O movimento da bolsa brasileira neste ano tem sido “notável”, assim como o de outros mercados acionários na América Latina. O Ibovespa já tocou expressivos 180 mil pontos na sessão de ontem, em um movimento “rápido demais e cedo demais”. Mas, apesar disso, “há motivos para otimismo”, enfatiza a equipe de estratégia de ações para América Latina do J.P. Morgan, comandada por Emy Shayo Cherman, ao expor as discussões realizadas em um webinar com clientes do banco na última quinta-feira, 22 de janeiro.
O Brasil entra em 2026 como “um dos mercados mais observados dentro dos emergentes”, o que dialoga com os fluxos extraordinários neste início de ano, que se refletem na disparada do Ibovespa.
De fato, com o fator técnico “limpo” e sem muitos agentes “comprados” no mercado brasileiro, o Ibovespa tem tido movimentos não lineares, o que se reflete em “arrancadas” ao longo dos pregões. Ontem, isso se mostrou de forma clara quando o índice alcançou os 180 mil pontos pela primeira vez.
“Daqui para frente, há dois principais gatilhos”, diz a equipe de Shayo Cherman, ao apontar para o esperado ciclo de cortes de juros e para a eleição presidencial.
“O Banco Central deve iniciar a redução dos juros em março, com uma queda total estimada de 3,5 pontos percentuais [no cenário-base do J.P. Morgan] ao longo do ano. Historicamente, o mercado brasileiro reage bem a ciclos de flexibilização monetária, mas esta será a primeira vez em que o país enfrentará cortes de juros em meio a um processo eleitoral”, observam os estrategistas do banco. Para eles, a eleição de outubro deve adicionar uma camada extra de volatilidade.
“O presidente Lula concorre à reeleição, mas a oposição permanece fragmentada, e a visibilidade do cenário segue limitada ao menos até abril. Pesquisas atuais mostram Lula à frente, mas também com elevada rejeição, enquanto o senador Flávio Bolsonaro vem ganhando espaço. Diante desse ambiente, a estratégia recomendada é focar em empresas grandes e de alta qualidade, evitando assumir riscos excessivos”, enfatizam os estrategistas.
Para eles, o melhor no momento é ter paciência e seletividade, “já que a volatilidade deve permanecer elevada até que haja maior clareza no cenário político”.
O J.P. também nota que há uma divergência entre investidores locais e estrangeiros no Brasil. Os locais estão majoritariamente preocupados com preços altos — um tema mais sensível para eles do que para os estrangeiros. Além disso, os locais também estão muito focados nas próximas eleições, notam os estrategistas.
“Os investidores estrangeiros, por sua vez, tendem a ser menos sensíveis ao resultado eleitoral e adotam uma visão mais matizada. É comum a pergunta sobre como o mercado reagiria a uma eventual reeleição do presidente Lula, mas, de modo geral, a diferença de desempenho do mercado a depender do vencedor provavelmente não será tão grande quanto alguns esperam”, afirmam os profissionais do banco.