Puxe aí na sua memória: o que você estava fazendo aos 19 anos de idade? Quais eram os seus desafios, os objetivos, as conquistas? Com apenas essa idade, o tenista brasileiro João Fonseca já conseguiu impressionar o mundo do tênis. O tenista promete chamar a atenção ainda mais no Rio Open 2026 junto com Marcelo Melo. Os dois formarão uma dupla, pela primeira vez, na chave principal do torneio em quadra nesta segunda-feira, 16, no Rio de Janeiro.
E Fonseca deve impressionar não apenas os aficionados, mas os especialistas envolvidos no esporte e principalmente os outros atletas que são parte da disputada Associação de Tenistas Profissionais (ATP). Prova disso é que, com seus 19 anos, João foi convidado para medir forças com o atual líder do ranking mundial, o espanhol Carlos Alcaraz, em um jogo de exibição disputado em Miami, no início de dezembro. E fez bonito.
“O nível que mostramos foi muito alto, fizemos uma partida bonita. João já mostrou ao mundo o nível que tem”, disse o número 1 do mundo aos jornalistas, após vencer por 2 sets a 1. E acrescentou: “o João cresceu muito rápido no circuito. Pelo que conheço, é um menino maduro, que tem as coisas bem claras em mente, os pés no chão e uma equipe ótima ao redor. As coisas serão muito bonitas para ele”.
Alcaraz não exagerou. A ascensão de João no circuito profissional foi objetivamente impressionante. Veja só: no final de 2023, aos 17 anos, o tenista se tornou o primeiro brasileiro campeão mundial juvenil pela Federação Internacional de Tênis (ITF) – época em que apareceu na lista da Forbes Under 30.
Um ano depois, em dezembro de 2024, João surpreendeu novamente ao ser o primeiro brasileiro campeão do Next Gen ATP Finals, torneio anual que reúne os melhores tenistas da temporada com menos de 20 anos. Para dar uma ideia da dimensão da conquista, alguns dos vencedores do mesmo torneio foram o italiano Jannik Sinner, atual segundo colocado do ranking da ATP, em 2019, e o próprio Carlos Alcaraz, em 2021. Mesmo com todas essas vitórias, João ainda era somente uma promessa no início de 2025. Mas o ano foi excepcional para ele – e o tenista virou realidade.
Em fevereiro, ainda com 18 anos de idade, João foi até a Argentina e levantou o troféu do ATP 250 de Buenos Aires. Foi o sul-americano mais jovem a ganhar o título. Depois, em outubro, veio a principal conquista da carreira até o momento. Na Suíça, ele ganhou o ATP 500 da Basileia. Com os dois títulos, João, que estava na posição 145 no ranking da ATP no início do ano, saltou para o 24° lugar. É o único tenista com menos de 20 anos no top 100 da ATP. Somente em 2025 ele acumulou mais de US$ 1.750.000 em premiações.
“As coisas foram acontecendo muito rápido na minha vida”, avalia João, em entrevista exclusiva à Forbes. “Ainda estou aprendendo a lidar com tudo isso, com ser cada vez mais reconhecido na rua, ter cada vez mais pessoas torcendo por mim. Mas é uma honra poder representar o país. Obviamente vem um pouco de pressão, mas eu sinto como uma pressão boa, que me incentiva cada vez mais a dar meu 100%.”
Os bons resultados nas quadras fizeram com que João passasse a ser mais valorizado pelo mercado publicitário. Atualmente, o tenista é patrocinado pelas marcas On, Rolex, XP Investimentos, Mercado Livre, Claro e Yonex Tennis.
“Sempre buscamos talentos promissores da próxima geração, e ele se destacou imediatamente. Tem um talento bruto incrível, claro, mas também um carisma e uma vontade de melhorar que são muito especiais”, diz Feliciano Robayna, chefe da gestão de atletas para tênis na On. “Ter uma superestrela brasileira conquistando títulos e representando a On no cenário global é incrivelmente poderoso. Além disso, os insights que obtemos de um atleta de elite como o João, que leva nossos produtos ao limite absoluto, são inestimáveis. Esse feedback retorna diretamente para nossa equipe de inovação e nos ajuda a criar produtos de melhor desempenho para todos os consumidores”, acrescenta.
Comprovando a ascensão, recentemente o tenista estrelou uma campanha publicitária do Mercado Livre ao lado do ex-jogador Ronaldo. “Vemos no João uma autenticidade rara de um atleta”, comenta Iuri Maia, diretor de estratégias de marca do Mercado Livre. “Ele consegue se conectar com a nova geração de forma genuína. Ao apoiá-lo, estamos investindo em uma trajetória que une entretenimento, cultura e tecnologia, fortalecendo nossa missão de incentivar o protagonismo e o futuro do esporte.”
