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domingo, fevereiro 15, 2026

Melinda French Gates: “Se Você Se Beneficiou Desse Sistema, o Responsável É Devolver à Sociedade”

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Em um podcast da rádio americana NPR no início de fevereiro, Melinda French Gates foi questionada sobre os mais recentes arquivos de Jeffrey Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que revelaram algumas alegações escandalosas — porém não verificadas — sobre seu ex-marido e ações que o bilionário teria tentado esconder dela.

Embora Melinda tenha sugerido que se divorciou de Bill Gates e rompeu laços com a Fundação Gates ao menos em parte por causa de revelações anteriores envolvendo Epstein, ela aproveitou o momento para não falar de si, mas da dor infligida às vítimas, afirmando que nenhuma menina deveria jamais passar por uma situação como aquela. “É devastador demais. Eu consigo pegar a minha própria tristeza e olhar para aquelas meninas.”

Não se trata de discurso vazio por parte de Melinda French Gates; ela virou a página em relação a Bill, de quem se separou em 2021, e também em relação à fundação que os dois criaram juntos há 25 anos, para se concentrar em filantropia e investimentos voltados a ajudar meninas e mulheres ao redor do mundo. “Se você se beneficiou de um sistema que permite concentração de riqueza, a atitude responsável é devolver à sociedade“, afirma.

Ela vem construindo suas próprias iniciativas filantrópicas há anos. Em 2015, fundou uma organização guarda-chuva chamada Pivotal; em 2022, lançou seu braço de fundação privada; e, em 2023, criou três frentes menores — Pivotal Momentum, Opportunities e Pathways. Essas fundações menores originalmente levavam nomes de pássaros — Rosefinch, Greenfinch e Snowfinch — antes de serem rebatizadas em 2024.

Não está totalmente claro como as missões dessas organizações se diferenciam entre si, embora todas façam parte da Pivotal, que, segundo o site oficial da organização, “trabalha para acelerar o ritmo do progresso social para mulheres e jovens nos Estados Unidos e no mundo”.

As doações de Bill e Melinda Gates

Embora a Forbes ainda contabilize juntos os valores doados por Bill e Melinda — o casal doou cerca de US$ 52,6 bilhões (R$ 271,8 bilhões), mais do que qualquer outra pessoa além de Warren Buffett —, Melinda agora tem recursos próprios para influenciar a filantropia da forma como imagina, incluindo US$ 12,5 bilhões (R$ 64,6 bilhões) que seu ex-marido doou à Pivotal depois que ela deixou a Fundação Gates, em 2024.

Melinda já doou pelo menos US$ 540 milhões (R$ 2,79 bilhões) a outras organizações sem fins lucrativos focadas no progresso social de mulheres e meninas, chamando as questões que as afetam de “escandalosamente subfinanciadas”. Isso inclui US$ 14 milhões (R$ 72,3 milhões) no ano passado para a National Partnership for Women & Families, US$ 12 milhões (R$ 62 milhões) para o National Women’s Law Center Fund e ao menos US$ 10 milhões (R$ 51,7 milhões) para diversas organizações voltadas aos direitos reprodutivos das mulheres.

Mulheres à frente da filantropia

Melinda French Gates faz parte de um grupo de mulheres filantropas que estão usando sua riqueza não apenas para apoiar grupos historicamente subfinanciados, mas também para influenciar quanto dinheiro é doado — e com que rapidez. Entre os 25 maiores doadores dos Estados Unidos, seis são mulheres, e outros 12 são casais (ou ex-casais) em que a mulher lidera ou co-lidera a filantropia.

O fato de mulheres estarem à frente do movimento para diversificar e acelerar as doações não surpreende. Segundo Matti Navellou, que lidera o braço filantrópico da gestora de patrimônio Iconiq, mulheres tendem a doar mais rapidamente e de forma mais generosa. Ninguém definiu mais esse ritmo do que MacKenzie Scott, que doou US$ 26,4 bilhões (R$ 136,4 bilhões) com poucas exigências em menos de sete anos desde seu divórcio de Jeff Bezos, em 2019 — mais rápido do que qualquer outra pessoa no mundo.

Isso acontece em parte porque pessoas que não são fundadoras nem criadoras principais de sua riqueza tendem a aceitar “mais riscos” em seu trabalho filantrópico, já que, de certa forma, sentem menos apego ao patrimônio, segundo Cecilia Conrad, CEO da Lever for Change, organização sem fins lucrativos que reúne recursos de grandes doadores, incluindo Melinda French Gates, MacKenzie Scott e pelo menos outros três bilionários.

Fundos coletivos, ou círculos de doação, que reduzem o tempo e o custo para identificar e avaliar organizações, vêm ganhando força. “Cada vez mais estamos focados na colaboração com outros doadores”, afirma Cari Tuna, esposa do cofundador do Facebook Dustin Moskovitz e presidente da Coefficient Giving, por meio da qual o casal já doou cerca de US$ 4,3 bilhões (R$ 22,2 bilhões). “Isso sempre fez parte da minha visão.” Melinda acrescenta: “As mulheres sabem que há muito poder na ação coletiva, e os círculos de doação são uma oportunidade para doadores comuns fazerem seus recursos renderem mais.”

