O déficit público da Rússia pode superar a meta oficial de 2026 em quase três vezes, devido à diminuição das compras de petróleo pela Índia e à queda dos preços no setor petrolífero, que corroem as receitas. Ao mesmo tempo, os gastos podem ser maiores do que o esperado, disse à Reuters uma fonte próxima ao governo.
A fonte citou cálculos de economistas de um think tank ligado ao governo, que não devem ser publicados. Eles são o mais recente sinal das crescentes pressões sobre a economia russa, que enfrenta sanções, altas taxas de juros e escassez de mão de obra.
Os cálculos apontaram para uma possível queda de 18% nas receitas de energia em 2026, elevando o déficit para algo entre 3,5% e 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB), ante uma expectativa do governo de 1,6%. As estimativas também consideram um aumento nos gastos entre 4,1% e 8,4%.
A previsão é que a receita orçamentária total caia 6% em relação ao planejado, para 37,9 trilhões de rublos (US$ 494,78 bilhões). “A situação orçamentária está se deteriorando drasticamente. As receitas serão menores e as despesas maiores”, disse a fonte, que falou sob condição de anonimato devido à delicadeza do assunto.
A menos que se prove o contrário, os cálculos do governo russo e do banco central geralmente pressupõem a manutenção do status quo — ou seja, a guerra na Ucrânia, que se aproxima do seu quarto aniversário, e as consequentes sanções ocidentais.
Os dados mais recentes do governo, divulgados nesta quarta-feira (4), mostraram que as receitas orçamentárias de energia caíram pela metade em janeiro, atingindo o nível mais baixo desde julho de 2020, em 393,3 bilhões de rublos (US$ 5,13 bilhões).
Juros atingiram nível mais alto desde o início dos 2000
A economia russa, que teve um desempenho relativamente bom durante os três primeiros anos da guerra, desacelerou acentuadamente no ano passado, à medida que a luta do banco central contra a inflação elevou as taxas de juros ao seu nível mais alto desde o início dos anos 2000.
As sanções ocidentais resultaram em descontos de mais de 20% do petróleo russo em relação aos preços de referência internacionais. A valorização de 45% do rublo em relação ao dólar no ano passado também afetou as receitas, uma vez que os impostos sobre o petróleo são calculados em dólares, mas pagos em rublos.
Os cálculos foram feitos antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar ter convencido a Índia a parar de comprar petróleo russo, mas a fonte disse que eles se baseavam em uma queda presumida de 30% nas compras indianas, uma suposição que permanece em vigor por enquanto.
A queda na receita ocorre em um momento em que a Rússia e a Ucrânia estão envolvidas em negociações diretas mediadas pelos EUA nos Emirados Árabes Unidos, com os dois lados afirmando que progressos estão sendo feitos em direção a um acordo final.
A Rússia possui 4,1 trilhões de rublos em reservas fiscais que o governo pode utilizar para cobrir o déficit, mas analistas estimam que, no ritmo atual de queda na arrecadação, essas reservas se esgotariam em grande parte dentro de um ano.
A fonte afirmou ainda que, embora um déficit crescente e reservas decrescentes não desencadeiem um colapso econômico, exigirão uma resposta das autoridades financeiras.
“Isto não é uma catástrofe. É algo que pode ser financiado, mas não a taxas de juro tão elevadas”, disse a fonte, acrescentando que o Ministério das Finanças provavelmente proporá cortes de despesas, o que seria uma medida errada durante uma desaceleração econômica.
Algumas premissas do orçamento atual, como o anunciado pequeno corte nos gastos militares, são “irrealistas”, disse a fonte.
Equilíbrio orçamentário
As estimativas coincidem, em linhas gerais, com as dos bancos comerciais e de outras instituições de pesquisa. O Ministério das Finanças, que faz seus próprios cálculos, recusou-se a comentar.
Os analistas da Alfa Investment projetam que, se os atuais preços descontados do petróleo e a taxa de câmbio do rublo persistirem, o orçamento poderá ter um déficit de cerca de 3 trilhões de rublos neste ano, o que implica uso de 73% das reservas fiscais líquidas.
Analistas do VTB, o segundo maior banco da Rússia, estimam que o Estado retirará 2,5 trilhões de rublos das reservas em 2026, restando apenas 1,6 trilhão de rublos como reserva de segurança.
A Rússia opera com uma regra orçamentária segundo a qual as receitas arrecadadas acima de um determinado preço do petróleo — conhecido como preço de “corte” — são armazenadas no fundo de reserva fiscal.
O petróleo russo tem sido negociado consistentemente abaixo desse preço, atualmente fixado em US$ 59 por barril. O governo planeja reduzir o preço de corte em US$ 1 por ano para tornar as futuras transferências para o fundo mais confiáveis quando os preços subirem.
Os formuladores de políticas russos consideram um orçamento equilibrado como a principal defesa da Rússia contra as sanções ocidentais. O vice-primeiro-ministro, Alexander Novak, afirmou em 3 de fevereiro que os especialistas em sanções ocidentais visavam especificamente as receitas orçamentárias.
“O equilíbrio orçamentário é um dos pilares fundamentais para manter a estabilidade das nossas finanças e da nossa economia. Esses são os indicadores que não devemos desestabilizar”, disse Novak.