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domingo, fevereiro 15, 2026

Livros da semana: ‘O adversário’, de Emmanuel Carrère, é tema da crítica; violência no México é destaque entre lançamentos

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‘O adversário’ é um livro lançado pelo francês Emmanuel Carrère em 2020. Chega com atraso ao Brasil e recebeu um “bom” na crítica do jornalista Nelson Vasconcelos: “Claro que Carrère traz muitos mais detalhes intrigantes e tenta explicar por que Romand enveredou pelo caminho da mentira, que em seguida se tornou desespero, covardia, sadismo e, no fim, burrice.”

Entre os lançamentos, destacamos “Trilogia mexicana”, em que o escritor e cientista político mexicano Yuri Herrera retrata um país dominado pela violência e pelo tráfico. Em sua estreia literária, Maria Brant escreve um romance de formação sobre o luto e a autodescoberta em meio ao fim da ditadura militar no Brasil e a passagem do cometa Halley.

‘O Adversário’, de Emmanuel Carrère. Tradução: Mariana Denfini. Editora: Alfaguara. Páginas: 200. Preço: R$ 79. | Cotação: bom.

Se entender os próprios atos com clareza total já é uma tarefa frequentemente complicada, imagine entender desvarios cometidos por pessoas distantes. O escritor e roteirista francês Emmanuel Carrère bem que tenta. Ele é chegado nessas investigações sobre os vacilos da alma humana, principalmente quando há algum crime no meio das histórias verídicas que gosta de relatar — basta citar seu ótimo “V13” (2024), em que narrou o julgamento de terroristas que, em 2015, mataram 130 pessoas em Paris. “O Adversário”, seu livro originalmente lançado em 2000 e que agora ganha reedição por aqui, também vai fundo na insensatez alheia, desta vez tendo como protagonista um mitômano execrável.

O caso que originou “O Adversário” ficou famoso. Na noite de 9 de janeiro de 1993, sem economizar em crueldades, o pacato cidadão Jean-Claude Romand matou a mulher, Florence, e, na manhã seguinte, suas duas crianças. Depois pegou o carro, rodou alguns quilômetros, almoçou com os pais e os executou logo após a refeição. Na sequência, tentou assassinar a amante, mas não deu certo. Ele voltou para casa, tascou fogo no que podia, encheu-se de barbitúricos (fora da validade) e deitou-se. Quando os bombeiros se aproximaram, Romand abriu a janela, sinalizou que estava por ali e acabou socorrido. Entrou em coma, mas não morreu. Foi levado a júri e obrigado a contar ao mundo a sua história. E foi aí que o caso tomou ares de literatura delirante, até mesmo pelo talento narrativo de Carrère, que não inventou nada do que escreveu ali.

A investigação logo mostrou que Romand não era o que todos pensavam que ele fosse. Todos mesmo: nem a falecida mulher, muitos menos os filhos, nem pais, a amante ou o melhor amigo — ninguém sabia quem realmente era aquele homem.

Romand se apresentava como pesquisador importante da Organização Mundial de Saúde (OMS), cuja sede fica em Genebra, Suíça, que faz fronteira com Prévessin-Moëns, a comuna francesa onde ele vivia. Saía de casa para trabalhar mas, na verdade, ficava zanzando sem rumo, fazendo hora. Às vezes visitava a OMS, recolhia informativos, cochilava no carro, batia perna até o momento de voltar para casa. Às vezes inventava uma viagem de trabalho e, para dissimular, passava dias no hotel do aeroporto. E assim fez por nada menos que 18 anos.

Para nossa cultura tropical, tão afeita a meter-se (até demais) na vida alheia, o estranhamento em relação à história é grande: como assim, Florence não desconfiava de nada? E os amigos eram mesmo tão inocentes, tão desligados? E onde Romand conseguia dinheiro para pagar seus luxos, a amante cara e as contas domésticas cada vez mais pesadas?

