Em “O tigre”, poema de 1794, William Blake apresenta a fera asiática em sua forma acabada: bela, simétrica, hipnótica e regida por uma coerência interna que não admite moralização. O tigre blakeano não é caos, mas ordem terrível – e é justamente essa regularidade que o torna sedutor e perigoso. A pergunta que atravessa o poema – “Quem deu vida ao cordeiro também te criou?” – não opõe bem e mal, mas revela a convivência de regimes incompatíveis de existência: mansidão e ferocidade oriundas do mesmo barro. Transposta ao campo clínico, essa imagem desfaz a ilusão de que a dependência seja mero descontrole episódico: ela possui lógica própria, previsibilidade, economia interna – o que explica o motivo de poder, em certos momentos, simular governabilidade sem jamais deixar de ser ameaça; não por ser ausência de ordem, mas por uma ordem rígida, estreita e autossuficiente, que exclui outras formas de regulação do desejo.
No século 20, Jorge Luis Borges – que definia metáforas como “as secretas simpatias dos conceitos” – desloca esse problema da fera para a vontade e depois para o olhar. No livro O fazedor, em “Dreamtigers”, surge a figura do “tigre oveiro”, lanoso e espectral; não o animal real, mas um produto da imaginação que tenta recobrir a ferocidade com maciez simbólica domesticada. A vontade se declara poderosa, mas só consegue engendrar sucedâneos: tigres dissecados, fracos, deformados, fugazes. E em “O outro tigre”, Borges opõe a esse fracasso o tigre pleno: “forte, inocente, ensanguentado e novo”, alheio a nomes, classificações, ao tempo passado ou à promessa, regido por um presente absoluto e orientado pelo faro, não pela linguagem. Já em “O ouro dos tigres”, do livro Poesia, o escritor portenho observa o tigre de Bengala ir e vir por detrás das barras de ferro, como se estivesse “predestinado” àquele caminho, àquela circularidade. Em “O tigre”, também de Poesia, a “energia infinita” que emana dessa repetição ganha primeiro plano, reunindo potência, beleza e ameaça. Em ambos os casos, a serenidade do olhar expectante só se tornou possível porque havia contenção. O equívoco surge quando a regularidade observada – produto dessa barreira – passa a ser lida como sinal de organização própria e inerente ao felino, confusão que transforma a estabilidade notada em falsa evidência inconteste de governabilidade.
Transpostos ao campo da dependência, esses três tigres borgianos descrevem um mesmo engano em camadas sucessivas. O primeiro – o tigre produzido pela vontade – corresponde à crença de que decisão, esclarecimento ou treino bastariam para governar uma força que opera fora do regime da promessa; o segundo – o tigre pleno, inocente e ensanguentado – expõe a lógica própria do impulso, alheia a diagnósticos, contratos terapêuticos ou exceções narrativas; o terceiro – o tigre observado atrás das grades – revela o erro mais sutil e recorrente: confundir contenção com punição, e repetição com escolha. A dependência, como o tigre borgiano, não se educa nem se persuade; ela apenas circula dentro ou fora de enquadramentos que o olhar pode, ou não, reconhecer. Nesse ponto, impõe-se um dilema ético clássico, formulado fora da clínica, mas plenamente aplicável a ela: não se trata de “salvar a gazela” à custa de deixar a onça passar fome, nem de alimentar a onça ignorando a destruição que ela provoca. O cuidado nasce precisamente desse impasse, quando se reconhece que proteger e conter não são gestos opostos. Nesse contexto, não cabe à consciência observadora “adestrar a fera”, mas zelar pela integridade das barras – protegê-las da corrosão produzida pelos fatores de risco – e manter a chave da jaula em um lugar sempre seguro, fora do alcance da ilusão de controle.
Esse deslocamento reaparece em “As ilhas do Tigre”, de Atlas, publicação em coautoria com María Kodama, quando Borges reconhece que o tigre sempre lhe forneceu imagens – “talvez errôneas” – para cenas de outros mundos e outros livros. O tigre não é apenas animal ou símbolo, mas operador imaginário: atravessa geografias, leituras e memórias, erguendo monumentos frágeis, menos duráveis que o bronze, mas persistentes. É essa circulação entre gravuras, enciclopédias, zoológicos e palavras que culmina em “Meu último tigre”, do mesmo livro: desta vez o de carne e osso, com cheiro e peso, do qual o autor se aproxima com evidente e aterrada felicidade, cuja língua lhe lambe o rosto e cuja garra, indiferente ou carinhosa, se demora sobre sua cabeça. Não mais real do que os tigres do sonho – mas diferente. Aqui, proximidade, repetição e fascínio se entrelaçam: o encontro com o animal, no interior da jaula, revela menos sobre a fera em si do que sobre o olhar que a reconhece.
Não é irrelevante que Borges agradeça, ao final, o amigo Cutini, proprietário do zoológico, que lhe possibilitou esse encontro marcado por “evidente e aterrada felicidade”. Alguém que conhecia o animal, que sabia ler seus sinais, que soube acalmá-lo sem negá-lo ou pretender libertá-lo da jaula; alguém que usou conhecimento aplicado para tornar a aproximação possível, de modo ético, decisivo – e transformador. Existe aí uma posição estruturante: não a do domador que promete pretensiosamente o controle, nem do espectador fascinado que romantiza o risco, mas aquela que organiza a cena, regula a distância e sustenta a contenção.
