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- Author, Lucy Williamson
- Role, Correspondente da BBC News no Oriente Médio
- Reporting from, Tel Aviv
Tempo de leitura: 8 min
Em meio ao ruído das especulações globais sobre o aumento da presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio, os líderes de Israel mantiveram um silêncio incomum.
Além de alguns comentários em apoio aos protestos antigovernamentais no Irã neste mês, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pouco se manifestou publicamente sobre o impasse entre seu maior aliado e seu maior inimigo. Seu governo também permaneceu em silêncio.
“Isso demonstra a importância que Netanyahu atribui a este momento”, afirma Danny Citrinowicz, que trabalhou por 25 anos na inteligência israelense e atualmente é pesquisador sênior sobre o Irã no Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel.
“Para Netanyahu, encontrar-se nesta situação, com tantas forças americanas no Golfo e tão perto de um potencial ataque de Trump ao Irã, é uma oportunidade de ouro que ele não pode perder.”
Asaf Cohen, ex-diretor adjunto da Unidade de Inteligência de Sinais de Israel, afirma que o silêncio de Israel também faz parte de uma estratégia.
“Os líderes (israelenses) acreditam que desta vez devemos deixar os americanos assumirem a liderança, já que são mais fortes, têm maiores capacidades e gozam de muito mais legitimidade no mundo.”
Benjamin Netanyahu há muito considera o Irã a principal ameaça a Israel e a maior fonte de instabilidade no Oriente Médio. Seu silêncio público não significa que ele não esteja mantendo conversas privadas com seu principal aliado americano.
Esta semana, o chefe da inteligência militar israelense, Shlomi Binder, reuniu-se com agências de inteligência americanas em Washington. Segundo a mídia israelense, a discussão se concentrou em possíveis alvos no Irã.

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Citrinowicz acredita que Netanyahu está pressionando os Estados Unidos em privado para que realizem ataques maximalistas com o objetivo de provocar uma mudança de regime no Irã, e que, quando Netanyahu teria instado Trump a recuar no início deste mês, foi porque considerou o ataque planejado pelos EUA “muito pequeno”.
Netanyahu já havia instado os iranianos a “enfrentarem” seu regime em uma entrevista à Fox News no ano passado.
Publicamente, ele tem alternado entre ameaças militares e ofertas de retomada das negociações.
Neste domingo (1/2), Trump afirmou que o Irã está em “discussões sérias” com os EUA. O presidente americano disse esperar que as negociações levem a algo “aceitável”.
O principal responsável pela segurança do Irã, Ali Larijani, também afirmou que um plano para as negociações está sendo elaborado.
Embora muitos aliados dos EUA alertem que uma tentativa de derrubar a liderança iraniana acarretaria em enormes riscos para a região, muitos em Israel veem potenciais benefícios em termos de segurança.
Com a mudança de regime em Teerã, Israel espera acabar com a ameaça dos mísseis balísticos iranianos e com a possibilidade de o Irã um dia adquirir armas nucleares.
Isso também enfraqueceria ainda mais as milícias aliadas do Irã na região, incluindo o Hezbollah, que ainda possui até 25 mil mísseis e foguetes do outro lado da fronteira, no Líbano, segundo o instituto de pesquisa israelense Alma.
Por outro lado, alguns parlamentares israelenses acreditam que um ataque limitado, ou mesmo um novo acordo com o Irã, poderia representar um risco maior para a segurança de Israel, permitindo que o regime permanecesse no poder.
“Quando se lida com o mal absoluto, não se age de forma limitada”, afirma Moshe Tur-Paz, membro do partido de oposição Yesh Atid e da Comissão de Defesa do Parlamento israelense.
“Há um consenso de que Israel deve agir com muito mais firmeza, assim como o mundo ocidental. Quando se trata de nossos piores inimigos, como o Irã, não há grandes diferenças. Todos entendemos a ameaça”, diz.
Muitos acreditam que outra rodada de confrontos que deixaria o regime ileso não valeria o preço de uma possível retaliação iraniana.
Durante a guerra de 12 dias do ano passado, quando Israel e os Estados Unidos atacaram as instalações nucleares e de mísseis balísticos iranianas, o Irã respondeu lançando centenas desses mísseis contra cidades israelenses.
Alguns conseguiram burlar as renomadas defesas aéreas de Israel, atingindo prédios residenciais em Tel Aviv e matando pelo menos 28 pessoas.

