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sexta-feira, janeiro 23, 2026

Crítica | A Última Vez que Morri – Plano Crítico

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O mercado infantojuvenil sul-africano raramente conta com produções de fantasia medieval e, quando publicam o gênero, geralmente são traduções de títulos europeus ou dos EUA. A produção local, em graphic novels, prefere super-heróis urbanos como Kwezi, de Loyiso Mkize, ou narrativas históricas que abordam o passado do país. Em 2021, Fanie Viljoen e Daniël Hugo fizeram algo diferente desse padrão, publicando, pela Penguin Random House South Africa, a HQ A Última Vez que Morri, adaptação do romance juvenil homônimo que Viljoen havia lançado pela Ransom Publishing britânica em 2016. A história segue Sam Carver, um rapaz de 16 anos que possui sete vidas e já consumiu seis delas nas mãos do ambicioso e impiedoso Black Crow, que assassina o líder local (pai de Sam) e agora quer tirar o menino do caminho para poder governar sem limitações. O roteiro deixa clara a urgência: Sam deve retornar e cumprir o seu destino, que é eliminar o tirano encapuzado que aterroriza a Cidade Velha. O conceito geral da história pesca elementos de tradições persas e europeias que atribuem ao número sete um significado místico, mas numa premissa já resolvida, sem explicações maiores (ou mesmo contexto, infelizmente), deixando claro que se trata de uma aventura direta e sem pretensões de reinventar o gênero.

Viljoen trabalha seu roteiro com os fundamentos clássicos da fantasia de vingança: o herói improvável, a jornada de redenção, a aliada inesperada (Claire, que quase enterra Sam sem saber que ele ainda respirava), e o vilão tirano e corrupto. A história se desenvolve de maneira objetiva, destacando a ação em detrimento de construções psicológicas dos personagens ou regras gerais para este universo, o que é uma pena. Sam tem um objetivo claro (vingar o pai), mas o texto não faz questionamentos morais sobre o peso da vingança ou dilemas existenciais/místicos sobre o sentido de possuir sete vidas. Essa escolha permite que a história avance rápido, mas escancara a simplicidade e os clichês basicões da proposta: uma saga rasa onde cada evento (a entrada noturna no castelo do Black Crow, a expedição ao cemitério à noite, os confrontos com bandidos) são obstáculos que não oferecem muita coisa interessante para expansão e problematizações quaisquer.

A melhor coisa de A Última Vez que Morri é, definitivamente, a arte de Daniël Hugo, mesmo que não esteja aqui em toda a sua glória. O ilustrador da Cidade do Cabo, conhecido aqui no Brasil por seu trabalho minucioso em África Fantástica, desenha um universo cativante, melhorando a simplicidade bobinha do roteiro até mesmo na diagramação da página, adotando um estilo de segmentação que me lembrou o de Christopher Priest. Sua arquitetura do castelo de Black Crow, tanto nos planos externos que mostram torres e muralhas em detalhes, quanto nos interiores, em quadros mais opressivos de corredores e salões, destaca uma perspectiva e atmosfera bem refinadas. As cenas no cemitério seguem o mesmo caminho, ganhando peso com o uso criterioso de sombras e texturas. Já as sequências de combate valem mais pela diagramação do que pela composição anatômica, movimentos e suspense visual. Quando falamos de ambientes, Hugo trabalha com riqueza de detalhes, fazendo com que a gente demore o olhar nos quadrinhos, encontrando pequenos elementos de caracterização medieval e de fantasia, que são sempre interessantes.

Talvez por ser uma adaptação, A Última Vez que Morri aproveita pouco daquilo que tem de mais chamativo em sua premissa. O autor não traz reflexões filosóficas sobre a morte, reencarnação ou justiça, ideias que seriam bem-vindas e elevariam a qualidade do enredo. Sua história, aqui, parece se contentar em ser um entretenimento adolescente. A parceria com Hugo é bastante positiva, fazendo com que, pelo menos no campo visual, a adaptação seja lembrada. Para um mercado sul-africano onde graphic novels para adolescentes ainda lutam para ver a luz do sol, a obra acaba sendo um exercício de ocupação simbólica do espaço editorial. É um sinal de que existe lugar e público para que vozes locais experimentem o gênero e (seria “sonhar alto“?) o reinventem em futuras produções no país.



[Fonte Original]

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