Algo dessa função ecoa no cuidado clínico. O tratamento não elimina o tigre, nem o dissolve em explicações racionalizantes, redutoras ou causalistas (todas elas “domesticadoras”), tampouco entrega a chave da jaula, nem se arroga o direito de abrir a fechadura, em nome de uma fantasia de liberdade. Ele permite que a pessoa se aproxime da fera com maior segurança, observe seus movimentos, reconheça seus ritmos e aprenda seus limites – sem ser atacado por ela. Talvez por isso a observação infantil da pequena Norah, registrada por Borges – “é feito para o amor” – não seja ingênua, mas, sim, ética: amar a fera não é soltá-la, mas reconhecê-la sem fantasia de domínio. Decifra-me, ou te devoro: a ameaça não se dissolve; agora, entretanto, com o campo clínico sustentado, o trabalho investigativo e elaborativo a respeito dessa fera que habita “as florestas da noite” da pisque finalmente se torna possível.
Contudo, nem todos os encontros com a fera se dão nesse registro. Há situações em que a dependência ultrapassa definitivamente o campo simbólico e produz danos que não se deixam reabsorver apenas pela elaboração psíquica ou pela reconstrução narrativa. Intoxicações seguidas de vitimização, acidentes com deformações permanentes, exposições que resultam em violência sexual, rupturas trágicas de vínculos, rejeições devastadoras produzidas por estados mentais profundamente adoecidos – mesmo quando há posterior possibilidade de melhora clínica, algo já foi arrancado do corpo, da história ou da vida da pessoa. São marcas que exigem outro tempo, outro trabalho e, por vezes, outro campo de elaboração.
É nesse ponto que o testemunho de Nastassja Martin, antropóloga que passou anos pesquisando populações da Sibéria, adquire peso singular. No recente Escute as feras, Martin narra o encontro direto com um urso, do qual não sai ilesa: perde parte da mandíbula, sofre mutilações e vê seu corpo radicalmente transformado. A fera, aqui, não foi interpretada, contida ou decifrada: ela atacou. O encontro não deixou apenas imagens ou metáforas, mas feridas concretas, inscrições irreversíveis na carne. Mesmo o longo processo posterior de reconstrução cirúrgica e reconfiguração subjetiva não apaga o fato de que algo foi definitivamente atravessado.
Esse testemunho permanece como lembrete de que, em certos encontros com a “fera psicoativa”, o intervalo entre a interpelação e o ataque é mínimo – por vezes inexistente – e as consequências se impõem antes que qualquer trabalho de elaboração possa operar plenamente. Não se trata de fracasso moral nem de erro interpretativo posterior, mas de encontros em que a força excede o campo da metáfora e produz deformações que exigem outro tipo de cuidado.
É nesse contexto de abertura do cuidado que “Tigres azuis”, presente em Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare, adquire sua força singular. Já não há animal nem metáfora zoológica estabilizável. O que surge são pedras azuis discoides que violam a aritmética, dissolvem o número e tornam impossível qualquer princípio de contagem ou domínio: “quarenta discos podiam, divididos, dar nove; os nove, divididos por sua vez, podiam ser trezentos”. O perigo, assim, já não está na ferocidade, mas na incompatibilidade com a lei mínima da razão. O narrador sabe que não há controle possível, reconhece o caráter destrutivo do objeto e, ainda assim, insiste em tocá-lo, contá-lo, manipulá-lo – não movido pela curiosidade estruturante, mas por uma insistência que escapa à decisão. Nesse ponto, não há ainda compreensão suficiente, nem manejo efetivo. O que se impõe é a constatação de um impasse, no limiar de uma renúncia que ainda não se enuncia; enquanto uma única pedra permanece no bolso, o mundo inteiro permanece contaminado. Aqui, como em encontros reais com forças que escapam à metáfora, o trabalho clínico não se dá no domínio do objeto, mas na lenta reconstrução do campo que torna a vida novamente habitável.
Entre Blake e Borges, o tigre atravessa a literatura como prova e limite. Blake mostra a força do terrível em uma dimensão primordial, anterior à vontade; Borges mostra os limites da vontade, o erro do olhar e, por fim, os pontos em que a própria razão falha diante de certos objetos. A lição não é domar a fera, nem a romantizar, nem a enfrentar de peito aberto. O cuidado possível não transforma o tigre – em vez disso, reorganiza o campo ao redor, ergue contenções, aceita perdas. Há forças que podem ser afastadas; outras exigem renúncia completa. O tigre que atravessa a literatura não é o animal que pisa a terra, mas aquele que fornece imagens – sempre parciais, por vezes enviesadas, mas inevitáveis. Pensar com tais imagens não é capturar o real, mas aceitar que todo encontro, inclusive o clínico, passa antes por essas mediações frágeis da linguagem, onde o sentido se insinua mais do que se impõe. É justamente por isso que a fera não se domina pela vontade; apenas a contenção lúcida impede que a ilusão de controle se transforme em devastação. É essa mesma contenção – sem psicologização nem recusa da realidade – que permite que a força exista sem desorganizar ou arruinar o campo inteiro da vida, e do trabalho clínico.
Marcelo Ribeiro é psiquiatra, pesquisador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD, do Departamento de Psiquiatria, da UNIFESP, e coordenador do programa de pós-graduação em Dependência Química, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo