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quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Conheça o Phonk, a trilha sonora da geração Doomscroll

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No último mês, o artista musical com o maior público em todas as plataformas do YouTube não foi Bad Bunny nem Taylor Swift. Foi Slxughter, um produtor de phonk. O termo provavelmente não soa familiar, mas qualquer pessoa que tenha passado algum tempo nas redes sociais nos últimos anos certamente já o ouviu.

Talvez seja melhor dizer “já ouviu”, já que a grande maioria das pessoas que consomem phonk não o reconhece como um gênero, muito menos o escolhe ativamente. Mas ele está constantemente tocando ao fundo em vídeos do YouTube Shorts, TikTok ou Instagram Reels. Pode soar como música eletrônica dançante, mas também como hip-hop, trap, funk ou uma mistura desses estilos. Pode acompanhar vídeos de dança, montagens de jogos, edições de fãs, conteúdo de exercícios, melhores momentos esportivos, vídeos motivacionais e qualquer coisa que busque transmitir uma alta energia.

Conquistando silenciosamente seu lugar como a música mais popular em vídeos verticais, o phonk se tornou a trilha sonora inconsciente de uma geração que passa horas rolando o feed online sem parar. E rendeu uma fortuna para seus produtores, muitas vezes adolescentes que conseguem criar uma música viral em seus quartos e se tornarem milionários com royalties em questão de meses.

— Estou esperando por essa conversa há uns cinco anos — diz Kevin Meenan, 43, gerente de tendências musicais do YouTube, como declaração inicial em uma videochamada.

O motivo pelo qual alguém como Slxughter tem tantos seguidores no YouTube, explicou Meenan, é que a audiência mensal é calculada combinando as visualizações “clássicas” do YouTube com a audiência em todas as plataformas do YouTube, incluindo o Shorts. Este mês, a música de Slxughter alcançou 981 milhões de usuários únicos, mais que o dobro de Taylor Swift (394 milhões) e mais de seis vezes o de Bad Bunny (150 milhões).

— Phonk é um gigante adormecido — afirma Josh Mateer, 34, chefe de Artistas e Repertório da SoundOn, plataforma de distribuição do TikTok para artistas e gravadoras, em uma entrevista por telefone. — Existe uma enorme justaposição entre o volume de tráfego na internet em torno do phonk e a cultura que o gênero representa como um movimento musical underground.

As raízes do gênero remontam à cena do rap de Memphis, Tennessee, do final dos anos 80 e 90, quando produtores como Tommy Wright III e Three 6 Mafia começaram a definir um som cru e sinistro, marcado por graves pesados, letras misteriosas, sinos de vaca e loops hipnóticos. O gênero ressurgiu na década de 2010 com produções lo-fi e temas pesados; SpaceGhostPurrp é creditado por popularizar a grafia “phonk”.

— O que me fascina é como esse som regional, originalmente presente em fitas cassete, foi descoberto por produtores da internet a milhares de quilômetros de distância — escreveu o DJ e produtor Diplo, de 47 anos, em um e-mail. — Jovens produtores no SoundCloud ou no YouTube não estavam apenas sampleando Memphis; eles estavam dando um novo contexto ao som, alimentando o algoritmo.

Diplo lançou recentemente seu próprio álbum de phonk, intitulado, sugestivamente, “D00mscrvll”.

As músicas do Phonk estão rendendo uma fortuna para seus produtores, geralmente adolescentes que conseguem criar uma faixa viral em seus quartos. (Diplo também está entrando nessa onda.) — Foto: Reprodução

No final da década de 2010, produtores russos e do leste europeu entraram em cena. Tyler Blatchley, 41, cofundador da gravadora de phonk Black 17 Media, trabalhava na Sony na época. Em dezembro de 2020, ele ouviu uma faixa obscura do produtor russo Kaito Shoma no TikTok e reconheceu algumas letras do Three 6 Mafia. Ele contatou o DJ Paul, do grupo, e conseguiu a autorização para monetização da música.

Foi o início do que se chama drift phonk (devido ao seu uso em vídeos de carros fazendo drift) e a explosão do gênero nas plataformas sociais, principalmente por meio de vídeos do TikTok associados à cultura do “macho alfa”.

Blatchley e a Black 17 contrataram a maioria dos pioneiros da primeira geração do drift phonk. Um deles, Hensonn, tinha 22 anos quando sua faixa “Sahara” começou a ganhar popularidade online no final de 2021. Como a maioria das músicas phonk, “Sahara” começa com um riff sombrio que cresce lentamente para criar tensão, e então, de repente, adiciona um baixo pesado. É a estrutura ideal para edições com uma introdução curta, onde o drop da faixa é frequentemente usado para intensificar o clímax do vídeo.

