Em meio a um cenário de crescente turbulência no comércio internacional, marcado por tarifaços, tensões geopolíticas e movimentos de isolamento econômico em nome da autossuficiência, o papel do comércio internacional e seus impactos sobre os sistemas agrícolas globais tornam-se ainda mais centrais para o debate sobre o futuro do setor.
O comércio internacional exerce função estrutural nos sistemas agroalimentares ao redistribuir alimentos entre regiões com excedentes e regiões com déficit. Esse mecanismo contribui para a segurança alimentar, a estabilidade dos preços e o acesso a dietas mais diversificadas. Em 2023, o valor do comércio global de alimentos e produtos agrícolas alcançou US$ 1,9 trilhão.
Em termos calóricos, o volume de alimentos comercializado entre países mais do que dobrou nos últimos 20 anos. Como resultado, países têm acesso, em média, a 225 produtos alimentícios, frente a cerca de 120 produzidos domesticamente.
O Brasil ocupa posição de destaque no comércio agrícola mundial e se consolida como o maior exportador líquido de produtos agrícolas. Na última década, as exportações agrícolas brasileiras cresceram de forma expressiva, passando de US$ 74 bilhões em 2015 para US$ 169 bilhões em 2025.
Nesse mesmo ano, as exportações líquidas do setor alcançaram US$ 149 bilhões. Em contraste, os Estados Unidos registraram um déficit estimado em cerca de US$ 40 bilhões em suas exportações líquidas do agronegócio, reforçando a liderança do Brasil no comércio agrícola global.
Clima e sua influência no comércio internacional
O aquecimento global, mudanças nos padrões de precipitação e eventos climáticos extremos afetam a produtividade agrícola de forma desigual. Algumas regiões podem se beneficiar de estações produtivas mais longas, enquanto outras se tornam menos favoráveis à agricultura.
A capacidade de adaptação varia entre regiões. Nesse contexto, o comércio internacional tende a se intensificar entre exportadores líquidos e importadores líquidos, à medida que produção e consumo se tornam cada vez mais geograficamente dissociados, com base nas vantagens comparativas das nações.
Além disso, ao promover a alocação eficiente da produção, transferindo alimentos de regiões mais aptas para áreas menos favorecidas, o comércio internacional, quando baseado em regras claras e padrões ambientais estabelecidos por acordos multilaterais, contribui para o uso sustentável da terra, da água e de outros recursos naturais.
Esse processo reduz a pressão sobre ecossistemas locais e pode diminuir o impacto ambiental do setor agrícola mundial.
Olhar para o futuro
Olhando para o futuro, políticas que promovam mercados globais de alimentos abertos e eficientes, aliadas a regulações nacionais e padrões internacionais de sustentabilidade, serão essenciais.
Alinhar o comércio internacional aos objetivos ambientais e nutricionais exigirá compreender como o comércio pode reforçar a resiliência dos sistemas alimentares locais e, ao mesmo tempo, contribuir para uma agricultura mais sustentável e para a segurança alimentar global, a partir das vantagens comparativas de cada país.
*Luiza Fatorelli é graduada em International Business, Finance and Economics pela University of Manchester e mestre em Agronegócio pela FGV, Embrapa e USP. Atua há 10 anos à frente das operações da Fazenda SJ Margarida, em Bela Vista (MS).
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