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segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Se Você Acredita em Alienígenas, Há um Fundo de Índice Para Isso

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Existe um axioma em Wall Street segundo o qual, onde há euforia, há um ticker.

Toda mania gera seu próprio fundo negociado em bolsa (ETF) — uma espécie de piñata financeira que os investidores tentam acertar na esperança de que algum doce caia. Por isso, era apenas questão de tempo até que alguém decidisse que a próxima operação “imperdível” não estaria em inteligência artificial, energia limpa ou turismo espacial — mas sim em vida extraterrestre.

Entra em cena o Tuttle Capital UFO Disclosure ETF (ticker: UFOD), criado para ajudar investidores a “se posicionarem diante da possibilidade de confirmação governamental de que possui tecnologia não humana”. Essa frase é real e consta no prospecto do fundo. Não é exagero.

Segundo os idealizadores do produto, um evento de “divulgação de UAP” poderia desencadear uma bonança tecnológica — o tipo de oportunidade assimétrica com que investidores de varejo sonham. A tese é que, se alienígenas aparecerem na CNN sobrevoando a Times Square, os investidores migrariam instantaneamente para os “prováveis beneficiários”: Lockheed Martin, Northrop Grumman, Boeing e outros nomes do setor de defesa e aeroespacial.

Porque, claro, diante do primeiro contato com outra civilização, seu impulso imediato seria rebalancear a carteira.

Será que o investidor médio realmente pensaria: “Hum… os alienígenas chegaram. Hora de comprar ações da Boeing?” Talvez, mas parece forçado.

Não existe backtest para uma divulgação ampla sobre alienígenas. Não há simulação de Monte Carlo para “incerteza de invasão”. Mas há uma narrativa provocativa que uma gestora considera valer uma taxa de administração de 0,99% ao ano.

ETFs: as Cartas de Pokémon do Mundo Financeiro

O verdadeiro absurdo não é a criação de um ETF temático sobre OVNIs. É o fato de existirem tantos ETFs que esse tipo de exagero temático parece inevitável.

No início de 2026, o mercado americano contava com mais de 3.500 ETFs, enquanto havia cerca de 3.800 empresas listadas em bolsa. É quase uma proporção de um para um. Para cada ação disponível, agora há um ETF dedicado a ela, a seus pares ou a algum subnicho obscuro de seu modelo de negócios.

Os ETFs nasceram como inovações nobres: uma forma de investidores comuns acessarem carteiras amplas, diversificadas e de baixo custo. Mas, em algum momento do caminho, tornaram-se a versão financeira de fan fiction. Se houver uma narrativa capaz de atrair capital — tecnologia climática, bem-estar pet, investimento espiritual — alguém colocará um ticker nela.

Veja o Global X S&P 500 Catholic Values ETF (ticker: CATH). O fundo tem mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em ativos e cobra 0,29% ao ano de taxa. Mas, ao analisar sua composição, os dez principais papéis refletem os dez maiores do S&P 500. São as mesmas ações das “Magnificent Seven”, apenas com leve reorganização. A Meta Platforms, por exemplo, tem peso de 2,50% no CATH, contra 2,48% no SPDR S&P 500 ETF (SPY).

Não deixa de ser irônico que o ETF de Valores Católicos esteja ligeiramente acima do índice em uma empresa de mídia social frequentemente envolvida em controvérsias.

Talvez, em vez de comprar CATH e pagar 0,29%, um católico devoto pudesse adquirir o SPY tradicional, economizar 0,20% — e doar esse valor a uma instituição de caridade católica.

É apenas uma sugestão.

Há uma razão para a maioria dos ETFs temáticos deterem ações semelhantes: liquidez. Papéis menores e de nicho são caros para negociar e difíceis de administrar em larga escala. Assim, os patrocinadores de ETFs frequentemente recorrem a gigantes de alta liquidez, como a Meta, mesmo que essas companhias se encaixem apenas superficialmente no tema proposto.

