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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Este inverno cripto é diferente? Principais analistas reavaliam o Bitcoin

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Observadores do mercado de Bitcoin acreditam que a recente queda de preço pode, na verdade, refletir a maior adoção do ativo por instituições, que ainda não o enxergam como um ativo de proteção.

Os últimos meses têm sido difíceis para o mercado cripto. Desde outubro, quando o preço do Bitcoin superou US$ 120.000, o BTC vem recuando gradualmente. Nas últimas semanas, a queda se intensificou, acumulando desvalorização superior a 25% no mês.

Em meio à liquidação, analistas têm buscado explicações. O diretor de investimentos da Bitwise, Matt Hougan, atribuiu a queda aos conhecidos ciclos de quatro anos que historicamente moldaram as oscilações de preço do mercado cripto.

Outros, incluindo um diretor do Federal Reserve dos Estados Unidos, afirmam que os movimentos recentes mostram que as instituições são avessas ao risco e que o Bitcoin ainda não alcançou o status de ouro digital.

Bitcoin acumula queda superior a 25% no mês. Fonte: CoinMarketCap

Bitcoin ainda é visto como arriscado, “não é ouro digital”

O interesse institucional em Bitcoin e criptomoedas pode ser um dos motivos da recente liquidação. Embora grandes instituições financeiras disponham de muito capital para investir no mercado cripto, sua tolerância ao risco é bem menor que a de investidores de varejo, e o Bitcoin ainda é amplamente visto como um ativo arriscado.

Chris Waller, diretor do Federal Reserve dos Estados Unidos, comentou esse ponto em uma conferência de política monetária na segunda-feira. Segundo ele, parte da “euforia” em torno das criptomoedas que acompanhou a nova administração do presidente Donald Trump está desaparecendo.

“Acho que houve muita venda simplesmente porque empresas que entraram a partir do sistema financeiro tradicional precisaram ajustar suas posições de risco.”

Esse sentimento foi reforçado pelo CEO da Galaxy Digital, Mike Novogratz, que afirmou em entrevista à CNBC que a indústria cripto atraiu “instituições com uma tolerância ao risco diferente”.

“Investidores de varejo não entram em cripto porque querem ganhar 11% ao ano… Eles entram porque querem multiplicar por 30, por oito, por 10.”

A gestora de criptoativos Grayscale observou em relatório que a recente movimentação de preço do Bitcoin tem maior correlação com ações de tecnologia de alto valor de mercado do que com ativos historicamente estáveis como o ouro. A empresa afirmou que os movimentos de curto prazo não têm apresentado forte correlação com ouro ou outros metais preciosos.

Fonte: Grayscale

O estrategista de commodities da Bloomberg Mike McGlone, conhecido por sua visão cética em relação ao Bitcoin, afirmou que o ativo ainda é altamente especulativo. “[O Bitcoin] provou que não é nem ouro digital nem beta alavancado”, disse, acrescentando que se trata de um ativo “altamente especulativo na tela, que não acompanha nada e enfrenta concorrência ilimitada”.

A Grayscale manteve visão mais otimista sobre o longo prazo do Bitcoin. “A rede provavelmente continuará operando muito além de nossas vidas, e o ativo pode preservar seu valor real… em uma ampla gama de cenários econômicos e sociais”, afirmou.

A empresa também destacou o papel central que as instituições terão no sucesso futuro do ativo, algo que depende de maior clareza regulatória, ainda não alcançada nos Estados Unidos.

Falta de avanço no CLARITY aumenta riscos

O CLARITY Act, atualmente em debate no Senado dos Estados Unidos, propõe reformular a forma como o mercado cripto é regulado no país, incluindo as agências responsáveis por supervisionar regras relacionadas à finanças descentralizadas.

O projeto está parado há semanas, enquanto empresas do setor, como a Coinbase, e o lobby bancário divergem sobre a questão dos juros de stablecoins, ponto central do modelo de negócios das exchanges e que bancos consideram potencial ameaça à estabilidade financeira.

A incapacidade do Congresso de avançar rapidamente com uma lei de estrutura de mercado para criptomoedas aumentou a insegurança, segundo Waller. “A falta de aprovação do CLARITY Act afastou um pouco as pessoas”, afirmou.

Novogratz também ressaltou o impacto que o projeto pode ter no mercado. Segundo ele, democratas e republicanos querem aprová-lo e “precisamos disso para devolver o ânimo ao mercado cripto”.

A Grayscale destacou a importância tanto do CLARITY quanto do GENIUS Act, este último aprovado em julho de 2025. Segundo a empresa, “melhorar a clareza regulatória para a indústria cripto é uma tendência estrutural muito maior do que uma única legislação”.

Regulações mais favoráveis devem impulsionar o uso de stablecoins, ativos tokenizados e outras aplicações da blockchain pública, o que, por sua vez, pode gerar valor para redes blockchain e seus tokens nativos.

Negociações de alto nível para destravar o CLARITY estão em andamento. Na terça-feira, executivos dos setores cripto e bancário se reuniram na Casa Branca para mais uma reunião a portas fechadas.

O diretor jurídico da Ripple, Stuart Alderoty, afirmou que “há espírito de compromisso no ar. O impulso bipartidário por uma legislação sensata de estrutura de mercado cripto permanece claro”.

Enquanto isso, analistas debatem até onde pode ir o mercado de baixa do Bitcoin. A Kaiko Research compartilhou com o Cointelegraph uma análise sugerindo que a faixa dos US$ 60.000 pode ser um “ponto intermediário”.

“A análise de métricas on-chain e do desempenho comparativo entre tokens indica que o mercado está se aproximando de níveis técnicos críticos de suporte que determinarão se o ciclo de quatro anos permanece intacto”, afirmou a Kaiko.

McGlone disse que US$ 60.000 seria apenas um “obstáculo temporário no caminho de volta” para US$ 10.000, citando fatores como a possível migração de interesse de ativos digitais para stablecoins e a probabilidade de que o presidente Trump esteja politicamente enfraquecido no próximo ano.

Um presidente enfraquecido, mesmo sendo favorável às criptomoedas, pode ter dificuldades para implementar mudanças no Congresso. Resta saber se o setor conseguirá a clareza regulatória necessária para que as instituições entrem de forma mais decisiva.