“O João cresceu muito rápido no circuito. Pelo que conheço, é um menino maduro, que tem as coisas bem claras em mente, os pés no chão e uma equipe ótima ao redor. As coisas serão muito bonitas para ele.”
Carlos Alcaraz, tenista número 1 do mundo
Guilherme Benchimol, fundador e presidente do conselho da XP Investimentos, conta que teve um “namoro” de um ano e meio com João e seus pais antes de assinar o contrato de patrocínio. “A primeira vez que eu o vi jogar foi em Wimbledon, como juvenil, em 2023”, diz. Queria entender por que aquele garoto estava sendo apontado como um talento tão promissor. Ao vê-lo jogar, convenceu-se. Nas primeiras conversas com a família, ofereceu-se para ajudar na evolução de João… “e, mais para a frente, eu teria o desejo de patrociná-lo”.
Para Benchimol, João pode se tornar uma inspiração para o Brasil do calibre de Guga ou Ayrton Senna. “O Brasil é muito carente de lideranças, de pessoas que sejam verdadeiros campeões e que façam isso da forma correta”, afirma. “Quando a gente tem um grande esportista, acho que isso une o Brasil.” Além disso, a empresa se identifica com os valores de disciplina, foco, resiliência, humildade, disposição para aprender rápido. “O sucesso de um atleta faz com que o Brasil acredite mais em si próprio, e a nossa marca seja carregada nesse movimento como a empresa que tornou isso possível.”
Mente calma, tênis agressivo
As características que fizeram João escalar rapidamente no tênis profissional vão além das qualidades técnicas. Passam também pela parte emocional do atleta. “Esse menino não sente a pressão, ou sente menos do que o resto”, avalia o ex-tenista Fernando Meligeni, que chegou a ser número 25 do mundo no ranking da ATP e atualmente apresenta o programa New Balls Please, que analisa o circuito mundial. “O tênis mudou. Hoje, para ser um grande jogador, é quase inaceitável ter um problema técnico. É obrigação ter uma boa direita, uma boa esquerda. O que realmente diferencia um atleta é a percepção do jogo, a estratégia, o físico, a força, a capacidade de lidar com a pressão. E isso o João tem.”
Somados a esses diferenciais está uma excelente parte técnica. “A direita dele é absurda. Se botasse para vender em uma loja, todo mundo compraria. No preço que fosse”, conta, divertindo-se, Meligeni. “É uma das melhores direitas que eu já vi nos últimos tempos, comparável a [Juan Martín] Del Potro, a Fernando González. Quando ele entender ainda mais a escolha da bola para bater essa direita, meu Deus, sai de baixo. Ele também tem uma esquerda extremamente sólida, muito firme. Consegue bater dos dois lados, tanto na paralela quanto na cruzada. E ele consegue fazer uma coisa que grandes jogadores como o Sinner e o Alcaraz fazem, que é a mudança de direção em desequilíbrio”, diz.
O que ainda pode melhorar? “A devolução, um pouco o voleio. Mas não são coisas que preocupam”, analisa Meligeni. “O que ele mais evoluiu no ano foi o saque. Era um bom saque, mas normal. E hoje ele está transformando o saque em uma arma, ganhando vários pontos assim.”
“Nessa idade [7 anos], quando comecei a treiná-lo, João já se destacava pela coordenação motora muito acima da média para a idade, resultado da vivência multiesportiva que ele já tinha.”
Pablo Etchecoin, primeiro treinador do tenista
Quem tem ajudado João nessa evolução técnica é Guilherme Teixeira, treinador do tenista desde os 12 anos de idade. “O Gui é um cara muito trabalhador, humilde e estudioso”, avalia João. “Ele me ajuda muito não apenas tecnicamente, mas pessoalmente. Ele consegue ler as pessoas muito bem, entender a mentalidade e a personalidade de cada um, então a gente se adapta muito bem”, conta.
O técnico devolve as honrarias. “O João é muito seguro de si, convicto e tem muita clareza sobre o que ele quer”, diz Guilherme. “Com relação à parte técnica, ele tem um tênis extremamente agressivo, com uma grande capacidade de gerar potência, desde que era pequeno. Talvez a grande evolução dos últimos tempos seja ter encontrado um equilíbrio entre todo esse power e a consistência de jogo, agora ele já tem um padrão de jogo melhor, algo que se constrói com o tempo.”
