxo muito significativo de estrangeiro, puxando a bolsa brasileira a níveis recordes e apreciando o real.”
O diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, diz que o movimento de rotação que é observado no mundo hoje não necessariamente reflete uma saída de ativos americanos. Na sua leitura, essa rotação se dá mais entre um setor e outro, do que entre países. “Parcela relevante dos recursos está saindo do setor de tecnologia, que já estava esticado, e está migrando para outros setores, entre o segmento ligado a commodities. E é aí que o Brasil tem uma vantagem comparativa grande”, afirma.
Pela posição estratégica do Brasil neste quesito e por outros motivos, Oliveira diz ver espaço para os ativos brasileiros se beneficiarem, em especial o câmbio. “O Brasil, dentro da classe de emergentes, é um dos países com melhor performance, seja porque tem uma pauta exportadora favorável, seja pelo juro real elevado que atrai investidor, seja porque o país tem mostrado ser uma democracia sólida”, afirma, acrescentando que este último ponto tem sido mais relevante para os investidores na hora de fazer alocações. “Neste ambiente geopolítico novo, este é um fator que importa cada vez mais.”
O Banco Pine projeta o dólar a R$ 5,20 no fim do ano, mas vê o dólar médio a R$ 5,35. Ao longo do primeiro semestre, Oliveira diz ver espaço para a moeda americana até chegar a se aproximar de R$ 5,00. Já para o segundo semestre, as eleições, aqui e nos Estados Unidos, podem criar algum risco que pressione o câmbio.