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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Crítica | Roma (2005) – 1ª Temporada – Plano Crítico

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A primeira temporada de Roma, produzida pela HBO e exibida em 2005, permanece como uma das experiências mais ambiciosas e singulares da televisão histórica. Não apenas pelo orçamento vultoso ou pela reconstrução material do mundo antigo, mas pela decisão criativa que sustenta toda a série: contar a queda da República Romana não apenas a partir dos grandes homens que a História consagrou, mas principalmente a partir da fricção constante entre o poder e aqueles que vivem sob ele.

A equipe criativa estrutura a temporada como uma crônica de desagregação. Desde o episódio de abertura, The Stolen Eagle, a série deixa claro que a República já está morta e o que acompanhamos é apenas o tempo que o corpo leva para cair. O retorno de César (Ciarán Hinds) da Gália, carregando glória militar e tragédias pessoais, não inaugura um conflito; ele o escancara. A disputa com Pompeu não é apresentada como um choque entre ideologias, mas como uma guerra de vaidades, medos e conveniências políticas, em que ninguém luta por princípios abstratos; luta-se por poder, por legado ou simplesmente para não ser esmagado.

Essa visão profundamente materialista da política é um dos maiores trunfos da temporada. O Senado não é um espaço de virtude republicana, mas um teatro de interesses, chantagens e acordos frágeis. Cícero, Cato, Brutus e Scipio aparecem menos como guardiões da República e mais como homens tentando preservar um sistema que já não atende nem mesmo a eles. Pompeu (Kenneth Cranham), vivido com dignidade melancólica, é talvez o personagem histórico mais trágico do primeiro ano: um general que venceu todas as guerras, exceto a do tempo. Sua hesitação constante, sua tentativa de agir “corretamente” em um mundo que já não recompensa a correção, o condena desde cedo.

César, por outro lado, é retratado de forma notavelmente sóbria. Longe da figura messiânica ou do tirano unidimensional, ele surge como um político pragmático, consciente de sua imagem e perfeitamente disposto a dobrar regras quando necessário. Roma nunca o absolve moralmente, mas tampouco o demoniza. Ele é apresentado como o produto lógico de um sistema em colapso, alguém que entende que, em um mundo governado por hipocrisia institucional, a força é apenas mais uma linguagem política.

No entanto, o verdadeiro coração da temporada não está nos palácios nem nas tendas militares, mas em Lucius Vorenus (Kevin McKidd) e Titus Pullo (Ray Stevenson). Esses dois soldados, inspirados em figuras quase anedóticas dos Comentários sobre a Guerra da Gália, funcionam como âncoras morais e emocionais da série. A genialidade da proposta está em observar grandes eventos históricos através de homens que não os controlam, mas que sofrem diretamente suas consequências. Cada decisão tomada no alto escalão reverbera brutalmente na vida deles (e muitas vezes vice-versa, numa ironia divertida da trama, sempre inserindo-os em grandes eventos históricos).

Vorenus é o retrato do homem esmagado pela transição histórica. Devoto da República, rígido em seus princípios e obcecado por honra, ele retorna a Roma para descobrir que seu mundo não existe mais. Sua tragédia é íntima e política ao mesmo tempo: incapaz de se adaptar à nova ordem, ele perde o controle sobre sua família, sua posição social e, por fim, sobre si mesmo. A revelação do segredo de Niobe (Indira Varma) e sua morte no episódio final não são apenas um golpe melodramático, mas a culminação lógica de uma vida fundada em valores que já não encontram lugar naquele mundo. Vorenus não é punido por ser mau, mas por ser inflexível.

Pullo, em contraste, é pura sobrevivência. Instintivo, violento, hedonista e surpreendentemente afetuoso, ele se adapta com facilidade às mudanças porque nunca acreditou verdadeiramente em ideais maiores. Sua jornada é menos trágica e mais irônica: Pullo prospera justamente por não exigir coerência moral do mundo. Ainda assim, a série não o romantiza. Sua relação com violência, sexo e poder é retratada como sintoma de uma sociedade brutalizada, não como libertação. Pullo vive, mas vive à margem, sempre um erro longe da ruína e sempre pronto para nos entregar gargalhadas entre rampantes sanguinários. 

