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domingo, fevereiro 1, 2026

VEREM: token de esmeraldas liga alerta no mercado cripto brasileiro

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Nos últimos dias, uma criptomoeda criada por brasileiros tem chamado atenção por se vender como um projeto diferente, focado em esmeraldas, e também por um movimento assustador de alta e queda repentina. A VEREM (Verified Emeralds) tem entrado no radar de muitas pessoas, mas tão curiosa quanto a proposta do projeto são os sinais de alerta que ela emite.

A VEREM é um token que se apresenta como RWA (ativo do mundo real) e diz ter lastro em esmeraldas, ou seja, seu preço estaria atrelado à mineração dessas pedras, consideradas caras e escassas. O projeto posta ativamente nas redes sociais, com direito a vídeos de evento, linguagem “premium” e promessa de “solidez”. Só que, quando o mercado começou a olhar com lupa, as dúvidas passaram a falar mais alto do que o marketing.

O grande evento recente do ativo foi uma disparada no seu preço, saindo de US$ 177 para um pico de US$ 397,66 em 12 horas no dia 22 de janeiro. Tudo isso para dois dias depois desabar para US$ 46,47. Atualmente o token é negociado em torno de US$ 56, uma queda de 85% da máxima do dia 22.

Tudo isso tem aumentado a atenção para a VEREM, que se vende como um projeto nascido em maio de 2025, mas que só agora entrou no radar das pessoas. E uma delas é o analista Vinícius Terranova, que disse que foi exatamente no dia 22 que conheceu o projeto, quando colegas comentaram dele pedindo para que fizesse uma análise.

Ao analisar a documentação, Terranova já se surpreendeu com o básico. “Cadê a auditoria? (…) Deveria estar na documentação, mas na documentação não tem nada”, afirmou ele ao Portal do Bitcoin.

As promessas da VEREM

A VEREM se apresenta como um projeto de RWA, ou seja, a promessa de pegar um ativo do mundo real (no caso, esmeraldas) e “trazer para a blockchain” na forma de um token. Traduzindo: a empresa sugere que o token teria um lastro físico, e que isso daria ao ativo uma camada extra de “segurança” ou “valor”.

Para essa história fazer sentido, o funcionamento esperado é mais ou menos assim: o emissor precisa comprovar que as esmeraldas existem, estão identificadas, catalogadas e guardadas sob custódia; em seguida, cria um mecanismo de emissão do token que respeite uma regra clara de que “X tokens são emitidos para Y quantidade de esmeraldas em estoque”, evitando emissão acima do lastro.

A partir daí, entram as peças mais sensíveis: auditoria independente do inventário, transparência sobre custódia, e algum tipo de mecanismo que explique como o token se relaciona com o valor do ativo físico e, se houver, como seria um resgate (trocar token por esmeralda, ou por dinheiro, ou por um direito contratual).

O problema é que, ao tentar checar esses dados, Terranova diz que o projeto se apoia mais em narrativa do que em evidência rastreável: “Eles estão falando que tem certificado, que tem auditoria. (…) Cadê a auditoria? A auditoria que eu cobro não é de contrato inteligente… a auditoria que eu quero é do RWA”. Nada disso foi apresentado pelo projeto até então.

Sinais vermelhos

A lista de sinais de alerta começa pelo mais básico: quem está por trás do projeto. Uma rápida visita ao site oficial da VEREM mostra três nomes na liderança — Francisco Castro (CEO), Marcel Perez (CFO) e Mayro Colnago (diretor de plataforma). No entanto, não há informações sobre experiências profissionais anteriores, formação acadêmica ou histórico de atuação no mercado. Em vez disso, o site se limita a descrições genéricas que os apresentam como “especialistas”, sem qualquer comprovação.

A segunda parte: parceiros. Terranova cita que o projeto diz ser registrado no Abu Dhabi Global Market (ADGM), mas não foi possível encontrar nenhum registro. A VEREM ainda fala em parceiros como Alberi Holding e Domus Giulia, que, em tese, garantiriam “que os ativos lastreados em esmeraldas sejam minerados, certificados, tokenizados e governados com segurança”, segundo o site da empresa. No entanto, igualmente não foram localizados registros ou informações verificáveis sobre essas empresas.

Olhando para a parte técnica, Terranova destaca que o projeto fala em “governança descentralizada”, mas a realidade é que o vesting (liberação de tokens) seria manual, e isso, na prática, abre espaço para decisões opacas: “Como é que você faz uma governança descentralizada se 100% do seu vesting é manual?”. Ou seja, os donos teriam todo o poder sob o projeto.

Outros pontos críticos envolvem a liquidez e possíveis indícios de fabricação artificial de volume. Segundo o analista, uma olhada rápida nas ordens na plataforma MEXC (uma das poucas exchanges que listaram o token), fica claro o uso de “microtransações para fazer volume fake”. “Eles compram e vendem com ordens muito pequenas e todas no mesmo segundo”, explica. Com isso, é possível manipular o preço fazendo ele subir sem ninguém realmente comprar.