Além de Guilherme como treinador, a equipe que trabalha com João ainda conta com um consultor técnico – o argentino Franco Davín, responsável por levar Gastón Gaudio ao título de Roland Garros em 2004 e Juan Martín del Potro à conquista do US Open em 2009 –, um nutricionista, um preparador físico, dois fisioterapeutas e dois médicos. E psicólogo? “Não tenho. Já tive antes, mas atualmente estou bem comigo mesmo. Talvez no futuro eu precise, e não tenho vergonha ou medo de pedir ajuda, mas agora me sinto muito bem comigo mesmo”, declara João.
Para descansar a mente em períodos de tensão, o tenista tem outras estratégias. “Em momento de competição, eu medito, faço minhas respirações diárias. E, no dia a dia, acho que tenho uma vida social muito boa, com a namorada, com os amigos, com a família, o que me ajuda muito a relaxar bastante.”
Família esportista
João Franca Guimarães Fonseca nasceu no dia 21 de agosto de 2006, em Ipanema, no Rio de Janeiro – bairro em que mora ainda hoje. A mãe, Roberta Fonseca, sempre teve uma conexão com o esporte. Quando jovem, na década de 1980, jogou vôlei nas categorias de base do Flamengo. Mais recentemente – influenciada pelo próprio João –, Roberta voltou às quadras para atuar na categoria master do time da AABB-RJ e foi campeã em 2023 do Vôlei Master 50+. Por causa da proximidade da mãe com o vôlei, aliás, João vem ganhando – de forma extraoficial – orientações do técnico bicampeão olímpico Bernardinho, que até presenteou o tenista com o livro Cabeça de Campeão, de François Ducasse.
Já o pai, Christiano Fonseca Filho, conhecido como Crico, é um dos pioneiros no mercado financeiro do Brasil, sócio-fundador da IP Capital Partners, uma das primeiras empresas de gestão de recursos do país, criada no final dos anos 1980. Além de sua carreira no setor financeiro, Crico é um entusiasta das atividades físicas, com especial apreço pelo kitesurf.

Roberta e Christiano incentivaram João a praticar esportes desde a infância. O tênis, especificamente, passou a ser parte de sua rotina aos 7 anos de idade, no Country Club do Rio de Janeiro, quando ele começou a ter aulas com Juan Pablo Etchecoin, o primeiro treinador do tenista. “Nessa idade, quando comecei a treiná-lo, João já se destacava pela coordenação motora muito acima da média para a idade, resultado da vivência multiesportiva que ele já tinha”, lembra Juan Pablo. “Mas o que realmente o diferenciava era sua leveza emocional. Enquanto outras crianças chegavam tensas ou com medo de errar, João entrava em quadra para brincar, experimentar, rir e aprender sem travas. Essa combinação de coordenação excepcional e espontaneidade pura fazia dele um garoto claramente diferente dos demais.”
“Quando a gente tem um grande esportista, acho que isso une o Brasil.”
Guilherme Benchimol, fundador e presidente do conselho da XP Investimentos
De acordo com Juan Pablo, dos 7 aos 10 anos, João treinava de duas a três vezes por semana. A partir dos 10, a intensidade aumentou para cinco treinos semanais, que incluíam duas horas de quadra, preparação física (específica para crianças), exercícios de movimentação e coordenação, estímulos para aprimorar o forehand e trabalhos de competitividade. “A evolução do João até os 12 anos foi marcada por uma raríssima união entre competitividade natural e ausência de pressão. Ele treinava ao lado de crianças mais sérias e intensas, absorvia o ritmo delas, mas transformava tudo em diversão”, conta Juan Pablo. “O progresso técnico era constante, mas o avanço mental era ainda mais impressionante: não se frustrava com os próprios erros, tentava de novo imediatamente e mantinha uma postura solta mesmo em treinos exigentes. Essa atitude acelerou seu aprendizado e construiu a base mental que hoje é uma das suas marcas no circuito.”
Juan Pablo sente que João tem tudo para chegar ao topo do tênis profissional. “Esse perfil mental – leve, competitivo e corajoso ao mesmo tempo – revelava claramente que o João tem desde pequeno o que muitos campeões têm: a cabeça certa para chegar longe”, avalia. No caminho até o topo, algumas oscilações podem acontecer, mas tudo indica que Carlos Alcaraz, o atual número 1 do mundo, esteja certo na previsão que fez para João logo após o jogo contra o brasileiro, em Miami: “As coisas serão muito bonitas para ele”.