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quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Epstein e o “espelho de Jessé” – Revista Cult

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Enquanto inúmeros profissionais responsáveis, nos Estados Unidos e no resto do mundo – juristas, políticos, jornalistas e acadêmicos –, se debruçam sobre a árdua tarefa de analisar as milhões de páginas e as informações divulgadas sobre os Arquivos Epstein, intelectuais influencers capitalizam o escândalo divulgando teorias da conspiração, angariando likes e aumentando seu número de seguidores nas redes sociais.

O que choca tanto a opinião pública no caso Epstein? Um milionário estadunidense agenciava uma rede de prostituição feminina para outros milionários, políticos e empresários influentes dos Estados Unidos e de outros países. Porém, o detalhe especialmente nauseante é que Jeffrey Epstein – com apoio de algumas mulheres cúmplices – oferecia aos seus clientes meninas, crianças e adolescentes, o que o torna um criminoso em série: um pedófilo satisfazendo outros pedófilos, ou homens poderosos transformados em pedófilos por aceitarem sua “oferta”. É sórdido, evidentemente.

Se a exploração do trabalho sexual de mulheres já caracterizaria “mais-valia” de um homem sobre seus corpos, o que pensar de quem converte crianças e adolescentes em objeto – de quem as submete a homens que aplacam sua ânsia em afirmar poder ilimitado humilhando vulneráveis?

Ora, a prostituição infantil e adolescente não é estranha ao que ocorre em muitos destinos turísticos do Brasil – com destaque para as regiões Nordeste e Norte, onde a desigualdade econômica, a miséria e a falta de oportunidades são ainda maiores do que no resto do país. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania se empenha em combater essas práticas, e em alguns hotéis, bares e restaurantes dessas capitais, pode-se ver cartazes que alertam contra o abuso sexual contra menores. Em outros países menos ricos (nas Américas, na África, na Ásia e até na Europa), acontece o mesmo.

Nesse sentido, o caso Epstein funciona, efetivamente, como aqueles espelhos de parques de diversão que acentuam as formas de quem o mira, caricaturando a condição humana. O “espelho de Epstein”, por sua vez, mais próprio de um trem fantasma ou de uma casa dos horrores, caricatura a condição masculina e a opressão feminina, já que o que nele se vê é o machismo monstruoso – capaz de violar, torturar e matar mulheres – que vigora no regime patriarcal onipresente nos quatro cantos do mundo. Cada homem (e, inclusive, cada mulher) imerso na cultura falocêntrica, horroriza-se porque reconhece uma obscura parte de si mesmo refletida no “espelho de Epstein”.

Não se trata, portanto, de privilégio estadunidense, mas de práticas de abuso generalizado voltadas às mulheres – o que independe de idade, cor, religião. Ou seja: homens tem prazer especial em abusar de mulheres, quando não de matá-las. A publicidade que o caso Epstein ganhou está diretamente ligada ao fato de envolver importantes personalidades da vida política e artística (com destaque para o presidente Donald Trump) e por ter ocorrido em solo estadunidense, onde acreditava-se, até recentemente, que os direitos humanos estariam protegidos. A situação agrava-se ainda mais quando se descobre que o negócio de Epstein era uma espécie de segredo de polichinelo nas altas cúpulas da governança do país. Muitos sabiam o que se passava e eram, de uma forma de outra, cúmplices. É isso o que torna o caso tão espetacular, e não o fato de envolver violência em série contra mulheres, crianças e adolescentes; isso, por si só, talvez não fosse matéria suficiente para catalizar a opinião pública mundial.

Tal evidência passou despercebida por vários intelectuais com visibilidade nas redes sociais, homens na maioria. Um vídeo divulgado (e logo apagado) pelo sociólogo Jessé Souza, porém, foi o mais escandaloso – pelo forte teor paranoico e antissemita. Sem abordar a problemática de gênero, crucial em qualquer análise do caso, o sociólogo preferiu adotar a versão de que Epstein, por ser judeu, era agente secreto do Mossad e operava a serviço do sionismo. A teoria conspiratória postulava que, ao envolver políticos, o Mossad teria elementos para chantageá-los depois, submetendo-os aos interesses do Estado de Israel.