Durante uma live em suas redes sociais, Terranova enviou uma mensagem para a equipe da VEREM em um grupo de Telegram levantando diversos pontos, se apresentando como uma pessoa interessada em comprar o token. Na mensagem, ele perguntava aos líderes do projeto sobre as auditorias, sobre os certificados das esmeraldas, sobre os parceiros e a fundação em si.

Exatamente um minuto depois do envio das perguntas, o analista foi banido do grupo, deixando mais um sinal de que as pessoas por trás do projeto não querem se explicar e não aceitam questionamentos.

O Portal do Bitcoin tentou contactar a VEREM, mas não conseguiu. O e-mail fornecido no site da empresa não existe, nas redes sociais não é possível enviar mensagem e outras formas de contato não tiveram retorno. O espaço está aberto caso a empresa queira se posicionar.

Eventos e marketing

Nas redes sociais, a VEREM tenta construir credibilidade com eventos e estética de lançamento. Há vídeos e fotos de festas em São Paulo e em Dubai, um evento em uma corrida da Porsche Cup em Portugal em que a empresa patrocina o carro do piloto Flávio Sampaio (atualmente não há qualquer menção a esse patrocínio nas redes e página oficial do piloto).

Porém, o que é estranho é que não existe nenhuma pessoa conhecida em nenhuma das fotos ou vídeos. Jornalistas não foram chamados para nenhum evento, não há influenciadores e nem executivos do meio cripto. No Instagram, a VEREM conta com mais de 46 mil seguidores, mas nenhum deles é conhecido no mercado de ativos digitais.

Apesar de quase um ano desde os eventos de lançamento do token, não existe nenhum documento no site oficial do projeto que realmente comprove qualquer coisa sobre ele, nem auditorias, provas de reservas, registros em qualquer plataforma ou dos ativos.

Reação da VEREM

No dia 22, não só o preço do token disparou e Terranova foi banido do Telegram durante uma live, como o youtuber brasileiro Augusto Backes também chamou atenção ao falar sobre a VEREM em um vídeo, chegando a mostrar que teria US$ 2 milhões investidos no projeto antes da queda de 80% do preço.

Em participação no podcast Irmãos Dias, Backes alegou que tem o costume de usar uma parte de sua carteira para negociar ações e criptomoedas pequenas e que poderiam entregar retornos rápidos, apesar do alto risco. Segundo ele, os trades com VEREM estariam nesse caso e ele teria tido “sorte” em comprar a US$ 10 e ele disparar para quase US$ 400.

O youtuber alega que não sabe nada sobre o projeto e comprou apenas por conta dessa estratégia, apesar de pessoas nas redes sociais questionarem isso, principalmente pelo fato dele ter mostrado um saldo de mais de US$ 2 milhões no token.

Diante de tanto barulho e questionamentos, o CEO da VEREM, Francisco Castro, publicou um vídeo no Instagram do projeto em que ameaça tomar medidas jurídicas contra as pessoas que estavam criticando a empresa, além de mostrar um documento da empresa de cofres Sekuro.

Castro alega que o documento comprova a existência das esmeraldas e seria uma resposta aos críticos. Porém, o texto do documento mostra que a única coisa que ele comprova é que a VEREM tem algum ativo guardado na Sekuro. O documento não comprova que são esmeraldas (ele diz que a VEREM afirma que são esmeraldas). Também não comprova valores ou quantidade.

O executivo ainda justifica que o projeto não publicou o documento antes porque estava sob análise do jurídico e afirma também que as auditorias externas não estão disponíveis porque foi feita uma troca de rede: o lançamento da VEREM foi feito na rede Ton e agora teria sido alterado para a BNB, e por isso está sendo feita uma nova auditoria. De qualquer forma, nem mesmo a antiga auditoria está disponível para ser analisada pelos possíveis investidores.

A lição que fica

Projetos de RWA podem, sim, ser legítimos, mas quando o discurso é “lastro” e “garantias”, a exigência de transparência precisa ser maior, não menor. No caso da VEREM, o pacote de sinais (queda rápida e profunda no preço, promessas difíceis de verificar, ausência de auditoria do ativo do mundo real e uma postura mais combativa do que esclarecedora diante das críticas) empurra o token para a prateleira do risco extremo.

Para quem olha esse tipo de promessa com seriedade, o caminho continua sendo o mesmo: cobrar provas independentes de que o lastro existe e está onde dizem que está, exigir documentos verificáveis, auditorias recorrentes (tanto do “mundo real” quanto da parte técnica), além de clareza sobre governança, responsáveis e enquadramento regulatório.

Em RWA, não basta “ter blockchain”: é o que está fora dela que determina se existe valor real ou apenas narrativa. Sem esse conjunto de garantias, o “RWA” pode se reduzir a um rótulo bem embalado — e quem compra acaba arcando sozinho com todo o risco, especialmente em mercados de baixa liquidez e alta assimetria de informação.

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[Fonte Original]

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