Passeando pelo feed do Instagram, cerca de dois anos atrás, Stephanie Sartori esbarrou com a foto de um folião empunhando uma placa de protesto em meio a um cortejo. “Menos look, mais fantasia”, bradava o rapaz. “Lembro-me de pensar: ‘É assim que me sinto. Quero levar a Santa Maria nesta direção’”, conta a designer, mencionando a própria marca especializada em roupas momescas. “O carnaval estava virando uma passarela, com as pessoas adotando um visual de festa. Inclusive, eu me sinto, em parte, culpada. Quando comecei, segui um pouco por esse caminho.”
Mas este ano não será igual ao que passou. Aos poucos, roupas de pirata, colombina, pierrô e palhaço foram ganhando mais espaço nas coleções da marca, num movimento que irradia para outros criadores. É o caso, por exemplo, da Ohlograma, de Clarissa Romancini. Nesta temporada, a etiqueta bota o bloco na rua apinhada de clássicos. “Estava sentindo um empobrecimento estético e resolvi mergulhar na memória afetiva da minha infância”, diz a criadora. Ficaram no passado apenas as apropriações culturais, como motivos indígenas e a roupa de baiana, enquanto a bailarina, a coelhinha e o marinheiro, para citar alguns, são as vedetes da vez. “Fica muito mais lúdico e divertido assim.”
Autor do livro “Os blocos do carnaval carioca” (Multifoco), Tiago Ribeiro afirma que as fantasias começaram a ser introduzidas na agenda momesca carioca em meados do século XIX, quando os bailes começaram a incorporar a lógica dos carnavais franceses e italianos. “Tinha toda a opulência e o caráter didático de contar uma história com a roupa. Ao mesmo tempo, quem não tinha recursos lançava mão de uma mistureba de materiais”, comenta. “Hoje em dia, isso ficou mais abstrato, numa lógica em que a ‘beleza’ chama mais atenção do que o personagem. O que dita esse comportamento, em parte, são as redes sociais, que mudaram a lógica de como produzimos os nossos registros visuais.”
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A oscilação de comportamentos, contudo, não é novidade na história da festa. Durante a pesquisa do livro, Tiago encontrou reportagens publicadas no fim da década de 1950 que narravam o sumiço dos blocos de rua e do consequente encalhe de fantasias nas lojas. “Mas não era bem isso. Os cortejos nunca deixaram de desfilar, só haviam mudado a própria forma”, pondera. “É algo parecido com o que ocorre hoje, com blocos que tocam até Katy Perry.”
Mas a Avenida é grande e tem espaço para todo mundo. Há pessoas empenhadas em resgatar a tradição, como a atriz Tatyanne Meyer. Ela é diretora criativa da recém-criada Orquestra da Rua, que já arrebatou um séquito de admiradores com o repertório recheado de clássicos (pense em Ary Barroso, Carmen Miranda e Cartola). Um mergulho que a levou até a Dimona, onde lançou, este ano, uma coleção-cápsula de fantasias clássicas, como charmosos banhistas vintage e um mágico. “Está todo mundo olhando tanto para frente que decidimos olhar para trás e resgatar o que andava esquecido”, ela diz.