– Você vai ajudar todo mundo?
– Não. Mas eu vou tentar.
(Diálogo entre Alice e Superman.)
Independente se você gosta ou não do que Tom King escreve, há que se reconhecer que chega a ser assustador constatar que Superman: Para o Alto e Avante, minissérie em doze partes que originalmente fez parte de diversas edições de Superman Giant, publicação em formato de antologia do Azulão, foi escrita enquanto ele dava conta da maxissérie Senhor Milagre, com a mensal do Batman dele caminhando simultaneamente, além de outros vários one-shots para a editora. E isso praticamente apenas quatro anos do momento em que ele oficialmente estreou nos quadrinhos, com Tomado pelos Demônios, do recém-revivido selo Vertigo. É como se ele, de repente, tivesse tentado abraçar toda a DC Comics e, por incrível que pareça, pelo menos para mim, sendo bem-sucedido em sua ambição.
Tudo bem que Superman: Para o Alto e Avante não tem a ousadia e a complexidade de Senhor Milagre ou de suas maxisséries anteriores, Visão e O Xerife da Babilônia, mas a HQ certamente é uma das melhores histórias modernas do Superman, herói dos heróis que, apesar de ter pavimentado o caminho para os super-heróis modernos, ainda carece de grandes e inesquecíveis abordagens verdadeiramente solo, com a grande maioria dos roteiristas focando em pancadaria e deixando o que ele representa de lado, afirmação que sei ser polêmica, mas é o que sempre senti lendo praticamente tudo do personagem desde o começo dos anos 80. Aliás, se pararmos para pensar, as HQs verdadeiramente memoráveis do Azulão são, em geral, focadas justamente no uso da simbologia do personagem, como o representante máximo dos valores da raça humana mesmo sendo um alienígena que adotou nosso planeta e nosso povo como seus. Esses são os casos de Superman: Para o Homem que Tem Tudo, Grandes Astros – Superman e, bem recentemente, Superman: A Era Espacial e Superman: O Espectro Kryptonita, dentre outros, isso sem entrar na seara do audiovisual, já que não é o caso aqui. O que Tom King faz com sua minissérie é seguir nessa toada de homenagem ao personagem, de resumo de tudo o que ele representa, algo que ele faz a partir do misterioso sequestro de uma garotinha de Metrópolis que é levada para o espaço e que exige que o Superman deixe a Terra para investigar seu paradeiro.
Há nessa premissa, sem dúvida alguma, ecos do que o próprio King faria posteriormente na sensacional minissérie Supergirl: Mulher do Amanhã. Mais do que apenas ecos até, já que a estrutura de “enrascada espacial da semana” em que os poderes do protagonista são de certa forma “reduzidos” a níveis mais manobráveis, é algo que o roteirista usaria diretamente em sua abordagem vencedora da prima de Kal-El que é substancialmente mais rica do que o que vemos em Para o Alto e Avante. No entanto, com isso eu não quero de forma alguma afirmar que sua forma de escrever o Azulão é simplória. Muito ao contrário, King captura muito bem a essência do personagem como um símbolo de esperança, de bondade e de pureza, um ser elevado, diria até mesmo impossível e utópico, mas que é o que, lá no fundo, faz dele o que ele realmente é. Superman desenvolveu-se para muito além de seus poderes e, apesar de muita gente ainda preferir pancadarias titânicas do que salvamento de gatinhos em galhos de árvores, falta a compreensão de que ele é as duas coisas, mas que ele, se pudesse, resolveria tudo com a mesma delicadeza que emprega para retirar pequenos felinos domésticos em situação arbórea.

Portanto, sua investigação intergaláctica provocada pelo Batman sobre o que aconteceu com a menina e que começa de verdade em Rann e vai até os confins do universo é, apenas e tão somente, um gatilho narrativo para King usar de sua criatividade para repassar a vida e os valores do Superman a limpo, reiterando aquilo que sabemos, mas que precisa ser reiterado de tempos em tempos para que ninguém perca de vista aquilo que é realmente importante. Cada uma das 12 partes da minissérie (cada duas partes dá o tamanho padrão de uma HQ, daí a história ter sido republicada nos EUA em seis edições) coloca o Superman em situações inusitadas que testam para além dos limites sua determinação, começando com o uso de seu cérebro para analisar o trajeto do raio Zeta que levou a menina da Terra, passando por uma literal luta de boxe em que apenas super força pode ser usada (e nós sabemos que o Superman seguirá essa regra até o fim, custe o que custar), sacrifícios que são feitos por ele por seres que mal o conhecem, mas que captam o que ele representa e assim por diante, culminando com um acordo com ninguém menos do que Darkseid e isso passando por uma parte inteira dedicada a uma ligação espacial para Lois Lane que o faz, durante a espera, imaginar a morte de sua amada das mais variadas maneiras e uma espécie de “transporte” dele para lutar ao lado do Sargeto Rock, na Segunda Guerra Mundial.
Quando ele finalmente encontra a garotinha e começa a viajar de volta com ela para a Terra (não é spoiler algum dizer que ele é bem-sucedido em sua missão, não é mesmo?), o “jogo de perguntas e respostas” dela com ele é de fazer qualquer coração bater mais forte e qualquer um abrir sorrisos atrás de sorrisos, talvez até mesmo derramar algumas lágrimas. Apesar de Andy Kubert ter uma arte talvez abrutalhada demais para a delicadeza que a história exige, por vezes errando feio nas feições do personagens, ele consegue, quando necessário, suavizá-la tremendamente, equilibrando momentos épicos como na luta de boxe e situações doces como eu descrevi neste parágrafo. É um artista que luta para encontrar sua voz em um texto que não foi escrito para seu estilo, um dos raros pareamentos entre King e artista que não me pareceu perfeito.
Superman é um super-herói dificílimo de se escrever em razão do nível de poder que ele tem, mas, quando roteiristas encontram formas espertas de driblar esse “problema” e mergulham na essência clássica do personagem para contar uma história sobre valores caros – e raros – à humanidade, os acertos vêm em boa quantidade. Superman: Para o Alto e Avante é um desses acertos e um que Tom King conseguiu escrever no auge de sua luta para ir para o alto e avante em sua profissão. E, como o Superman, ele conseguiu.
Superman: Para o Alto e Avante (Superman: Up in the Sky – EUA, 2018)
Contendo: Superman: Up in the Sky #1 a 6
Roteiro: Tom King
Arte: Andy Kubert
Arte-final: Sandra Hope
Cores: Brad Anderson
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Brittany Holzherr, Jamie S. Rich
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: 2018 a 2019 (como parte de Superman Giant #3 a 10; 12, 13, 15 e 16); setembro de 2019 a fevereiro de 2020 (Superman: Up in the Sky)
Editora no Brasil: Editora Panini
Data de publicação no Brasil: outubro de 2020 (encadernado)
Páginas: 168