No entorno dele, pelo jeito, ninguém questionava nada. E Romand era inteligentíssimo, malandro bom de conversa, levando suas mentiras até as últimas consequências. Assim, desde jovem convenceu amigos e familiares de que, via OMS, mantinha contatos quentes em bancos exclusivos e que era capaz de multiplicar recursos alheios — com isso, durante anos, capturou e gastou a grana de vítimas tão incautas como ambiciosas (não foi o primeiro a fazer isso, nem terá sido o último, como sabemos). Mas o tempo passou e o gente boa narcisista, que criara ao seu redor um mundo exclusivamente seu, começou a perder a única coisa que não poderia controlar: a sorte.

Ao perceber que sua farsa estava no fim, Romand inventou que era um doente terminal, amealhou piedade e tempo, mas, depois de refletir bastante, convenceu-se de que apenas a morte daria um fim satisfatório ao rolo em que se metera. Problema é que, em vez de eliminar somente o único responsável pela lambança toda, decidiu acabar com aqueles que mais ficariam infelizes com tanta insanidade. E não conseguiu matar seu personagem.

Claro que Carrère traz muitos mais detalhes intrigantes e tenta explicar por que Romand enveredou pelo caminho da mentira, que em seguida se tornou desespero, covardia, sadismo e, no fim, burrice. Seria para aliviar um vazio existencial ou traumas não superados? Talvez, mas precisava ser assim? Onde está, afinal, o Adversário? Há mil hipóteses de viés psi ou religioso — e, como sempre, cada leitor adota aquela que melhor lhe convier.

A propósito, como o livro original foi finalizado em 1999, não custava nada a edição brasileira registrar, mais do que numa nota de rodapé, que Romand, que fez 72 anos na última quarta-feira e ficou somente 26 anos preso, escapando da prisão perpétua. Desde 2019, é um cidadão livre. Sua história rendeu outros livros, além de filmes e até ensaio filosófico.

Nelson Vasconcelos é jornalista

‘A greve dos mendigos’

Autora: Aminata Sow Fall. Tradução: Mirella Botaro. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 136. Preço: R$ 53,55.

Nesta sátira sobre políticas higienistas e poder dos excluídos, um burocrata de Dakar decide esconder a população de rua. Mas os mendigos simplesmente declaram greve, o que provoca um efeito em cadeia: sem os pobres para testemunhar sua generosidade, a elite perde a possibilidade de praticar a caridade, fundamental para a vida religiosa e para a manutenção de sua imagem e respeitabilidade social.

Autor: Yuri Herrera. Tradução: Rachel Gutiérrez. Editora: Amarcord. Páginas: 336. Preço: R$ 89,90.

O aclamado escritor e cientista político mexicano retrata aqui um país dominado pela violência e pelo tráfico, além de separado física e simbolicamente de um território onde a prosperidade é a promessa constante. Com habilidade singular, ele articula visões desses dois mundos que nos conduzem a três histórias: “Trabalhos do reino”, “Sinais que precederão o fim do mundo” e “A transmigração dos corpos”.

Autora: Maria Brant. Editora: Fósforo. Páginas: 160. Preço: R$ 84,90.

Em 1986, o mundo aguarda a passagem do cometa Halley. No Brasil, a redemocratização está em curso após 21 anos de ditadura militar. É este o contexto da estreia literária de Maria Brant, um romance de formação sobre o complexo processo de luto e uma jornada de autodescoberta, em que a dor e a busca pelo significado de assuntos não ditos são captados pela percepção infantil de três meninas.

Autora: Maria Valéria Rezende. Editora: 34. Páginas: 88. Preço: R$ 57.

Partindo da produção de autores consagrados, como Machado de Assis e Kafka, a autora borra as fronteiras entre “escrita” e “reescrita”. Mais do que isso, ao atualizar um conto com as cores de nossa época ou propor novos desfechos, questiona a ideia de “originalidade” nas criações. Vencedora de prêmios literários, Rezende é considerada um dos nomes mais expressivos da literatura contemporânea brasileira.

‘Só os loucos batem palmas para o céu’

Autora: Denise Emmer. Editora: Cavalo Azul. Páginas: 94. Preço: R$ 70.

