Após divulgar a saída de Rebeca Palis da chefia do Departamento de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a direção do instituto recebeu, dois dias depois, o pedido de exoneração do servidor Cristiano Martins, que atuava como uma espécie de sub-coordenador (cargo denominado “substituto” pela instituição) de Palis, informou fonte a par do assunto ao Valor. O departamento é o responsável pela apuração e cálculo do PIB do país.
A mesma fonte informou que Martins pediu exoneração de dois cargos: de substituto da Coordenação de Contas Nacionais; e de gerente de Bens e Serviços. Martins informou à direção aguardar orientação em relação ao desligamento efetivo dos dois cargos e que se coloca à disposição para passar o trabalho aos novos ocupantes das duas posições, detalhou a fonte.
A direção do instituto informou a Martins, no entanto, que a solicitação será apreciada em momento oportuno, visto que Palis está de licença. Assim, a direção alegou que as exonerações dos cargos não podem ser realizadas de imediato.
Procurado para falar sobre o tema, o instituto não se pronunciou até o momento.
Na segunda-feira (19), o IBGE anunciou a troca de comando do departamento de Contas Nacionais. Palis, há 11 anos no cargo, será substituída por Ricardo Montes de Moraes, servidor do IBGE desde 2005.
O anúncio da substituição ocorreu a menos de 60 dias da divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025, programado para 3 de março, e no meio de processo de atualização da série do PIB. Procurado pelo Valor para falar sobre se a troca poderia afetar a programação dos dois trabalhos, o IBGE informou que “a exemplo do que ocorre em todas as transições, as divulgações do IBGE não sofrerão qualquer impacto.”
Embates com Márcio Pochmann e “Fundação IBGE+”
Fontes ouvidas pela Valor, na ocasião, informaram que a troca pode ser considerada mais um capítulo no embate, que dura há quase dois anos, entre servidores com atual gestão, comandada pelo economista Márcio Pochmann, nomeado em 2023.
A crise entre servidores do IBGE e o presidente Márcio Pochmann começou em 2024. O início do embate pode ser delineado em julho daquele ano. Na ocasião, a direção do instituto anunciou oficialmente aos servidores da organização o lançamento da “Fundação IBGE+”. Criada pela direção do instituto em julho de 2024, foi anunciada oficialmente aos servidores em setembro de 2024.
Quando da época da criação da fundação, a direção do instituto justificou a decisão. A explicação era que a estrutura permitiria que o IBGE pudesse receber recursos adicionais para pesquisa e inovação tecnológica, que não ficassem sujeitos às restrições obrigatórias do orçamento federal.
Mas a fundação foi alvo de críticas, desde seu anúncio, por parte do Sindicato Nacional dos Funcionários do IBGE (ASSIBGE), bem como parte de funcionários do instituto. O Valor ouviu ambos, na ocasião e, para eles, a nova estrutura despontava como uma espécie de “IBGE paralelo”.
Desde então, várias cartas de repúdio, públicas, foram veiculadas por servidores do instituto, contra a atual gestão. Uma das que tiveram maior adesão foi veiculada em janeiro de 2025, quando quase 200 pessoas assinaram documento – incluindo Palis.
No entanto, ao final de janeiro do ano passado, ocorreu suspensão temporária da fundação, em anúncio de forma conjunta, pelo Ministério do Planejamento e Orçamento e pelo IBGE, o que ajudou a apaziguar ânimos entre os servidores na ocasião.
Porém, outras trocas de cargos de confiança dentro do IBGE foram efetuadas, desde então. No ano passado, quatro diretores deixaram seus cargos no instituto. Até a troca de Palis, a mais recente substituição ocorreu em novembro do ano passado. Na ocasião, o instituto informou troca de quatro gerentes da área de comunicação social por profissionais com pouca experiência no órgão, o que também gerou nova carta de repúdio, pelos servidores.