Há acontecimentos que desmontam certezas com uma simples decisão administrativa. A mais recente veio dos Emirados Árabes Unidos. O país anunciou que deixará de financiar estudantes interessados em universidades britânicas por temer que seus jovens sejam expostos à radicalização islâmica nos campi do Reino Unido.
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Leia de novo: um Estado árabe, muçulmano, decide que é perigoso mandar seus filhos estudar em Londres — e que é mais seguro mantê-los longe do ambiente universitário ocidental.
O choque vem da inversão da narrativa. Durante décadas, acreditou-se que enviar jovens árabes para universidades britânicas ou americanas funcionaria como antídoto ao fanatismo: ciência, pluralismo, debate aberto. O futuro passava por Oxford, Cambridge ou Harvard. Agora, quem ergue barreiras não é uma democracia liberal, mas um emirado. E não para proteger sua cultura da influência ocidental, mas para impedir que seus estudantes retornem radicalizados do próprio Ocidente.
A decisão expõe um desconforto que as democracias preferem ignorar: universidades não são ilhas de neutralidade. Em certos ambientes, a liberdade de expressão tem servido de escudo para tolerar discursos e organizações que rejeitam essa mesma liberdade. O pluralismo virou, em alguns casos, álibi para a intolerância.
É fácil acusar os Emirados de autoritarismo. Mais difícil é admitir que talvez tenham se antecipado a um problema tratado como inexistente no Ocidente. Democracias seguem enviando seus jovens às mesmas instituições, confiando que tradição e ranking fazem a blindagem moral. Não fazem — especialmente depois que o Catar passou a despejar bilhões de dólares nessas universidades.
Convém esclarecer: Catar e Emirados Árabes Unidos não ocupam o mesmo campo. Enquanto os Emirados tentam conter a radicalização islâmica, o Catar é hoje um dos principais patrocinadores estatais do islamismo político. Abriga e financia lideranças da Irmandade Muçulmana, mantém dirigentes do Hamas em Doha e investe deliberadamente na exportação de uma agenda hostil a valores liberais, pluralismo e democracia. Seu uso do soft power acadêmico não é acidental — é estratégico.
Dados oficiais dos Estados Unidos mostram que instituições americanas receberam mais de US$ 4 bilhões do Catar nas últimas duas décadas. Cornell, Texas A&M, Georgetown e Northwestern mantêm operações em Doha financiadas com centenas de milhões — em alguns casos, bilhões — de dólares. Esse dinheiro não é neutro. Compra influência institucional, centros de pesquisa, cátedras, programas acadêmicos e legitimidade política para um regime que sustenta grupos terroristas e investe na radicalização como projeto de poder.
O ambiente que se formou em parte dos campi ajuda a entender o alerta. Depois de 7 de outubro de 2023, universidades como Harvard, Columbia, UCLA e NYU viram protestos que extrapolaram a crítica política. Palavras de ordem como “intifada global” e “from the river to the sea”, ocupações de prédios, intimidação a estudantes judeus e tentativas de silenciar professores e alunos. Em alguns casos, atos terroristas foram relativizados como “resistência”.
Grupos estudantis celebraram a violência; departamentos emitiram notas ideológicas sem espaço para dissenso. Em audiências no Congresso, reitores tiveram dificuldade em afirmar que apelos ao genocídio de judeus violam códigos de conduta quando apresentados como discurso político. O radicalismo passou a circular protegido pela linguagem acadêmica.
Pais do mundo todo que sonham com diplomas estrangeiros talvez percebam tarde que prestígio acadêmico não imuniza contra doutrinação. É possível estudar física quântica de manhã e aderir a uma utopia totalitária à noite.
O gesto dos Emirados não deve ser lido apenas como autoritarismo protetor. É um aviso incômodo ao Ocidente. Se você não defende seus valores dentro das instituições que formam suas elites, alguém ocupará o espaço — e talvez com objetivos opostos aos seus. Ainda há tempo de correção de rota. Universidades podem voltar a ser pontes de diálogo, mas só quando as democracias tiverem coragem de proteger seus filhos do fanatismo travestido de pensamento crítico.
*Nira Broner Worcman, jornalista, é CEO da agência de comunicação Art Presse e autora de “Enxugando gelo” (2025 edição hors commerce), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas