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segunda-feira, janeiro 26, 2026

Crítica | Quadrinhos dos Anos 20 – Plano Crítico

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Capturar um momento histórico com exatidão enquanto se vive esse momento histórico exige algo mais do que uma conexão afiada com o que está ao redor, exige a capacidade quase sobrenatural de perceber caminhos inevitáveis, de compreender a implementação de mudanças inexoráveis na sociedade e de capturar o acontecimento quase como se captura um inseto em uma jarra para estudá-lo. E traduzir esse momento em arte é ainda um passo acima, elevado, que faz de quem tem a capacidade de estar em “harmonia com o momento” um verdadeiro historiador do presente. André Dahmer, com suas fenomenais tiras Quadrinhos dos Anos 20, publicadas diretamente como uma HQ em formato horizontal, uma espécie de “continuação” de suas tiras Quadrinhos dos Anos 10, compiladas da mesma forma, mas originalmente publicadas nos jornais, é uma dessas pessoas capazes de fazer do momento atual sua caixinha de areia.

Nas mais de 200 tiras que povoam a publicação, o destaque fica por conta de uma figura sem nome com roupa anti-contaminação laranja e amarela que é a encarnação antropomórfica do onipresente, onisciente e irritantemente intrusivo algoritmo, aquela “entidade difusa” que, hoje em dia, nos famigerados anos 20 do título, está presente em cada segundo de nossas vidas, basicamente dizendo o que nós devemos ver, fazer e consumir durante as horas insanas que gastamos passeando nas insidiosas redes sociais que “moram” nos chamados smartphones e outros aparelhos semelhantes. As tiras de Dahmer são hilárias, pois reconhecemos cada uma das situações, vivemos cada momento que ele descreve ali diariamente. Essas mesmas tiras são assustadoras também, talvez mais do que hilárias até, pois o que Dahmer faz é colocar um espelho na nossa frente e mostrar por A+B como nós somos controlados, manipulados e dirigidos por números, por equações que nos impedem de desgrudar da telinha iluminada, que criam demandas irresistíveis, que elevam nossa ansiedade a níveis estratosféricos, que substituem o contato humano e que reduzem drasticamente nossa capacidade de concentração, ou seja, que nos zumbificam uma “passada de dedo na tela por vez” enquanto acabam por completo com qualquer resquício de privacidade online.

A cada tira, rimos por reconhecer o que lemos e choramos exatamente pela mesma razão. O algoritmo antropomorfizado de Dahmer é um dos maiores vilões já criados nos quadrinhos, uma entidade vil, sacana, insistente, importunadora, indiscreta que, como um vampiro, nós mesmos convidamos para entrar em nossa casa e em nossa vida e, sob diversos aspectos, adoramos tê-lo “ao nosso lado” mesmo quando reconhecemos tudo o que ela é e é capaz de fazer, exatamente como qualquer substância viciante, do tabaco à cocaína, passando pelo álcool e pela maconha. Queremos as benesses e esquecemos do mal que fazemos a nós mesmos, isso quando conseguimos reconhecer esse mal, mas Dahmer faz questão, usando sua verve cômica e sua perspicácia, de nos lembrar dessa praga e, muito sinceramente, nós só temos a agradecer ao cartunista.

Ironicamente, porém, o algoritmo nem sempre é onipresente em Quadrinhos dos Anos 20. A HQ é dividida em capítulos, por assim dizer, com as várias primeiras páginas de cada um deles sendo protagonizada por esse assustador sujeito metido e insolente, mas, depois, seguem tiras sem o algoritmo, ainda que quase todas tematizadas pelo mesmo assunto geral – nossa vida escravizada pelas redes sociais – que não são sempre tão boas quanto as com o algoritmos fisicamente materializado. Essa ruptura causa estranheza na primeira vez, mas, depois, tudo acaba ficando mais harmônico e até interessante por justamente criar uma certa variedade visual que nos permite, pelo menos por alguns breves momentos, esquecer quem é que está nos espiando por sobre o muro digital cada vez mais transparente que, não demora, deixará de existir por completo.

Quadrinhos dos Anos 20 é uma leitura rápida e engraçada, mas sobretudo apavorante por manifestar o cotidiano online com tanta perspicácia e verossimilhança que é impossível não nos vermos como as “vítimas” do algoritmo antropomorfizado em cada uma das tiras. É como se André Dahmer estivesse rindo de nossa desgraça e incluindo-se nela ao mesmo tempo, a perfeita captura e manifestação da história acontecendo agora. É aquilo: se estamos veementemente caminhando para o fundo do poço, é melhor rir do que chorar nessa jornada. Ou rir E chorar…

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Um pensamento sombrio final: só poderá haver Quadrinhos dos Ano 30 se ele obrigatoriamente for escrito e desenhado por I.A., não é mesmo?

Quadrinhos dos Anos 20 (Brasil, 2023)
Roteiro e arte: André Dahmer
Editora: Quadrinhos na Cia (Companhia das Letras)
Data de publicação: 09 de novembro de 2023
Páginas: 240



[Fonte Original]

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