Natural da cidade ucraniana de Vinnytsia, ele começou a praticar produção musical aos 15 anos.

— Aprendi tudo sozinho. Passei anos assistindo a tutoriais — escreveu em um e-mail. (Como muitos produtores de phonk, ele preferiu não usar seu nome verdadeiro.) — Memphis se tornou uma grande inspiração por causa da emoção crua e da autenticidade daquele som. Quando “Sahara” começou a se espalhar no TikTok foi surreal. Eu não esperava esse nível de repercussão.

E só continuou crescendo. Segundo dados da Black 17, a música tem mais de 24 bilhões de reproduções no TikTok, tornando-se uma das faixas de phonk mais reconhecidas de todos os tempos.

— Eu também a chamo de ‘música que você provavelmente nunca ouviu, mas com certeza já ouviu — afirma Lucy March, 34, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade da Pensilvânia que estuda phonk há anos, em uma entrevista por telefone.

Hensonn não quis revelar quanto ganhou com “Sahara”, mas músicas com números semelhantes renderam milhões aos seus criadores.

— Conheço alguns artistas que faturaram mais de 5 milhões de dólares com suas músicas — conta Blatchley.

Quando os rappers de Memphis gravavam suas músicas em fitas cassete na década de 1990, provavelmente não imaginavam que suas letras seriam ouvidas trilhões de vezes em todo o mundo 35 anos depois. Os dados da Black 17 mostram que suas 250 músicas mais populares acumularam mais de 1 trilhão de reproduções. Seu artista mais ouvido, Eternxlkz, do Cazaquistão, tem mais de 109 bilhões de reproduções. Nos últimos cinco anos, a Black 17 pagou mais de US$ 140 milhões aos criadores de seu catálogo.

— Acho que para eles, foi legal usar samples desses rappers de Memphis e criar músicas que não soassem como se viessem da Rússia — diz Blatchley.

Hoje, Blatchley mora em uma mansão com piscina e quadra de basquete a uma hora de carro de Miami.

— Nem sabemos pronunciar metade dos nomes deles — conta ele sobre seu grupo de artistas durante uma visita no início deste mês. — Esses jovens são produtores que trabalham em seus quartos, espalhados pelo mundo todo, e observam o algoritmo para ver o que está em alta nos vídeos verticais, ajustando o tipo de música que produzem de acordo com isso.

Em seu escritório em casa, uma fotografia está pendurada na parede ao lado de vários discos de platina e ouro. Ela mostra Blatchley e seus dois sócios fundadores sentados em uma escada com 14 produtores da Rússia, Ucrânia e Cazaquistão. A foto foi tirada em Dubai, Emirados Árabes Unidos, em 2023, onde a Black 17 organizou um reencontro com seus artistas. Ao relembrar suas histórias, Blatchley estimou que mais da metade deles são milionários hoje em dia. A maioria tinha entre 18 e 21 anos na época.

— Cada um deles tinha seu próprio estilo — diz ele, com um pequeno busto de Sócrates e uma carta de Magic: The Gathering expostos em sua mesa. — O que não posso dizer da nova geração do phonk. Eles só querem hits e só querem dinheiro.

A mais recente vertente do phonk é o chamado phonk brasileiro. Inicialmente apelidado de Automotivo phonk, foi confundido com o “funk” brasileiro, um gênero mais antigo com raízes genuinamente brasileiras. Foi essa vertente do phonk — mais agressiva que o drift, mas em alguns casos mais dançante — que levou Slxughter ao topo das paradas.

Deixando para trás suas raízes nas redes sociais, o phonk está tentando conquistar o mainstream. No início de 2026, Black 17 lançou a versão completa de “D00mscrvll”, do Diplo.

— Há ameaça, melancolia, bravata, tudo o que você imaginar. Não é apenas música de fundo que os gamers adoram, é um clima para uma vida vivida sempre online — escreveu Diplo, cujo álbum é uma homenagem às diferentes vertentes do phonk. — Eu estava pensando sobre o que o phonk significa em relação à nossa atenção coletiva, ansiedade e identidade nos dias de hoje acrescentou. Se o phonk é a trilha sonora inconsciente da geração do doomscroll, então ‘D00mscrvll’ é apenas a minha tela pós-moderna de decadência mental para manter essa trilha sonora imóvel por tempo suficiente para examiná-la.

No ano passado, Diplo introduziu elementos de phonk em “Like Jennie”, o sucesso que produziu para a estrela do K-pop Jennie.

— Sinto que a indústria musical ignorou o phonk — disse Blatchley em sua casa. — Eles não achavam que essas pessoas fossem artistas de carreira. Eles não achavam que nenhum desses caras pudesse ganhar um milhão de dólares com música, e os últimos cinco anos mostraram que estavam muito enganados.

[Fonte Original]

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