Quer montar um ETF de “exploração espacial”? Boa sorte para encontrar cinquenta empresas puramente dedicadas ao setor que negociem mais do que alguns milhões de dólares por dia. É mais simples completar a carteira com gigantes como a Amazon (por causa de sua divisão de satélites) ou a Apple (talvez pelo GPS).

O resultado é o chamado “desvio temático” — a gradual divergência entre os ativos de um ETF temático e sua proposta original de investimento. Isso ocorre, muitas vezes, por causa da ponderação por valor de mercado, das restrições de liquidez ou da pressão por desempenho, e leva a uma exposição que não reflete o conceito inicial que o investidor pretendia adquirir. Como poucos analisam a carteira em profundidade, esse descolamento costuma passar despercebido. Você acha que está comprando robótica de nova geração, mas na prática apenas adiciona mais uma dose de Microsoft e Nvidia ao portfólio.

Em ascensão

Os ativos sob gestão em ETFs temáticos cresceram de forma expressiva, com o volume global alcançando cerca de US$ 779 bilhões (R$ 4,4 trilhões). O número representa forte alta em relação aos anos anteriores, evidenciando o interesse dos investidores. Os lançamentos continuam em ritmo acelerado, com dezenas de novos ETFs temáticos surgindo no último ano, enquanto emissores disputam a demanda ligada à inteligência artificial, energia limpa e outras tendências de destaque.

No entanto, esse avanço acelerado nem sempre foi acompanhado por uma construção de carteira rigorosa. Fundos tradicionais de gestão ativa costumam enfatizar análise fundamentalista detalhada, controle de risco e ajustes dinâmicos. Já os ETFs temáticos tendem a ser mais concentrados e a replicar passivamente índices baseados em temas, com pouca flexibilidade. Essa estrutura pode deixar o investidor exposto a avaliações infladas e excessos especulativos durante ciclos de euforia.

Ciclos de alta e queda são comuns nesse universo, e os números são contundentes. Quase metade dos fundos temáticos não chega ao décimo aniversário — simplesmente encerram as atividades. Entre os sobreviventes, menos de 20% conseguiram superar o mercado acionário global ao longo de uma década. Em um horizonte de quinze anos, a taxa de sucesso é ainda menor.

Os mercados têm memória curta e atenção limitada. Nos últimos anos, diversos temas ganharam destaque rapidamente, apenas para perder fôlego pouco depois.

Biotecnologia e genômica dispararam durante a pandemia de Covid-19, impulsionadas pela aposta em avanços científicos capazes de transformar a medicina. Na mesma época, o metaverso tornou-se uma tendência popular, com a promessa de redefinir trabalho e lazer em mundos virtuais. A cannabis também surfou uma onda de otimismo com a legalização e entusiasmo de investidores de varejo.

Em todos os casos, o padrão foi semelhante. Os ativos começaram em patamar reduzido. Depois, o capital inundou o setor. O impulso atraiu ainda mais impulso. A alta dos preços validou a narrativa. Por um tempo, parecia um movimento de mão única. Até deixar de ser.

Após o pico em 2021, os recursos vinculados a esses temas caíram com a mesma rapidez com que haviam subido. O que era apresentado como mudança estrutural e geracional transformou-se em um lembrete doloroso de que timing e valuation continuam importando no mercado de ações.

De Volta à Terra

É positivo que a inovação financeira tenha tornado os mercados mais acessíveis e eficientes. Porém, acesso sem discernimento traz riscos. ETFs temáticos, por natureza, exploram vieses psicológicos — medo de ficar de fora, fascínio por boas histórias, atração pela exclusividade.

Assim, se alienígenas pousarem amanhã, o UFOD pode disparar por alguns dias gloriosos, enquanto todos correm para comprar a “operação da divulgação”. Depois, quando a euforia passar, provavelmente voltará ao que realmente é: uma cesta de empreiteiras de defesa com valuations elevados e marketing criativo.

Acreditar em vida extraterrestre é um exercício de imaginação. Acreditar que é possível monetizar isso de forma eficiente por meio de um ETF? Isso já é um salto de proporções cósmicas.

[Fonte Original]

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