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terça-feira, março 17, 2026

Karim Aïnouz: “O lugar do feminino, em meu novo filme, é o lugar da ruptura e da esperança” – Revista Cult

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Em seu décimo longa-metragem de ficção, o cineasta cearense Karim Aïnouz dirigiu o filme que considera “o mais louco” de sua carreira. “Só assistindo para entender”, continua ele – ao tratar de Rosebush Pruning, selecionado para a competição oficial do Festival de Berlim. Em linhas gerais, o filme acompanha uma família americana autoexilada na Catalunha. São quatro irmãos e o pai, cego e autoritário, que não fazem nada. Até que o filho mais velho arruma uma namorada, cuja chegada vai desestabilizar um ambiente que já não é tranquilo.

Rosebush Pruning é uma releitura de De Punhos Cerrados (1965), primeiro filme do cineasta italiano Marco Bellocchio e que inspira Aïnouz a tratar do patriarcado: tema que marcou seus recentes trabalhos. Sua intenção não é a de chocar, mas – a partir de uma ironia ácida – criticar as estruturas de uma sociedade que se agarra no consumo. Aos 60 anos e há mais de dez morando na Alemanha, Aïnouz dirigiu longas marcantes como Madame Satã (sua estreia, em 2002), O Céu de Suely (2006), Praia do Futuro (2014) e A Vida Invisível (2019).

Rosebush Pruning é seu segundo filme dirigido em inglês, depois de Firebrand (2023). O cineasta conversou por zoom com a Cult.

O que é que atrai você, primeiro, em um projeto?
O tema central do filme é o que primeiro me atrai, seguido do personagem. Preciso ter a certeza de que meu personagem é relevante para os nossos tempos. Finalmente, a história, a trama – e, mais recentemente, percebi que adaptações não me interessam tanto quanto roteiros originais.

Você já disse que considera Rosebush Pruning o filme mais louco da sua carreira. Por qual motivo?
O filme nasceu de um desejo de trabalhar a figura masculina. Depois de A Vida Invisível, fiquei curioso sobre um lugar que não fosse exatamente minha zona de conforto; daí a figura masculina do patriarca. Passei muito tempo fazendo filmes sobre personagens femininas, até eu desejar um projeto que falasse sobre família. Estávamos na época da pandemia de Covid e, como estávamos todos presos em casa, pensei em fazer uma história sobre uma família a partir de um patriarca. Eu tinha revisto De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio, e fiquei impressionado com o frescor da história sobre uma família que mora em uma mansão claustrofóbica – até que o protagonista é dominado pela loucura e deseja matar todos.

Não é um remake, certo?
Não. É inspirado no longa de Bellocchio, que me apresentou um roteirista grego, Efthimis Filippou, que, por sua vez, me apresentou um olhar incrível sobre o filme de Bellocchio. Juntos, mudamos uma peça do quebra-cabeça do longa italiano: trocar o papel da mãe pelo do pai. Filippou apresentou uma surpreendente primeira versão do roteiro, uma sátira, uma versão muito livre do original. Eu sempre quis fazer um filme que provocasse risadas nas pessoas, mas não de maneira fácil, não dos personagens – mas das situações. Ao estilo de um bom roteirista grego, Filippou segue uma linha clássica, mas com cenas muito malucas. Um exemplo: a mãe é devorada por lobos. Ou seja: é uma espécie de fábula, com diálogos irreverentes e que se passa nos dias atuais.

Os criadores gregos têm se destacado pela crítica social profunda e um olhar satírico, desconfortável, mas sempre tocando na ferida.
Eles adotam também um tom operístico, acima do naturalismo. O Efthimis Filippou é um ator de teatro; como roteirista, ele trabalhou em cinco filmes do cineasta Yorgos Lanthimos. E seu olhar tem muitos pontos de contato com a nossa realidade no hemisfério sul.

Dinâmicas familiares são muito caras a seu cinema desde os primeiros filmes, como O Céu de Suely.
E não foi planejado. Mesmo Madame Satã traz um olhar para uma família não ortodoxa: uma família formada no afeto. E O Céu de Suely traz uma família formada na solidariedade, foi a primeira vez que olhei para um grupo da classe alta. O filme fala da branquidade do privilégio. E, além da questão da família lembrada por você, vejo em retrospecto outro assunto que me inspira. É o que chamo de “trilogia dos monstros humanos”. Começou em 2023 com Firebrand: meu primeiro projeto em língua inglesa, que trazia Henrique VIII como uma espécie de monstro monárquico, escolhido por Deus, mas absolutamente complexo e fascinante. Já Motel Destino, de 2024, traz Elias, interpretado por Fábio Assunção, que é um dono de motel perigoso e machista – personagem disruptivo, venenoso, complicado e complexo. E, agora em Rosebush Pruning, há o personagem do pai: absolutamente corrosivo, perigoso e, também, engraçado. Acredito que esgotei o tema do patriarcado.

