O entusiamo com as ações brasileiras sustentou o rali do Ibovespa nesta quarta-feira. O principal índice acionário local superou, pela primeira vez, os 185 mil pontos, e encerrou em alta de 1,52%, aos 184.691 pontos, após ter atingido os 181.921 pontos na mínima do dia. A rotação global de portfólios em direção aos mercados emergentes continuou, mesmo com a manutenção das taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed), enquanto os investidores aguardam a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Além do cenário externo, fontes ouvidas pelo Valor afirmam que cresceu entre gestores a perspectiva de que a Selic possa ser reduzida na reunião desta quarta-feira.
As altas expressivas das ações ligadas a commodities e do setor bancário garantiram um giro financeiro de R$ 25,1 bilhões no índice e de R$ 34,1 bilhões na B3. Em Nova York, o S&P 500 encerrou estável (-0,01%)%, assim como o Dow Jones (+0,01%), enquanto o Nasdaq subiu 0,17%.
O apetite dos investidores por mercados emergentes, especialmente pelo Brasil, está melhorando, e com interesse particular em setores domésticos sensíveis à taxa de juros, diz o Santander em relatório assinado pela chefe de pesquisa e estratégia de ações, Aline Cardoso.
Em conversas com investidores na Europa, Cardoso aponta que vários gestores destacaram que esta é a primeira vez em quase uma década que observam uma demanda tão intensa por fundos dedicados a mercados emergentes. Além disso, chama atenção que os fluxos não se restringem a investidores tradicionais: clientes globais, com pouca ou nenhuma exposição prévia a esses mercados, também começaram a alocar recursos.
“O Brasil segue como um dos principais beneficiários desse renovado interesse, embora o posicionamento esteja se tornando mais cuidadoso após a recente valorização”, escreve a estrategista.
Na sessão, as ações ordinárias da Vale subiram 2,44%, enquanto as ações preferenciais e ordinárias da Petrobras avançaram 3,35% e 2,90%, respectivamente. No setor bancário, Itaú PN ganhou 2,25%, BB ON avançou 2,88%, Bradesco PN teve alta de 1,35% e as units do BTG Pactual avançaram 0,84%.
Entre as maiores altas, Raízen PN disparou 20%, pelo segundo dia seguido, em meio a rumores de aumento de capital para abater suas dívidas. Na sequência, C&A ON avançou 8,60%, diante da queda dos juros futuros.
A visão otimista com o Ibovespa se reflete na sequência inédita de entradas de recursos estrangeiros na B3. Com 15 sessões consecutivas de aportes em ações já listadas, o volume da categoria em janeiro chega a R$ 20,2 bilhões, o equivalente 79,5% dos R$ 25,4 bilhões aportados pela categoria ao longo de 2025.
Embora o índice tenha renovado recordes ainda na sessão desta quarta-feira, existe a percepção de que algumas teses estão se tornando “congestionadas”, diz Cardoso. A esse sentimento, soma-se a incerteza relacionada às eleições e as dúvidas persistentes quanto ao momento do início do ciclo de afrouxamento monetário, que levam os investidores a serem mais seletivos em termos de timing e posicionamento, em vez de aumentar agressivamente a exposição nos níveis atuais.
“Como resultado, diversos gestores preferem aguardar o primeiro corte efetivo — e não apenas a sinalização — antes de aumentar de forma relevante a exposição”, escreve a profissional.
Embora a maior parte do mercado espera que o Copom mantenha a Selic em 15% na reunião desta quarta-feira, cresceu a perspectiva de que possa haver uma redução de 0,25 ponto, segundo fontes ouvidas pelo Valor. Além desses agentes, alguns pesos pesados, como o BTG Pactual e o Bank of America (BofA), que acreditam haver espaço para uma redução de 0,25 e 0,50 ponto, respectivamente.
Os recordes sucessivos no índice, porém, têm levado a algumas distorções no mercado, afirma o CEO da Alpha Key, Christian Keleti.
“Como o gringo está ‘passando o trem’ em cima da gente, nós vamos perder a referência de ‘valuation’. O Itaú está negociando a cerca de 10 vezes [preço sobre lucro], com um ROE [Retorno sobre Patrimônio Líquido] de 20%. É ótimo, mas está perto de três vezes o valor patrimonial”, disse o executivo em evento do UBS BB em São Paulo, nesta quarta-feira.