No intervalo de apenas dois dias, o mercado tomou alguns sustos com os dados de emprego nos Estados Unidos, que, agora, começam a se transformar em um “risk off” clássico: alta do dólar frente a moedas emergentes; disparada do índice VIX de volatilidade; queda das bolsas; e recuo dos juros de mercado; e encerramento de posições mais alavancadas, o que ajuda a justificar o tombo sofrido pela prata.
Não foram poucas as surpresas negativas com o mercado de trabalho americano. O ADP inaugurou a nova sessão de estresse, com números um pouco mais fracos que o esperado em janeiro. Mas foi nesta quinta-feira que o mercado piorou de vez.
O relatório Challenger mostrou um fechamento de 108 mil empregos em janeiro, um salto de 118% frente a dezembro e uma alta de 205% em relação a janeiro de 2025. Foi o pior mês de janeiro desde 2009, após ter eclodido a crise do subprime. O relatório semanal de pedidos de seguro-desemprego também surpreendeu, ao mostrar uma alta no número de solicitações acima do previsto. E, por fim, foi a vez do Jolts mostrar um número de vagas em aberto na economia americana em dezembro bem mais fraco que o esperado pelo mercado.
O teste final virá com o “payroll”, que foi adiado e será divulgado somente na semana que vem. E é possível que haja um aumento relevante da volatilidade, ao se ter em vista que, muitas vezes no passado, o mercado usou outros relatórios de emprego como uma proxy dos números oficiais, que, depois, surpreenderam para o lado contrário.
Mas, de forma geral, a narrativa de fraqueza do mercado de trabalho americano, somada aos movimentos agressivos nos mercados financeiros em janeiro, é o suficiente para levar os ativos a operarem em um “mood” de “risk off” na sessão, especialmente no mercado de câmbio, onde se fortalecem dólar, franco suíço e iene.
“O câmbio hoje está mais em um modo ‘old school’”, diz o estrategista Patrick Locke, do J.P. Morgan. “Há algumas ressalvas em relação aos dados mais recentes de pedidos de seguro-desemprego e de demissões. Ainda assim, a queda da taxa de vagas abertas no Jolts para níveis abaixo dos observados em 2019 reforça a percepção de que os dados do mercado de trabalho desta semana seguem relativamente fracos no conjunto.”
E, nesse contexto, o fato de o dólar estar associado ao enfraquecimento do mercado de trabalho chama atenção, já que há um rompimento do padrão recente, onde a moeda americana operava alinhada às expectativas para o desempenho da economia americana, e não como uma “safe haven”, como o franco suíço.
Na visão de Locke, os dados pesaram sobre o apetite por risco de forma que não era vista com frequência nos meses mais recentes e, nesse sentido, é importante avaliar se o dólar continuará a exibir uma reação tática e mais tradicional de “risk-off” ou se voltará a ter uma maior sensibilidade aos indicadores mais fracos de atividade nos EUA.
Enquanto isso, ao mesmo tempo em que o dólar — na figura do índice DXY — se mantém em alta firme, os rendimentos dos Treasuries renovam mínimas, especialmente os de curto prazo, dando força a uma ideia de que os juros podem voltar a ser reduzidos mais à frente.