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As forças armadas israelenses estavam preparadas para um número muito maior de baixas, mas a crescente sensação de vulnerabilidade de Teerã pode agora significar uma resposta mais intensa.
Analistas sugerem que o Irã aprendeu com esse conflito, adaptando suas táticas à medida que a guerra progredia. Seis meses depois, o Irã está reconstruindo seus estoques de mísseis.
Esta semana, um importante assessor do líder supremo do Irã alertou nas redes sociais que Tel Aviv sofreria uma resposta “imediata e sem precedentes” em caso de qualquer ataque dos EUA.
“Netanyahu teme que Israel sofra novamente a dor de um ataque sem uma mudança de regime”, afirma Citrinowicz. “Ele concluiu que, para interromper a produção de mísseis, é necessária uma mudança de regime, mas essa mudança só pode acontecer com a participação dos Estados Unidos.”
E este momento de intensa vulnerabilidade para o regime iraniano — com suas defesas militares enfraquecidas após a guerra de 12 dias, seus aliados regionais fragilizados e protestos generalizados contra seu governo eclodindo no país — também representa uma oportunidade, diz Cohen.
“O Irã está agora em seu ponto mais frágil; é uma oportunidade que talvez nunca mais se repita”, diz Cohen. “Há muitas pessoas que acreditam que este é o momento, agora ou nunca.”
Em Tel Aviv, moradores que ainda vivem em meio aos destroços dos ataques com mísseis iranianos de junho passado especulam sobre um novo conflito.
“Espero que (nossos líderes) não deixem essa oportunidade passar”, diz Neria, um jovem de pouco mais de vinte anos.
“Não sei se será por meio de um ataque ou de outra forma, mas certamente devemos aproveitar a oportunidade para uma mudança de regime. Não será a primeira vez que teremos que lidar com bombas; não é agradável, mas se a longo prazo isso nos fizer sentir mais seguros aqui, teremos que passar por isso.”

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Apoio em Israel a ações contra o Irã
A jovem Shani diz ter sentimentos contraditórios.
“Sei que o povo iraniano, ou pelo menos grande parte dele, quer que os Estados Unidos os ajudem. Só espero que todos estejam seguros”, diz ela. “Os políticos precisam pensar no povo. Ações têm consequências.”
Pesquisas israelenses mostram repetidamente que uma grande maioria dos residentes judeus apoia uma ação militar contra o Irã, mesmo após a guerra de 12 dias do ano passado.
Mas os riscos de mudança de regime permanecem. Sem rachaduras aparentes na aliança militar-clerical em torno do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e com um movimento de oposição fragmentado no país, não está claro quem assumiria o controle do Irã se o governo caísse.
Um sucessor mais jovem da mesma elite governante não seria necessariamente mais flexível em sua resposta a Israel, e o caos de uma guerra civil seria profundamente desestabilizador não apenas para os iranianos, mas para toda a região.
Além disso, vários especialistas em defesa apontaram que os regimes geralmente não são derrubados apenas por ataques aéreos.
O primeiro-ministro israelense, Netanyahu, que enfrenta eleições este ano, tem se esforçado desde os ataques do Hamas para tentar restaurar sua imagem abalada de “Sr. Segurança” de Israel. Uma mudança de regime no Irã — ou a remoção de Khamenei — seria uma conquista política, mas também um risco.
“É uma aposta arriscada, mas calculada”, diz Citrinowicz.
“Netanyahu não se importa com o que acontecerá no dia seguinte à morte de Khamenei. Ele quer demonstrar, juntamente com Trump, que destruiu o regime iraniano. É um risco que ele está disposto a correr se souber que os americanos irão até o fim. O problema é Trump.”

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As “linhas rosas” de Trump e Teerã
Tanto os Estados Unidos quanto o Irã expressaram sua disposição para negociar, mas Trump condicionou as conversas ao fim do programa de enriquecimento de urânio do Irã, à cessação do apoio a grupos aliados na região e à limitação de seus mísseis balísticos — todas exigências consideradas linhas vermelhas pelo regime.
Os líderes israelenses se opõem firmemente a um acordo, e os analistas israelenses estão divididos sobre se um acordo é sequer possível.
Segundo Cohen, tanto Washington quanto Teerã querem um acordo, mas se ele não for alcançado em breve, os Estados Unidos atacarão.
“O Líder Supremo do Irã e Trump têm algo em comum. Não existem linhas vermelhas reais. Durante as negociações de 2013, costumávamos chamá-las de ‘linhas rosas’ porque estavam sempre mudando”, diz Cohen.
“Sempre falamos do Irã como se fosse maligno, mas eles são muito racionais”, acrescenta. “Acho que eles entendem que, para mudar a situação, precisam fazer algo que nunca foi feito antes.”
“Sim, eles têm capacidade para demonstrar disposição para negociar — não são a Coreia do Norte —, mas este regime tem suas linhas vermelhas”, rebate Citrinowicz, alertando que uma guerra seria difícil de conter “porque os iranianos a veriam como uma guerra pela sua sobrevivência”.
Há indícios de que Trump pode estar limitando suas condições para as negociações e se concentrando no programa nuclear iraniano. Se as exigências forem reduzidas o suficiente para que Teerã inicie as conversas, grande parte da região respirará aliviada, e muitos em Israel prenderão a respiração.
Cohen afirma que existem maneiras de chegar a um consenso sobre questões como o enriquecimento de urânio, que poderiam impedir temporariamente qualquer nova atividade na prática, permitindo ao Irã evitar uma proibição total.
“A diferença essencial entre nós e os iranianos é que nós gostamos de resultados rápidos, e os iranianos têm muita paciência”, diz ele. “Eles dizem: ‘Estamos aqui há 2.000 anos; se precisarmos de mais 30 anos para obter uma arma nuclear, que assim seja'”.