O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve nesta quarta-feira a taxa básica de juros em 15% ao ano. A decisão foi unânime. Foi a quinta reunião seguida em que o colegiado do Banco Central (BC) manteve a Selic nesse patamar. Em comunicado após a decisão, o Comitê informou que “antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, [que ocorre nos dias 17 e 18 de março], porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
“O Comitê avalia que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidente, a estratégia envolve calibração do nível de juros”, diz o comunicado.
O BC afirmou que o ambiente atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária e reiterou que manterá uma restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. Acrescentou ainda que o compromisso com a meta requer serenidade na definição do ritmo e da magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que tragam maior confiança no cumprimento do objetivo no horizonte relevante.
A autoridade monetária pontuou ainda que o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. “O Comitê segue acompanhando os impactos do contexto geopolítico na inflação brasileira, e como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza”, escreveu o colegiado em seu comunicado.
Em relação ao balanço de riscos, não houve alteração em comparação com a decisão de dezembro. O BC afirmou que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual.
Do lado altista, o Copom destacou uma desancoragem das expectativas por período mais prolongado, maior resiliência da inflação de serviços diante de um hiato do produto mais positivo e a combinação de políticas econômicas, internas e externas, com impacto inflacionário superior ao esperado, inclusive por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada.
Entre os riscos baixistas, o BC citou uma desaceleração mais acentuada da atividade doméstica, uma desaceleração mais forte da economia global em meio ao choque de comércio e à incerteza, além de eventual queda nos preços das commodities, com efeitos desinflacionários.
No cenário doméstico, o Banco Central avaliou que o conjunto de indicadores segue, conforme esperado, em trajetória de moderação do crescimento da atividade, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. “Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”, escreveu.
Já no cenário externo, o BC ponderou que a incerteza persiste diante da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Segundo a autoridade monetária, esse contexto “exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”.
O Copom projeta a inflação em 3,4% ao fim do ano e de 3,2% no segundo trimestre de 2027, no chamado “horizonte relevante” da política monetária. No comunicado anterior, a projeção para o IPCA em 2026 estava em 3,5%.
A projeção para preços livres ao fim deste ano passou de 3,6% do comunicado anterior para 3,5%. No horizonte relevante, a estimativa caiu de 3,2% para 3,1%. Já a projeção para preços administrados caiu de 3,2% para 3% ao fim de 2026 e de 3,4% para 3,3% no segundo trimestre de 2027.
A manutenção nesta quarta-feira era amplamente aguardada. Pesquisa conduzida pelo Valor e publicada na segunda-feira (26) ouviu 120 instituições financeiras, gestoras de recursos e consultorias, das quais 112 que esperavam a manutenção dos juros em 15% na reunião desta quarta-feira. Apenas oito esperavam redução na taxa básica, sendo que cinco calculavam redução de 0,25 ponto percentual e três calculavam redução de 0,5 ponto percentual. Nesta terça-feira (27), no entanto, o mercado de opções digitais elevou de 15% para 23% a probabilidade de um corte de 0,25 ponto. Já as estimativas de manutenção e de corte de 0,5 ponto estavam, respectivamente, em 76% e 1%.
Leia a íntegra da decisão do BC
“O ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,0% e 3,8%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,2 % no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando os impactos do contexto geopolítico na inflação brasileira, e como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho.
O Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 15,00% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. O Comitê avalia que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros. O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.“