O contraste entre os dois transforma a temporada em um estudo brilhante sobre como diferentes tipos de homens reagem ao colapso romano. A obra sugere que não há resposta correta, tanto a rigidez de Vorenus quanto a fluidez moral de Pullo cobram preços altíssimos. O mundo novo que surge não recompensa virtude nem perdoa fraqueza, apenas consome.

Atia dos Júlios (Polly Walker) é outro pilar fundamental da temporada. Longe da caricatura da vilã manipuladora, ela encarna a política doméstica em sua forma mais cruel. Atia compreende, talvez melhor do que qualquer outro personagem, que o poder em Roma passa pelo controle de alianças, reputações e corpos. Sua rivalidade com Servília (Lindsay Duncan) é menos pessoal do que estrutural: duas mulheres tentando exercer influência em um sistema que oficialmente as exclui, mas que depende profundamente de suas articulações. A humilhação pública de Servília e a vingança que se inicia ali estabelecem um dos fios mais sombrios da temporada, culminando em consequências devastadoras.

A ambientação de Roma merece destaque não apenas pelo realismo visual, mas pela filosofia que a sustenta. A cidade é suja, barulhenta, superpovoada, sensual e violenta. Não há idealização do passado. A Roma da HBO é um organismo vivo e doente, onde religião, sexo, política e violência coexistem sem hierarquia moral clara. O cotidiano é tão importante quanto as batalhas. A série entende que impérios não caem apenas no campo de guerra, mas nas casas, nos mercados, nas vielas e nos templos.

A estrutura episódica da temporada acompanha esse movimento com inteligência. Episódios mostram grandes eventos históricos, mas sempre filtrados pela experiência subjetiva dos personagens. A Batalha de Farsalos, por exemplo, é menos sobre estratégia militar e mais sobre destino; a percepção de Pompeu de que já perdeu, mesmo antes do confronto. Já a passagem pelo Egito, com a introdução de Cleópatra (Lyndsey Marshal), funciona como um lembrete de que o mundo romano é apenas parte de um tabuleiro muito maior.

O episódio final da temporada sintetiza magistralmente a proposta da obra. O assassinato de César não é apresentado como clímax heroico, mas como ato caótico, rápido e quase banal. Não há catarse, apenas a sensação de que algo irreversível aconteceu e de que as consequências serão ainda piores. A morte de Niobe, em paralelo, reforça essa ideia: a História não distingue tragédias públicas de privadas. Ambas são igualmente devastadoras.

Ao final de sua primeira temporada, Roma se impõe como uma obra adulta, amarga e profundamente cética. Não há nostalgia pela República, nem celebração do Império que se anuncia. O que existe é um retrato implacável de uma sociedade em transição, onde valores antigos apodrecem mais rápido do que novos conseguem nascer. É uma série sobre o fim das ilusões políticas e sobre o custo humano de se viver em tempos de mudança radical, com surpreendentes toques de humor com a dupla principal.

Mesmo hoje, Roma impressiona não apenas pela escala, mas pela clareza de sua visão. Ao recusar simplificações morais e ao tratar a História como um processo violento e desordenado, a série constrói algo raro: um épico que entende que o verdadeiro drama não está nos vencedores, mas nos que precisam aprender a sobreviver aos escombros deixados por eles.

Roma (Rome) – 1ª Temporada — EUA, 2005
Criação: John Milius, William J. MacDonald, Bruno Heller
Direção: Michael Apted, Julian Farino, Allen Coulter, Alan Poul, Tim Van Patten, Steve Shill, Jeremy Podeswa, Alan Taylor, Mikael Salomon
Roteiro: Bruno Heller, John Milius, David Frankel, William J. MacDonald, Alexandra Cunningham, Adrian Hodges
Elenco: Kevin McKidd, Ray Stevenson, Polly Walker, Ciarán Hinds, Kenneth Cranham, Lindsay Duncan, Tobias Menzies, Kerry Condon, Karl Johnson, Indira Varma, David Bamber, Max Pirkis, Lee Boardman, Nicholas Woodeson, Suzanne Bertish, Paul Jesson, James Purefoy
Duração: 615 min. (12 episódios)



[Fonte Original]

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