27.5 C
Brasília
quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Noites tinham primeiro e segundo turno de sono – como o intervalo se perdeu

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Siga o Olhar Digital no Google Discover

Dormir oito horas seguidas é mais um hábito moderno do que uma regra biológica. Durante séculos, muitas pessoas acordavam no meio da noite e depois voltavam a dormir, um padrão que hoje nos parece estranho, mas era comum.

Historicamente, o sono noturno era dividido em dois períodos chamados “primeiro sono” e “segundo sono”. Cada etapa durava várias horas e era separada por um intervalo de vigília de uma hora ou mais.

Registros de diferentes partes do mundo mostram que, após o anoitecer, famílias iam dormir cedo e acordavam por volta da meia-noite. Nesse intervalo, permaneciam acordadas antes de voltar a dormir até o amanhecer.

Dormir durante oito ou mais horas seguidas à noite é um hábito relativamente recente em diversas sociedades pelo mundo. Créito: Shutterstock/Ground Picture

Esse intervalo de vigília não era visto como perda de tempo. Pelo contrário, marcava o centro da noite, ajudando as pessoas a lidar com longos períodos de escuridão, especialmente no inverno.

Durante esse tempo, algumas pessoas cuidavam de tarefas domésticas ou dos animais. Outras rezavam, refletiam sobre sonhos ou liam. Cartas e diários antigos também registram momentos de socialização entre vizinhos e familiares. E, claro, casais aproveitavam a hora para a intimidade.

Como perdemos o ‘segundo sono’

O desaparecimento do segundo sono ocorreu nos últimos 200 anos, influenciado por mudanças sociais e tecnológicas. A iluminação artificial foi decisiva. Primeiro com lâmpadas a óleo, depois gás e luz elétrica, a noite passou a ser mais aproveitável para atividades, adiando o horário de dormir.

A luz intensa durante a noite também afeta nosso ritmo biológico. Ela atrasa a produção de melatonina, o hormônio do sono, dificultando o despertar natural no meio da noite.

A luz intensa à noite atrasa a produção de melatonina, desregula o ritmo biológico e dificulta o despertar natural durante o sono. Crédito: Hermanthos – Shutterstock

A Revolução Industrial também mudou os horários de descanso. O trabalho em fábricas incentivava um sono contínuo. No início do século XX, a ideia de oito horas ininterruptas se consolidou, substituindo os ciclos antigos.

Estudos mostram que, sem relógios ou luz artificial, o padrão do sono bifásico ainda se manifesta. Pesquisadores observaram isso em laboratórios de isolamento e em comunidades rurais de Madagascar sem eletricidade, onde as pessoas continuavam acordando por volta da meia-noite.

Leia mais:

Invernos longos e percepção do tempo

A luz regula o relógio biológico e influencia como percebemos o tempo. No inverno, a luz da manhã chega mais tarde e é fraca, dificultando o alinhamento do ritmo circadiano. Esse efeito é mais intenso em regiões polares, onde o sol pode não nascer ou se pôr por semanas.

Estudos com populações nativas de altas latitudes mostram que rotinas diárias estáveis ajudam a lidar melhor com longos períodos de escuridão. Pesquisas com islandeses e seus descendentes no Canadá indicam que genética e hábitos comunitários reduzem transtornos como a depressão sazonal.

Pesquisas do Laboratório de Cognição Temporal Ambiental da Universidade de Keele mostram que pouca luz prolonga a percepção do tempo. Em experiências com realidade virtual, participantes perceberam intervalos curtos como mais longos em cenas noturnas ou escuras.

Você costuma acordar no meio da madrugada? Sem os costumes de vigília dos antepassados, despertar às 3h pode parecer mais longo e estressante. Crédito: Cat Box – Shutterstock

Uma nova perspectiva sobre a insônia

Despertares breves são normais, especialmente perto do sono REM, associado a sonhos vívidos. O que muda a percepção é a reação ao despertar. Ansiedade, tédio ou pouca luz aumentam a sensação de duração do tempo, enquanto calma e envolvimento a reduzem.

Sem ocupar o tempo de vigília como faziam nossos antepassados, acordar às 3h da manhã pode parecer mais longo e estressante. Por isso, técnicas modernas recomendam sair da cama após cerca de 20 minutos acordado e realizar atividades tranquilas com pouca luz, como ler.

Especialistas também sugerem esconder o relógio e não medir o tempo durante a insônia. Aceitar o estado de vigília e entender como a mente percebe o tempo pode ser a forma mais eficiente e segura de retomar o descanso.

Em um artigo publicado no site The Conversation, Darren Rhodes, professor de Psicologia Cognitiva e diretor do Laboratório de Cognição Temporal Ambiental da Universidade de Keele, no Reino Unido, destaca ainda que entender o sono bifásico pode ajudar a normalizar despertares noturnos, reduzindo a ansiedade sobre o que hoje chamamos de insônia.


[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img