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Crítica | Estranhas Aventuras (2020 – 2021) – Plano Crítico

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Não demorou para Tom King especializar-se em sua escolha de personagens e em formato de histórias para a DC Comics: super-heróis menos explorados da editora em maxisséries de 12 edições. Os Ômega Men funcionou como sua estreia nesse caminho e a seguinte, Senhor Milagre, não demorou a despontar com consistência na lista de melhores HQs mainstream dos anos 2000 e isso tudo enquanto escrevia suas mensais e minisséries mais curtas como Superman: Para o Alto e Avante. Sua terceira maxissérie no “padrão Tom King” foi Estranhas Aventuras que, com seu título extraído da famosa publicação da DC Strange Adventures, faz um trocadilho com seu protagonista, o herói de dois mundos Adam Strange, criado em 1958 por Julius Schwartz, Murphy Anderson, Gardner Fox e Mike Sekowsky, e que se caracteriza por um homem comum da Terra – um arqueólogo para ser preciso – que é subitamente transportado de um sítio arqueológico no Peru para o planeta Rann, por operação do instável Raio Zeta, tornando-se o campeão daquele planeta e casando-se com Alanna, mesmo sendo obrigado, de tempos em tempos e de maneira aleatória, a retornar a seu planeta natal.

Em Estranhas Aventuras, vemos Adam Strange, já estabelecido como grande herói tanto em Rann quanto na Terra, mas morando na Terra com Alanna, autografando seu livro – com o mesmo título da graphic novel – que conta a história de como ele defendeu seu planeta adotivo do ataque destrutivo dos Pykkts, uma força invasora imparável. Não demora e um de seus fãs é suspeitamente assassinado, colocando uma sombra de dúvida sobre não só seu caráter, como tudo o que ele contou que fez em Rann, com o Senhor Incrível pela sua capacidade mental e por sua imparcialidade, sendo designado pela Liga da Justiça para investigar o ocorrido. Trata-se de uma premissa intrigante, daquelas que captura a atenção do leitor imediatamente, com o desenvolvimento da narrativa enveredando por questões cada vez mais complexas que abordam o controle da narrativa, a apropriação da fama e do sucesso para manipular as massas, colonialismo, preconceito racial, paranoia, intriga política e, claro, a guerra não só como instrumento de dominação, mas também de criação de lendas que alimentam a já citada manipulação midiática.

Essa história é contada em dois momentos temporais muito distintos narrativa e visualmente. O primeiro deles, no presente, parte do gatilho narrativo do assassinato do fã de Adam Strange que citei e a investigação do ocorrido pelo Senhor Incrível, com a arte de traços mais realistas de Mitch Gerads, em sua terceira parceria com Tom King, pontuando a gravidade do que é discutido e lentamente revelado. O segundo é o passado, basicamente aquilo que é contado no livro de memórias de Adam Strange, que, por isso, ganha os traços limpos e heroicos de Evan Shaner, como um exemplo da “história contada por quem ganhou a guerra” que tanto conhecemos na vida real desde Heródoto. Essa escolha narrativa que intercala presente e passado, visão romantizada e visão real, como dois lados de uma mesma moeda, pode parecer um instrumento que beneficia o didatismo exacerbado, que já na largada pede ao leitor para duvidar de tudo o que é dito, mas tenho para mim que ela funciona muito bem, criando um bem-vindo e literal “choque de realidade” de duas verdades que, aos poucos, vão convergindo em uma só.

Como é padrão nos trabalhos dessa natureza de Tom King, não há pressa para nada. O roteirista caminha vagarosamente pelos meandros de sua narrativa dando crescente destaque não a Adam Strange exatamente, mas sim à Alanna e, em seguida, ao Senhor Incrível, como forças opostas, uma manipuladora e outra que insiste no mergulho profundo de uma verdade que parece escondida debaixo de toneladas de destroços de uma guerra de escala global. Mesmo gostando da queima lenta de King, creio que tenha sido em Estranhas Aventuras que eu mais senti o peso dela que parece oferecer mínimos incrementos ao longo das 12 edições de um whodunnit divertido e complexo, mas inafastavelmente verborrágico. Essa questão tornou-se mais evidente, para mim, na forma como o Senhor Incrível é abordado, com o personagem por mais vezes do que saudável para a história parecendo um coadjuvante que não tem muito o que fazer a não ser verbalmente colocar em dúvida o que vê e o que pesquisa. É como se Arthur Conan Doyle deixasse seu Sherlock Holmes no segundo plano por metade da duração dos livros, para somente elevá-lo ao posto que merece na metade final.

Não é, porém, uma falha mortal, pois, primeiro, é necessário compreender que essas histórias de King não são para ser lidas direto, mas sim degustadas ao longo de vários dias, talvez semanas. Há muita informação e muito a ser explorado temática e visualmente pelo leitor que desejar mais do que “ticar” uma lista de leituras. Depois, King escreve para adultos, o que é uma característica rara em roteiristas de super-heróis das duas maiores editoras de quadrinhos dos EUA. Portanto, é uma leitura realmente madura que, apesar de obviamente poder ser lido por mais jovens, talvez só seja aproveitada como deve por aqueles com alguma bagagem de vida. E, finalmente, a história é genuinamente interessante em todos os seus aspectos, seja a natureza da verdade, algo particularmente importante no mundo pós-verdade em que vivemos, seja a maneira indireta como ela aborda o imperialismo e a sana conquistadora em todos os seus níveis que faz do jogo político um efetivo jogo de tabuleiro com peças sendo posicionadas por mãos invisíveis de poder.

Estranhas Aventuras pode não chegar ao nível estratosférico de qualidade de O Xerife da Babilõnia, Visão e, especialmente, Senhor Milagre, mas Tom King mais uma vez acerta no alvo ao criar um fascinante mistério de dois mundos que desafia o leitor e até mesmo o conceito de super-herói. Pode ser que os mais puristas – sempre eles! – não gostem do que King faz com Adam Strange, mas é justamente essa liberdade dada ao autor para mexer em personagens de escalões mais baixos, com a canonização ou não dos eventos contados, que abre espaço para o roteirista fazer o que precisa fazer para contar histórias relevantes, atuais e que projetam o nosso mundo na ficção em quadrinhos.

Estranhas Aventuras (Strange Adventures – EUA, 2020/21)
Contendo: Strange Adventures #1 a 12
Roteiro: Tom King
Arte: Mitch Gerads, Evan Shaner
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Brittany Holzherr, Jamie S. Rich
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: março de 2020 a outubro de 2021
Editora no Brasil: Editora Panini
Datas de publicação no Brasil: abril e dezembro de 2021
Páginas: 388



[Fonte Original]

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