Vencedora do Prêmio Alceu Amoroso Lima — Poesia e Liberdade 2021, a poeta, compositora e violoncelista Denise Emmer depura nesta obra, ao longo de 17 contos, questões como a solidão e o desamparo. O livro não apenas continua o diálogo com obras ficcionais anteriores — “O cavalo cantor” e “O barulho do fim do mundo” — como aprofunda a vertente estética da autora, que flerta com o realismo mágico.

  • 1. ‘A empregada’, Freida McFadden (Arqueiro)
  • 2. ‘Patinando no amor’, Lynn Painter (Intrínseca)
  • 3. ‘Mulher em queda’, Colleen Hoover (Galera)
  • 4. ‘Verity’, Colleen Hoover (Galera)
  • 5. ‘O segredo da empregada’, Freida McFadden (Arqueiro)
  • 6. ‘A cabeça do santo’, Socorro Acioli (Companhia das Letras)
  • 7. ‘A hora da estrela’, Clarice Lispector (Rocco)
  • 8. ‘A hipótese do amor’, Ali Hazelwood (Arqueiro)
  • 9. ‘Jantar secreto’, Raphael Montes (Companhia das Letras)
  • 10. ‘Nunca minta’, Freida McFadden (Record)
  • 1. ‘Café com Deus Pai Vol. 6 – 2026’, Júnior Rostirola (Vélos)
  • 2. ‘Sociedade do cansaço’, Byung-Chul Han (Vozes Nobilis)
  • 3. ‘365 dias de amor com Deus – Devocional’, (King Books)
  • 4. ‘Mulheres com Deus’, (King Books)
  • 5. ‘Café com os santos’, Luiz Alexandre Solano Rossi (Paulus)
  • 6. ‘São José, patrono das famílias’, Pe. João da Silva Mendonça Filho (Santuário)
  • 7. ‘Coisa de rico’, Michel Alcoforado (Todavia)
  • 8. ‘Maria de Nazaré’, Georges Gharib (Paulus)
  • 9. ‘Vida e Reino de Jesus nas Almas Cristãs’, São João Eudes (Paulus)
  • 10. ‘Brasil no espelho’, Felipe Nunes (Globo Livros)
  • 1. ‘Murdoku’, Manuel Garand (Sextante)
  • 2. ‘Diário de um Banana 1’, Jeff Kinney (VR Editora)
  • 3. ‘Cascão’ (2021), Mauricio de Sousa (Panini)
  • 4. ‘Elo Monsters Books’, Enaldinho (Pixel)
  • 5. ‘Mônica (2021) – 21’, Mauricio de Sousa (Panini)
  • 6. ‘Coraline’, Neil Gaiman (Intrínseca)
  • 7. ‘O diário de uma princesa desastrada’, Maidy Lacerda (Outro Planeta)
  • 8. ‘Magali (2021) – 21’, Mauricio de Sousa (Panini)
  • 9. ‘Chico Bento (2021) – 21’, Mauricio de Sousa (Panini)
  • 10. ‘O meu pé de laranja lima’, José Mauro de Vasconcelos (Melhoramentos)
  • 1. ‘A psicologia financeira’, Morgan Housel (Harper Business)
  • 2. ‘Networking é o princípio do dinheiro’, Daniel Gramigna (Citadel)
  • 3. ‘Mais esperto que o diabo’, Napoleon Hill (Citadel)
  • 4. ‘Hábitos atômicos’, James Clear (Alta Life)
  • 5. ‘Minutos de sabedoria’, C. Torres Pastorino (Vozes)
  • 6. ‘Pai rico, pai pobre’, Robert T. Kiyosaki (Alta Books)
  • 7. ‘Os segredos da mente milionária’, T. Harv (Editora Sextante)
  • 8. ‘As 48 leis do poder’, Robert Greene (Rocco)
  • 8. ‘Essencialismo’, Greg McKeown (Sextante)
  • 10. ‘Diário estoico’, Ryan Holiday e Stephen Hanselman (Intrínseca)

[Fonte Original]

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