Ray Dalio alertou que a ordem estabelecida após a Segunda Guerra Mundial “oficialmente se desfez”, com o mundo entrando no que ele chama de fase da “lei da selva”, em que o poder, e não as regras, define os resultados. Investidores em cripto aproveitam o momento para reforçar a tese de ativos projetados para operar fora do controle estatal.
Em seu artigo mais recente no X, no qual descreve desordens internas e externas, o fundador da Bridgewater Associates escreveu que as grandes potências estão presas a um persistente “dilema do prisioneiro”. Elas precisam escalar conflitos ou parecer fracas em áreas como comércio, tecnologia, fluxos de capital e, cada vez mais, pontos de tensão militar, o que torna “guerras estúpidas” assustadoramente fáceis de iniciar.
Essa desordem externa tende a colidir com tensões internas, afirmou Dalio. Quando economias enfrentam dificuldades e a desigualdade aumenta, governos recorrem de forma previsível a impostos mais altos e a “grandes aumentos na oferta de dinheiro”, desvalorizando ativos existentes em vez de declarar inadimplências explícitas.
Esse conjunto de fatores costuma favorecer ativos apolíticos como o Bitcoin (BTC) e o ouro. A tese defendida por entusiastas de cripto é direta: à medida que governos intensificam o uso de sanções, congelamento de ativos e expansão monetária, investidores tendem a buscar ativos que possam ser mantidos e transferidos sem depender de bancos ou sistemas de pagamento controlados pelo Estado.
Dados de liquidez favorecem ativos escassos
Dados da Econovis indicam que a oferta monetária global ampla subiu para uma estimativa de US$ 142 trilhões em 2025, ante US$ 26 trilhões em 2000.
Segundo o ex-gestor de fundos conhecido como Asymmetry, todas as grandes altas do BTC coincidiram com expansão do M2, e “a próxima onda está se formando”.

Os preços do ouro também acompanharam, em geral, a oferta monetária M2 dos EUA, refletindo o status do metal precioso como proteção tradicional contra a expansão monetária.

Tese de alta para dinheiro neutro
A análise de Dalio também destaca como Estados utilizam congelamento de ativos, restrições a mercados de capitais e embargos como táticas recorrentes, evidenciando o quanto poupanças e sistemas de pagamento tradicionais dependem de decisões políticas e riscos jurisdicionais. Isso recoloca em evidência a tese de um dinheiro apolítico e sem fronteiras.
O CEO da Bitwise, Hunter Horsley, resumiu a visão de parte da comunidade cripto ao comentar: “Alguém está trabalhando em ativos monetários globais, sem permissão e apolíticos, além de infraestruturas financeiras? Pode ser importante.”
A Asymmetry fez observação semelhante sob a ótica de portfólio, argumentando que o cenário descrito por Dalio, uma ordem mundial fragmentada combinada ao que analistas macro como Lyn Alden e Luke Gromen chamam de dominância fiscal, quando a necessidade de financiamento do governo passa a ditar a política do banco central, configura “o ambiente estruturalmente mais favorável para ativos escassos em 80 anos”.
Ainda assim, o alerta de Dalio não representa uma previsão direta para o Bitcoin, e a tese de investimento em cripto permanece sensível a diversos fatores, incluindo juros, regulação, liquidez de mercado e apetite por risco. O que suas declarações oferecem é uma narrativa macroeconômica clara que muitos no mercado cripto utilizam para sustentar que a demanda por “dinheiro neutro” pode crescer em um mundo cada vez mais fragmentado.