Espera-se que americanos mais velhos repassem mais de US$ 120 trilhões (R$ 620,1 trilhões) — a maior transferência de riqueza intergeracional da história — e as mulheres serão as maiores beneficiárias. “Do ponto de vista filantrópico, mal posso esperar para ver o que elas farão com isso”, diz Melinda.

A seguir, Melinda French Gates fala sobre sua abordagem à filantropia e como as mulheres estão liderando esse movimento.

Forbes: O que você acha que a motiva a ser tão generosa — tanto em relação ao dinheiro doado quanto ao tempo dedicado à filantropia?

Melinda French Gates: Eu jamais poderia ter previsto que estaria sentada aqui hoje com um nível de recursos que, honestamente, parece absurdo. Se você se beneficiou de um sistema que permite que tanta riqueza se concentre nas mãos de uma única pessoa, a atitude responsável é devolver isso à sociedade. É nisso que eu acredito, e é por isso que eu doo. Recursos existem para ser compartilhados.

Como sua abordagem à filantropia mudou nos últimos anos?

Quando me afastei da Fundação Gates para iniciar um novo capítulo da minha filantropia, centrado na Pivotal, pensei muito não apenas sobre onde quero doar, mas também sobre como quero doar.

Quanto mais tempo faço isso, mais profundamente sinto que os filantropos são mais úteis quando estão por trás de movimentos liderados por outras pessoas, em vez de tentar liderar movimentos próprios. Eu me importo muito com o trabalho que faço, mas nunca serei a especialista em nenhum dos temas com os quais atuo. Essa expertise está com nossos parceiros.

Também tenho sido cada vez mais intencional em garantir que a forma como me envolvo com eles — desde como estruturo subsídios para incentivar a colaboração até como acompanhamos resultados em conjunto — reflita esse entendimento fundamental.

Quais tendências na filantropia você considera mais relevantes hoje?

Duas me vêm à mente. A primeira são os círculos de doação, que permitem que pessoas que se importam com as mesmas causas unam recursos para maximizar seu impacto. O número desses círculos mais do que dobrou na última década, impulsionado em grande parte por mulheres. Elas sabem que há muito poder na ação coletiva, e esses grupos permitem que doadores comuns ampliem o alcance de seus recursos.

Ao mesmo tempo, estamos às vésperas do que alguns chamam de a “Grande Transferência de Riqueza“. As mulheres devem herdar trilhões de dólares até 2030, o que significa que em breve controlarão mais riqueza do que jamais controlaram antes. Do ponto de vista filantrópico, mal posso esperar para ver o que farão com isso.

Onde você ainda enxerga grandes lacunas nas doações? Em que áreas os filantropos não estão focando o suficiente? E há áreas que já recebem dinheiro demais?

Questões que afetam mulheres e meninas são cronicamente e escandalosamente subfinanciadas. Organizações dedicadas a mulheres e meninas recebem apenas cerca de 2% dos recursos filantrópicos nos Estados Unidos. Globalmente, se excluirmos a pesquisa sobre câncer, a saúde das mulheres recebe apenas 1% do financiamento em pesquisa. Os níveis de investimento não correspondem às necessidades, o que significa que há inúmeras oportunidades de melhorar a vida de mulheres e meninas. A saúde feminina, em especial, será uma grande prioridade para mim daqui para frente.

Você acredita que existam diferenças de gênero na forma como o dinheiro é doado?

Quando comecei a viajar para a Índia e partes da África pela Fundação Gates, uma das primeiras coisas que aprendi é que as mulheres tendem a investir seus recursos de forma diferente dos homens. Elas são mais propensas a direcionar dinheiro para a educação ou a saúde de seus filhos, o que gera benefícios de longo prazo tanto para suas famílias quanto para suas comunidades.

Ainda estamos aprendendo muito sobre as diferentes formas como mulheres filantropas doam, mas pesquisas mostram que elas também se interessam fortemente pelo impacto comunitário e querem doar de maneiras alinhadas aos seus valores. Elas tendem a focar mais em temas como pobreza, saúde, educação e, cada vez mais, desigualdade racial. Isso também vai gerar retornos positivos no futuro.

Quem ou o que mais influenciou a forma como você aborda sua filantropia?

Logo no início, meu querido amigo Warren Buffett compartilhou um conselho maravilhoso: “Encontre o seu alvo.” O que ele quis dizer foi escolher uma área em que você acredita que pode fazer a diferença e manter o foco nela. Todos esses anos depois, ainda penso muito nesse conselho. Existem tantas causas valiosas no mundo e tantas formas de cada um de nós fazer a diferença. Mas, para maximizar o impacto, às vezes ajuda concentrar esforços. Se você está focado em tudo, não está focado em nada.

Você colabora com outras filantropas ou há mulheres que se destacam por abordagens inovadoras?

Uma das melhores partes do meu trabalho é me conectar com outras mulheres e conhecer a próxima geração de líderes filantrópicas. Minha filha, Phoebe, está no início de sua própria jornada de doação, e tem sido uma alegria vê-la encontrar causas que realmente lhe importam e apoiá-las de forma significativa. Já estou aprendendo muito com ela e com a forma como ela enxerga o mundo.

*Matéria originalmente publicada em Forbes.com

[Fonte Original]

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