- Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.
Quando eu disse que a primeira temporada de Percy Jackson e os Olimpianos foi quase que uma versão de A Odisseia, só que com o semideus adolescente Percy Jackson como Odisseu, eu não tinha ideia que o segundo ano seria efetivamente “A Odisseia de Percy”, com o Mar de Monstros do título do segundo livro da série de Rick Riordan que serve de base para a história basicamente funcionando como a repetição do périplo de 10 anos do guerreiro que volta de Troia para sua esposa e filho na ilha de Ítaca. E eu não afirmo isso com ironia ou com qualquer conotação negativa, pois não só eu adoro A Odisseia desde que meu pai me contava as aventuras de seu protagonista como histórias para eu dormir, como eu simplesmente adorei as maneiras inteligentes como Riordan, que desenvolve a série junto com Jonathan E. Steinberg, traz talvez a mais famosa história da literatura ocidental à vida em uma ambientação contemporânea.
Mas, antes de navegarmos pelas águas calmas do que eu gostei na nova temporada, deixe-me começar pelo lado tempestuoso que já aparece a partir da introdução completamente aleatória e na base do “porque sim” de Tyson (Daniel Diemer), um jovem ciclope que é revelado (duh!) como meio-irmão de Percy (Walker Scobell) e que fora albergado por sua mãe Sally (Virginia Kull) sem maiores explicações ou contexto. A preguiça reinou na forma como o personagem é apresentado e, se isso não fosse o bastante, continua reinando ao longo de toda a temporada, já que ele é usado repetidas vezes apenas como deus ex machina, ou seja, se tem um problema que precisa ser resolvido no último minuto, Tyson aparece e tem todas as habilidades necessárias para tanto, seja grande força, capacidade de consertar qualquer coisa, super audição, imitação perfeita de vozes, respiração embaixo d’água e assim por diante. Tudo bem que Diemer é simpático o suficiente para fazer o papel funcionar da maneira mais “fofa” possível, mas não ajuda em nada essa maneira canhestra de abordar um personagem tão importante e menos ainda quando, no lugar de uma boa maquiagem para transformar o ator em um ser da mitologia, resolvem chapar um CGI feito demais que me tirou a atenção sempre que ele aparecia (será que o pessoal de efeitos não aprendeu com Krull, que tinha um ciclope sensacional somente com efeitos práticos?).
E Tyson não é o único senão. O começo da temporada é de revirar os olhos no ensaio que faz de repisar a mesma lenga-lenga introdutória da temporada inaugural, com Percy Jackson sendo mal recebido, tendo uma rusga com Annabeth (Leah Sava Jeffries), se bicando com Tântalo (Timothy Simons), diretor interino do Campo e assim por diante. A vantagem é que, talvez justamente por perceber que esse caminho seria mortal para a nova jornada do herói, o roteiro acelera esse começo de forma a quase torná-lo inútil, já lançando os dois amigos e mais Tyson em uma nova missão, que é salvar Grover (Aryan Simhadri) da gruta do ciclope Polifemo (Aleks Paunovic, que fez um papel de ciclope no longa Percy Jackson e o Mar de Monstros, de 2013) e, de quebra, recuperar o Velocino de Ouro, que também está por lá, para curar Thalia (Tamara Smart), a árvore que protege o Campo Meio-Sangue que fora envenenada pelo traidor Luke (Charlie Bushnell) a mando de Cronos (voz de Nick Boraine, já que, como Voldemort, ele também não tem forma física ainda) justamente para incitar esse movimento. Como Percy e sua turma sai em missão ilegalmente, uma missão legitimamente sancionada pelos deuses e liderada e composta apenas por Clarisse (Dior Goodjohn), filha de Ares (Adam Copeland), começa em paralelo, com a hilária ajuda de um navio de guerra tripulado por versões zumbis de guerreiros de várias épocas que morreram em batalhas (inclusive um funcionário da Blockbuster, que perdeu a Guerra do Streaming, em uma sacada genial).