Diz Jessé Souza no início do vídeo divulgado no Instagram: “Epstein não é um caso isolado de perversidade e maldade humana.” Se o sociólogo continuasse desse ponto evocando os horrores promovidos pela violência de gênero em todo o mundo, teria prestado um bom serviço a seus seguidores e à causa dos direitos da mulheres, sobretudo em um país no qual o feminicídio tornou-se epidêmico. Não foi isso, entretanto, o que aconteceu. Para o estarrecimento das pessoas minimamente esclarecidas que assistiram o vídeo, na sequência o influencer afirma: “Epstein é o produto mais perfeito do sionismo judaico. Ele não só foi financiado pelo lobby judaico – Mossad, Rotschild – mas o sionismo é a força motriz por trás de todos os crimes que foram cometidos. A rede industrial de pedofilia só existia para servir depois para chantagem de Israel […]”. Souza não deixou também de evocar o Holocausto: “O holocausto judeu foi cafetinado [sic] pelo sionismo com a ajuda de Hollywood e de toda a mídia mundial dominada pelo lobby judaico para acusar de antissemitismo qualquer crítica a Israel.” Mais adiante outro clichê de antissemitismo, da idade média à Alemanha de Hitler: judeus assassinos de crianças. “Assim como Israel, Epstein matava e violava meninas e meninos americanos e de outros lugares por uma autorização tácita, e às vezes explícita, do poder do lobby judaico no mundo. Epstein é o melhor reflexo do supremacismo racial judaico e sionista.” Ao final, vê-se o semblante orgulhoso de quem crê ter enunciado a Grande Verdade, só acessível aos iniciados ou aos seres superiores que usufruem de informação privilegiada.

O sociólogo se apresenta como autoridade. Tem doutorado no exterior, leciona na Universidade Federal do ABC e em 2015 foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No entanto, a vida intelectual e acadêmica tem como princípio, efetivamente, a busca pela verdade – por isso, dissertações de mestrado ou teses de doutorado devem se basear na demonstração das hipóteses levantadas e na discussão crítica de referências reconhecidas pela comunidade internacional. A “opinião” pessoal vale pouco; rumores preconceituosos ou fake news, nada. Somente depõem contra a reputação daquele que as transmite. Assim, que paixão aberrante teria levado o sociólogo a ganhar destaque não pela análise consistente de um caso exemplar de violência de gênero e exploração sexual de menores imiscuídas com a esfera política, mas, sim, pela generalização (Epstein igual a judeu igual a lobby sionista), pelo reducionismo totalitário (“o sionismo é a força motriz por trás de todos os crimes que foram cometidos”), pelo preconceito e pelo ódio antissemita (“Epstein matava e violava meninas e meninos americanos e de outros lugares por uma autorização tácita, e às vezes explícita, do poder do lobby judaico no mundo”)?

Jessé Souza é sociólogo e estudou na Alemanha, é provável que tenha lido teoria crítica o suficiente para saber como o antissemitismo vem sendo utilizado, desde a modernidade, para a captura das paixões políticas com a finalidade de manipulação das massas. Jessé Souza é homem, deveria identificar a parcela de machismo que constituiu seus modos de subjetivação. No entanto, ao invés de reconhecer no “espelho de Epstein” a brutalidade patriarcal que fez com que homens poderosos constituíssem um bando mafioso depravado a violentar mulheres, crianças e adolescentes, preferiu o caminho de projetar, de modo paranoico, o mal na figura do judeu – na esteira da destruição de Gaza pelo governo de Benjamin Netanyahu e do incremento mundial do antissemitismo –, com o intuito de angariar likes e seus benefícios secundários nas redes sociais.

Jessé Souza escolheu, assim, colocar-se face a um espelho virtuoso, que o desgenerificou, absolvendo-o de todo e qualquer machismo, projetando no judeu demonizado o horror que se experimenta ao se defrontar com a perversidade masculina exposta a céu aberto pelo “espelho de Epstein”. No espelho de Jessé, o que se vê é um sujeito moralmente superior, um homem acima de qualquer suspeita, um intelectual detentor de um saber escatológico acessível somente aos iniciados, amado na razão dos milhares de seguidores que consegue angariar nas redes sociais por meio do discurso de ódio. No “espelho de Jessé” o que se vê é um cidadão probo, imaculado, que carrega nas costas somente um único pecado, aquele que sempre foi considerado inocente, merecedor de toda a indulgência e de todo perdão: o antissemitismo.

Quem nunca o cometeu que atire a primeira pedra.



[Fonte Original]

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