Você sempre trata bem as mulheres em suas histórias. Qual é o lugar do feminino no novo filme?
É o lugar da ruptura e da esperança. A emancipação da mãe dessa família faz com que a história, de fato, comece a acontecer. O feminino está presente quase como um disparo, não só pelo papel da mãe; essa família tradicional começa a desmoronar com a chegada da namorada do filho mais velho, que vem para bagunçar o coreto. A função do feminino, portanto, é questionar o status quo e propor um outro estado de coisas: mais abstrato.

Fale sobre seu trabalho de direção em Rosebush Pruning. Seus filmes têm detalhes reveladores na interpretação: o olhar, o riso, o caminhar. Como foi novamente dirigir um elenco estrangeiro?
Esse foi o primeiro filme dirigido por mim em que pedi aos atores para não mudarem nenhuma palavra do roteiro: porque os diálogos são abundantes, mas são ágeis e ferinos. Meu desafio foi deixar a ação maior que o diálogo, que funciona como a âncora das cenas. É um filme sem improvisações. Por sorte, tive tempo para ensaiar durante duas semanas – mesmo sendo um elenco internacional com muitos compromissos. Foi possível, assim, desenterrar, de cada cena, o que estava vivo. Tratei o elenco como se fosse uma trupe de teatro e, como cerca de 70% da história se passa dentro de uma mansão, trabalhei com imersão.

O filme de Bellocchio foi inspirador de alguma forma?
É um longa emblemático; fiquei impressionado com a inconsequência controlada da direção – e também com a liberdade com que ele tratou de um tema bastante delicado (sem se prender a padrões), que é a relação do privilégio com o isolamento e como isso gera consequências tóxicas. Bellocchio trata de possibilidades de mudanças que podem ser abruptas, mas também significativas. Na verdade, eu me inspirei mais em dois outros filmes. Primeiro, Teorema (1968), clássico de Pier Paolo Pasolini: que mostra como um visitante sem nome desorganiza uma família neurótico-burguesa por meio da sedução. Em meu longa, a personagem de Elle Fanning é quem chega para corroer essa estrutura burguesa clássica. O outro filme é Killer Joe – Matador de Aluguel (2011), dirigido por William Friedkin: um suspense gótico inspirado, justamente, em uma peça escrita por Tracy Letts, que faz o papel do pai no meu filme. Nem contei para ele nos primeiros encontros. É um longa com ritmo febril e que, como no trabalho de Bellocchio, aposta na liberdade ao conduzir a trama. Os dois filmes, assim como o meu, têm o patriarcado como tema central.

Como você avalia o cinema nacional no atual estágio? O Brasil agora vem deixando uma visão restrita ao cinema latino-americano para chegar a um patamar de potência mundial?
Acredito que temos já uma permanência criada ao longo dos anos pelos filmes de Walter Salles – especialmente Central do Brasil – e de Fernando Meirelles – Cidade de Deus –, que participaram de grandes festivais e, de alguma forma, abriram as portas para outros cineastas como eu. Mas não é tarefa fácil. Eu me lembro de uma exibição de meu longa A Vida Invisível, em 2019, em Colônia, na Alemanha. Era 20 de dezembro, próximo do Natal, e o exibidor temia a falta de público. Ele fez a seguinte comparação: cinema é como gastronomia, quem vai a um restaurante de culinária italiana, sabe o que vai encontrar, assim como quem vai a um restaurante de culinária francesa. A culinária chinesa ou brasileira, porém, é uma aventura para muitas pessoas. No cinema, o espectador que compra ingresso para ver um filme chinês ou brasileiro não sabe o que vai encontrar. Mas vivemos um momento em que a nossa cinematografia vive uma fase de diversidade que desperta mais interesse. E há mais um fator importante: os profissionais brasileiros participam hoje da formação de outras cinematografias, o que comprova sua capacidade. Temos diretores de fotografia, montadores, responsáveis pelo som, até atores, profissionais que atuam nos Estados Unidos e na Europa. Faz lembrar, mantendo as diferenças, o cinema americano dos anos 1950, que recebeu uma leva de europeus que fugiram da guerra e contribuíram enormemente para o desenvolvimento daquela cinematografia. Vivemos um grande momento graças ao sucesso de Ainda Estou Aqui e, agora, de O Agente Secreto. Meu único receio é de que o cinema brasileiro se transforme em uma onda como foi o argentino e o iraniano – mas acredito que nossa pluralidade possa ser mais forte.



[Fonte Original]

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