Quando os personagens finalmente botam os pés n’água, a narrativa começa a nadar de braçada, encontrando seu tempo e deixando que o elenco jovem – mas que cresceu pacas, especialmente Scobell – faça o que faz de melhor, que é encantar o espectador com seu carisma, sua química e toda aquela abordagem infantojuvenil que marca a série, ainda que, dessa vez, um tantinho mais sombria. E é aqui que entra o fator “criatividade correndo solta” para transpor A Odisseia para a série, seja o uso de um navio de cruzeiro de luxo para servir de transporte de tropas para Luke e de seus minions, a forma maldosa como Percy sugere fazer a travessia entre Cila e Caribdis e, principalmente, o delicioso capítulo inteiro dedicado à ilha comandada pela feiticeira Circe (Rosemarie DeWitt, lindamente maquiavélica no papel) que, agora, comanda um spa em que semideuses ficam presos sem saber que estão presos, culminando com o confronto com as sereias. Se Homero realmente existiu como “pessoa única” que escreveu o poema épico, tenho certeza de que ele ficaria orgulhoso com a forma como sua história ganhou nova vida coincidentemente no mesmo ano em que ela ganhará tratamento cinematográfico VIP por Christopher Nolan.
Mesmo que seja possível argumentar que o orçamento da série não parece ser infinito, com muita economia em computação gráfica e efeitos práticos, a grande verdade é que isso é positivo justamente para forçar soluções criativas como a do spa ou como a do navio de cruzeiro ou truques básicos como perspectiva força e retroprojeção como nas cenas em que vemos Polifemo em toda sua glória poseidônica ou quando Blackjack voa por não mais do que três segundos. Faz parte do jogo e é alvissareiro notar que a produção da série parece engajada no material e na forma como faz a adaptação para a telinha, aproveitando muito mais o desenvolvimento de personagens, a intensificação das movimentações de peças nesse tabuleiro divino e assim por diante, ao mesmo tempo em que evita o “efeito Harry Potter” que atrasa explicações e revelações até não poder mais. Há mais do passado traumático de Annabeth (sua versão mirim é vivida por Marissa Lior Winans, prima de Jeffries) e do jogo ambíguo das profecias, com o catapultamento de Clarisse, ao que tudo indica, para o primeiro escalão de personagens, o que é sem dúvida uma grande mão na roda. Por outro lado, quer parecer que Tyson, problemático como é, será de uso único ou retornará à série quando mais deus ex machina for necessário, o que só ajuda a mostrar o quanto o personagem foi maltratado.
O segundo ano da série, que já caminha para o terceiro como é revelado nos créditos do último episódio, eleva levemente o nível de uma já divertida série mitológica infantojuvenil, mesmo considerando seus vários problemas. Se Riordan e Steinberg souberem aparar as arestas para a próxima temporada, evitando repisar situações já abordadas e parar de jogar personagens novos de paraquedas, é possível que as aventuras do filho loiro de Poseidon para salvar – ou não – o Olimpo subam um degrau e passem a ser mais do que apenas entretenimento rápido bem feito nesse ambiente competitivo do streaming atual.
Percy Jackson e os Olimpianos – 2ª Temporada (Percy Jackson and the Olympians – EUA, 10 de dezembro de 2025 a 21 de janeiro de 2026)
Desenvolvimento: Rick Riordan, Jonathan E. Steinberg (com base em obra de Rick Riordan)
Direção: James Bobin, Jason Ensler, Catriona McKenzie
Roteiro: Rick Riordan, Craig Silverstein, Sarah Watson, Tamara Becher-Wilkinson, Shae Worthy, Albert Kim
Elenco: Walker Scobell, Leah Sava Jeffries, Marissa Lior Winans, Aryan Simhadri, Charlie Bushnell, Dior Goodjohn, Daniel Diemer, Virginia Kull, Jason Mantzoukas, Timothy Simons, Beatrice Kitsos, Tamara Smart, Glynn Turman, Nick Boraine, Adam Copeland, Sage Linder, Aiden Howard, Andra Day, Aleks Paunovic, Rosemarie DeWitt, Jasmine Vega, Andrew Kavadas, Dayna Ambrosio, Viola Abley, Adam Swain, Mark Gibbon, Dan Payne, Daniel Cudmore, Paul Cheng, Kyle Strauts, Courtney B. Vance, Toby Stephens
Duração: 333 min. (oito episódios)